Especialista acha que o fato de a rede pública agregar crianças de todos os níveis sociais é um salto para a qualidade de ensinoSaber trabalhar a heterogeneidade é o grande e mais novo desafio que as escolas públicas têm pela frente. A democratização do ensino - só nos últimos cinco anos, cerca de 7 milhões de crianças passaram a ter acesso à escola no País -, está levando aos bancos escolares alunos de todas as faixas econômicas e sociais, fato que, na opinião da secretária estadual da Educação, Rose Neubauer, estaria contribuindo para índices estáveis e até negativos de avaliação de aprendizagem. Nesse contexto, o fim da repetência instituído com o programa de progressão continuada gera ainda mais dúvidas quanto à sua eficiência.Para a professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e vice-presidente do Conselho Estadual de Educação, Sônia Penin, a sociedade não precisa temer o fim da repetência e muito menos a democratização do ensino como um fator desqualificador da aprendizagem. Na opinião dela, o fato de a rede pública estar agregando crianças de todos os estratos sociais é um salto de qualidade no ensino. O que isso pode trazer ou influenciar em termos de avaliação é um fator secundário. As condições de vida de uma criança tem muito a ver com o desempenho que ela terá na escola. Os pais que estudaram, falam corretamente, enfim, têm mais conhecimento, ajudam na educação dos filhos, pois falam a mesma língua da escola. Eu acho que mais importante do que se preocupar com resultados de avaliação é tomar decisões com base nesse dado. Ao invés de ficarmos perguntando as razões dos índices de avaliação, devemos traçar metas ações de como a escola vai trabalhar com essa criança para que ela atinja o nível das outras. Então, eu prefiro mudar o eixo dessa questão. Não é discutir o porquê, mas soluções, considerou.A educadora acha que a progressão continuada de aprendizagem só tem a contribuir com melhores índices de aproveitamento, na medida em que aposta nos pontos positivos dos alunos. A repetência, ao contrário, evidenciava as dificuldades. Com raríssimas exceções, os alunos não vão mal em todas as matérias. Entendem mal a matemática, mas vão bem em história e ciências. Quando repetia, era obrigado a rever aquilo que não sabia e o que já sabia bem, ou seja, ficava estagnado em suas potencialidades. Isso, além de provocar o desestímulo, confirmava um retrocesso, avaliou. Em Bauru, ontem, para ministrar uma palestra a diretoras e profissionais de educação, Sônia Penin falou sobre a necessidade de cada unidade planejar e implantar novos projetos pedagógicos. Isso, porque no sistema de progressão continuada a recuperação se dá tão logo as dificuldades sejam detectadas. A escola e professores têm que buscar metodologias pedagógicas diferentes para conseguir o avanço dos que estão atrasados. As classes de aceleração já mostraram que é possível, inclusive, fazer alunos saltarem de séries. Até crianças especiais têm conseguido avançar, disse.Essa ótica, portanto, confirma que a responsabilidade de fazer o aluno aprender é exclusivamente da escola e, conseqüentemente, dos métodos pedagógicos utilizados. Se determinados alunos não conseguem aprender pelo método inicialmente aplicado, a escola tem que ter alternativas de educá-lo de outra forma. O trabalho paralelo de capacitação dos professores, aliás, têm justamente essa preocupação. Não adianta colocar culpa no aluno, nos pais ou no nível sócio-econômico dele, enfatizou.Para que as escolas consigam superar esse desafio, Sônia Penin considera imprescindível o domínio de metodologias de ensino que trabalhem com a heterogeneidade. Muitos professores ainda defendem classes homogêneas, ou seja, aquelas onde todos têm ritmos parecidos de aprendizagem. Foi a maioria dos educadores brasileiros que desejou a progressão continuada na LDB (Lei de Diretrizes Básicas), pois entendeu que ela é fundamental para a formação de uma sociedade mais justa. Ensino básico quer dizer cidadania básica.A educadora atribui a resistência ao processo de progressão continuada à cultura brasileira da seletividade. Estão comparando os primeiros anos de aprendizagem com uma faculdade de Medicina, onde a seleção é ferrenha, mas não podemos achar que alguns têm direito de serem cidadãos e outros não. Temos que garantir esse aprendizado ascendente pelo menos até os 14 anos, destacou. Ao contrário do podem pensar muitos desavisados, o sistema de ensino em questão não partiu de determinações governamentais de ordem política ou ideológica. Trata-se de um método já adotado em várias partes do mundo. Na Inglaterra, por exemplo, proposta semelhante foi aprovada em 1944, também enfrentando a resistência de professores e pais de alunos. A educadora acha que a primeira grande conquista desse novo processo será o crédito dos pais de alunos e da própria escola. Partindo do princípio de que todas as crianças têm condições de aprender - a Psicologia já revelou isso cientificamente -, a missão das escolas será encontrar metodologias pedagógicas que consigam atender os diferentes tempos dos alunos. Os resultados desse processo poderão demorar ou não, conforme o envolvimento de cada escola. Com certeza, o avanço demorará mais a chegar onde houver a crenças inadequadas (seletividade, por exemplo) que já não resistem a nenhuma lógica, comentou. Levando experiênciasA diretora de ensino, Edinéa Sita Cucci, contou que várias escolas de Bauru vêm desenvolvendo trabalhos interessantes no processo de recuperação de seus alunos. Teatro, música e excursões têm sido usados para propiciar experiências novas, principalmente àqueles que não tiveram contato com esse tipo de cultura antes de chegar à escola. As metodologias estão sendo elaboradas para atender aos vários níveis da clientela, sempre através de formas estimuladoras. Tem criança que anda com oito, dez meses e até com mais de um ano, mas sabemos que todas vão andar. Se, ao primeiro tombo, você a coloca de volta no berço e diz que ela só sairá dali quando aprender a andar, as coisas ficarão mais difíceis. Seria uma forma de negar a oportunidade dela aprender. Com a educação é a mesma coisa e, por isso, a importância da progressão continuada. Também não podemos tolher o acesso das crianças à escola, como quiseram algumas pessoas na unidade do Airton Busch, onde queriam barrar a freqüência de alunos cujos pais estejam cumprindo pena na cadeia. A escola tem o papel de atender as diferenças da sociedade e estamos tentando levar essa concepção aos nossos diretores e, indiretamente, aos professores, disse Cucci.