Vanessa Gonçalves de Souza, 24 anos, com suspeita de embolia cerebral, esperou 24 horas por uma vaga no Hospital de BaseOs problemas na área da saúde pública em Bauru parecem não ter fim. Além da falta de médicos e equipamentos no Pronto-Socorro, a população também tem de amargar a insuficiência de leitos do SUS, mas o pior é o sistema de triagem que determina quem vai ocupar a próxima vaga. A comunicação entre as unidades de urgência e emergência e os hospitais, notadamente o Hospital de Base, é falha, conforme constatou o JC na tarde de ontem.A confirmação de mais esse agravante veio por conta de uma denúncia feita por Clodoaldo Soares, cuja esposa, Vanessa Gonçalves de Souza, 24 anos, deu entrada na manhã de quinta-feira no Pronto-Socorro da Bela Vista. A moça chegou à unidade por volta das 9 horas com o lado direito do corpo parcialmente paralisado. Há nove dias, ela deu à luz ao segundo filho, numa cesárea sem complicações, na cidade de Garça. Na madrugada de quarta-feira, enquanto amamentava o filho, Vanessa começou a sentir formigamentos no braço direito e, desde então, só piorou. No PS da Bela Vista, a paciente foi examinada por três médicos e todos apontaram para um único e possível diagnóstico: acidente vascular cerebral, conhecido no meio médico como AVC. Na tarde de ontem, já há mais de 24 horas de sua chegada no PS, Vanessa continuava recebendo soro e não havia sido submetida a qualquer exame específico. Autorizado a comentar o assunto pela diretoria do Departamento de Urgência e Emergência, o médico Áureo Érnica, um dos plantonistas que examinaram a paciente, informou que o estado de saúde de Vanessa era grave, com risco de morte, inclusive. Ela já não fala há horas, não tem qualquer movimento no membro superior direito e movimenta o inferior com muita dificuldade. Tudo leva a crer que ela teve uma embolia cerebral, um quadro que costuma aparecer após uma cirurgia ou quando a pessoa fica muito tempo imobilizada. O sangue forma coágulos que podem se deslocar pela corrente, obstruindo alguma veia. No caso dela, essa obstrução certamente ocorreu no cérebro. No momento, o quadro parece estável, mas uma piora pode haver a qualquer momento, de modo que ela necessita urgentemente de internação e uma tomografia do crânio, situou. Érnica disse que o PS fez vários contatos com o HB no sentido de conseguir um leito para Vanessa. Os familiares da paciente também passaram a manhã de ontem correndo, sem sucesso, atrás de uma vaga para interná-la. Eles falaram que era para a gente esperar até a hora do almoço, porque costumam dar altas pela manhã, mas até agora não recebemos nenhuma resposta, indignou-se Fábio Machado, cunhado de Vanessa, por volta das 14h30.A reportagem do JC procurou a direção do Hospital de Base para saber se o caso de Vanessa era isolado ou mais um no crítico dia-a-dia do sistema público de saúde. As explicações foram dadas pelo diretor-clínico, Samuel Fortunato, que fez questão de mostrar a sistemática de atendimento no complexo PS - HB. Segundo ele, que reconheceu a necessidade do tratamento específico para a paciente, a demora na internação deu-se em virtude de falhas de comunicação. Eu não estou sabendo desse caso, mas acredito que o pedido de internação foi registrado para a enfermaria, disse, antes de confirmar a suspeita junto ao Serviço de Arquivo Médico e Estatística (Same) do hospital. Realmente, a solicitação constante na papeleta do setor requisitava tratamento neurológico e leito de enfermaria. Quando a requisição é para enfermaria, a demora pode ocorrer mesmo, porque, normalmente, se trata de casos não urgentes. Quando o quadro do paciente é grave, os próprios plantonistas dos PSs entram em contato com os médicos do hospital para requisitar a internação na UTI. O caso dela realmente é urgente, mas a falta de comunicação adequada gerou esse problema, justificou, sem, no entanto, atribuir culpa ao PS da Bela Vista. Curiosamente, a disponibilidade de vagas na Unidade de Tratamento Intensivo costuma ser mais freqüente do que nas alas de enfermaria. Isso, segundo Fortunato, se dá ao fato de os quadros graves terem prioridade nos atendimentos. Sempre damos um jeito, simplificou. Já as enfermarias vivem uma problemática constante, uma vez que recebem pacientes de todos os tipos, inclusive aqueles apresentando quadros de esclerose que são deixados - para não dizer abandonados temporariamente - pela família. Temos pacientes estáveis internados, mas não podemos tirá-los dos leitos. Existem, também, aqueles que recebem alta, mas dependem de ambulância para retornar à casa. Às vezes, esses acabam ocupando leitos por um ou dois dias após a alta. Não podemos simplesmente colocá-los no corredor, considerou.Antes que a reportagem deixasse o HB, a internação de Vanessa já sido providenciada. Segundo Fortunato, ela iria ficar na enfermaria caso apresentasse quadro estável. Por volta das 19 horas, porém, a família de Vanessa, que registrou boletim de ocorrência contra o HB, comunicou que ela ainda aguardava atendimento médico. Ela já foi internada, mas continua com o mesmo soro de quando saiu do PS. Até agora, nenhum médico veio examiná-la, lamentou Fábio Machado. Vale dizer que com a longa permanência no Pronto-Socorro, Vanessa parou de amamentar o filho recém-nascido e apresentava quadro febril por conta do leite não retirado.