O salário mínimo de 100 dólares, como Inês de Castro, foi sem nunca ter sido. Decantado por Antonio Carlos Magalhães, há seis meses teria a característica emblemática de poder de compra igual ao daquela nota verde estampada com a efígie de Benjamin Franklin. Em abril de 2001, quando entrar em vigor o novo mínimo que as bases governamentais no Congresso estão garantindo, os 180 reais no câmbio comercial terão o valor de 70 dólares. Quando ACM arvorou-se pela mídia como um novo pai dos pobres, o salário mínimo equivalia a 77 dólares. Em vez de aumentar, o mínimo vai desmilinguir.Envergonha a todos nós o vizinho e humilde Paraguai pagar salário mínimo de 180 dólares. Nos Estados Unidos, os cucarachas que vivem clandestinamente em território norte-americano ganham 680 dólares, mesmo desempregados. Na França, o operário de chão de fábrica percebe mil dólares mensais.Para a Força Sindical, o mínimo ideal seria de 900 reais.Ainda existe no Congresso uma reação à exigência de cortes nas emendas orçamentárias dos deputados e senadores, necessários para produzir um corte de 1,6 bilhão de reais nas despesas do governo. Sem esse dinheiro o Tesouro não teria como arcar com os custos adicionais. O deputado Inocêncio de Oliveira, líder do PFL, acha que os parlamentares não podem abrir mão dessas benesses, porque iriam fazer falta nas bases eleitorais.Os prefeitos estão impedidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal de fazer politicagem com as receitas orçamentárias correntes e se negam a deixar esse mundo virtual. O dinheirinho extra conseguido pelo deputado da terra, faz parte daquele espaço de manobra financeira que ficou faltando.Os prefeitos de pequenas e médias cidades choram dizendo que vão precisar de mais 400 milhões de reais para cumprir a nova folha de vencimentos dos seus funcionários. Ameaçam demitir se o governo não contemporizar.No Brasil, 100 milhões de pessoas ainda dependem do salário mínimo. Destes, 40 milhões ganham só 30 dólares, ou 60 reais. Os que estão abaixo da linha da miséria sequer têm acesso à água potável.Esse problema da miserabilidade, o governo FHC irá dar conta ainda neste mandato. Jacta-se de que o salário teve um aumento de 110% em relação aos reajustes da cesta básica, desde o advento do Plano Real. Para comemorar, mandou cortar os pacotes (não vamos chamá-los de cestas básicas) com farinha de mandioca, rapadura, feijão, sal e óleo que eram distribuídos pela Ação Solidária de d. Ruth Cardoso, por considerá-los demasiadamente assistencialistas. Matando os miseráveis de fome - deve ser a estratégia do governo - estará liquidada a miséria.***Sobrará, mais uma vez, para os aposentados. O mínimo será reajustado em 19,29%, mas somente 5,57% servirão para reajustar seus proventos. Isso significa que os nossos sempre esquecidos velhinhos, ficarão com um quarto apenas do que for repassado aos trabalhadores, com o novo mínimo.(*) Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC