São incríveis histórias de pessoas que caminham pelas rodovias do País como opção de vida, fazendo delas suas eternas moradasCaminhando e cantando, outras vezes rezando, faça sol ou chuva, de dia ou de noite. O horizonte a perder de vista é a parada mais próxima e o vento que sopra dos carros que passam em alta velocidade é o companheiro de sempre. Esse é o cenário solitário dos estradeiros, homens e mulheres de todas as idades que escolheram as rodovias brasileiras para caminhar rumo à liberdade. A realidade econômica do País, no entanto, não oferece a essas pessoas de bem uma morada fixa. O acostamento quente e com cheiro forte de piche é sempre uma eternidade.A experiência de uma vida sem rumo é fantástica. O lavrador Vital Paschoalini, 68 anos, é um dos milhares desses personagens que pirilampam pelas rodovias do Brasil. A estrada é o palco de sua vida há mais de vinte anos. Nela, ele dorme, cozinha, toma banho, alimenta-se quando dá e ri da própria sorte. Sua herança é um saco de estopa que carrega nas costas. Dentro dele, além das ilusões comuns de um sexagenário, um papelão que serve como cama, uma garrafa de água, um pouco de comida fria que sobrou de outros dias. É o que tenho na vida, conta.Eram 10 horas da última sexta-feira. Sua morada do dia é a rodovia Marechal Rondon. Paschoalini estava caminhando desde às 7 horas. Saiu de Duartina na manhã de quinta-feira. Com seu saco de 15 quilos, andou, andou até chegar a Bauru. Dormiu nas proximidades da cidade e de manhãzinha estava em pé, pronto para seguir viagem. Ando uma média de 20 quilômetros por dia, calcula. À noite, o lavrador desempregado se esconde para dormir. Só onça me pega, diz, rindo, deixando a mostra os poucos dentes que sobraram em sua boca. Já rodei por Minas Gerais, Goiás, Paraná e Rio de Janeiro. Não tenho parada. Não gosto dessa vida, mas não arrumo mais emprego com essa idade, lamenta.Família não é um assunto que agrada a estradeiros, pessoas desligadas das raízes. Com Paschoalini não é diferente. Tive muitos filhos, tive muitas mulheres. Mas há muitos anos estou sozinho. Antes só do que mal acompanhado, né!, conclui, apressando-se em encerrar a conversa. Viver nas rodovias não é para qualquer um. As dificuldades são muitas. Mas o lavrador encontra na velha e eterna companheira solução para tudo. O remédio para suas doenças está na estrada. Arrumo cura por aqui mesmo, ensina, apontando para um dos dedos enfaixado do pé direito, onde um corte o incomoda ao andar. Ervas do mato é a solução imediata.O pouco da leitura que ele tem serve para identificar as placas que margeiam as rodovias, principalmente aquelas que apontam as distâncias entre as cidades. Vou para Pederneiras, decide, apontando para uma placa. Depois, só Deus sabe. Sem comer bem há mais de dois dias, Paschoalini revela sua primeira parada do dia: qualquer posto de gasolina. Sua esperança era de que alguém lhe arrumasse um pouco de combustível orgânico. Depois de abastecido, pé na estrada.