Apesar de estar com certa pressa, eu deveria ainda naquele dia fazer a reserva do meu vôo para o Brasil. Assim, entrei em uma agência de viagens em Munique. Quem me recebeu foi o próprio proprietário.De imediato, percebi, através de seu sotaque, que ele vinha da antiga Alemanha Oriental. No preenchimento de meus dados pessoais, ele me perguntou qual era minha profissão. Então, respondi que era Padre. Padre, padre mesmo?, perguntou-me o proprietário com ar de curiosidade. Sou padre, e com muito prazer!, respondi com um certo sorriso. Foi então que o proprietário me contou que havia sido criado no regime comunista, sem nenhum contato com religião, e sempre teve a vontade de ouvir de um padre - um padre de verdade - o que realmente significa a palavra fé. Antes que eu tivesse tempo de responder, um garoto ao lado, o office boy da agência, comentou com um sorriso: Ter fé é ter coragem de voar! Exatamente!, aproveitei a deixa, uma pessoa de fé é alguém que não tem medo de voar! Foi um ótimo começo para a nossa conversa que me fez perder a sessão de cinema, mas me fez ganhar um amigo.O garoto tocou direto no ponto central da questão. Fé é uma palavra muito simples, mas ao mesmo tempo, muito fácil de ser mal entendida. Para compreendermos o que é fé, torna-se necessário, primeiramente, distinguirmos fé de certeza. Ao contrário do que muitos pensam, fé não é sinônimo de certeza. Na verdade, quem afirma: Eu tenho fé em Deus, eu tenho certeza de que Deus existe!, pode até ter fé, mas mostra claramente, que não conhece o seu significado. Se eu tenho certeza da existência de Deus, então a fé torna-se para mim desnecessária. Eu posso afirmar que tenho certeza que o jornal que estou lendo existe, pois eu posso vê-lo, tocá-lo e tenho provas concretas (não teorias!) de sua existência. Portanto seria absurdo dizer que tenho fé na existência do jornal que estou lendo. Se tenho certeza não há necessidade alguma de fé. Portanto, certeza e fé não combinam. O contrário é correto: Eu não tenho certeza da existência de Deus, mas tenho fé em Deus. Quando morrermos, todos nós perderemos a fé, pois poderemos ver Deus face a face, como diz São Paulo (Cor. 13, 12). Enquanto isso não acontece, a fé é a minha única possibilidade de ter uma relação com Deus. Para que a essência da fé seja compreendida é necessário também reconhecer a dúvida como sua companheira. Já que fé não significa certeza, ela também não é antônimo de dúvida. Quem afirma ter perdido a fé por ter muitas dúvidas, também não compreendeu o seu significado. Justamente a dúvida pode ser um sinal de uma grande fé. Se colocarmos a certeza e a dúvida em seus devidos lugares, podemos então chegar à essência da fé, ou seja, à coragem. O sinônimo de fé é na verdade coragem e o seu antônimo é o medo. Ter fé é libertar-se do medo que limita o nosso viver. Fé é ter a coragem de jogar-me nos braços de um ser, chamado por mim de Deus, diante do qual não tenho provas, muito menos a certeza, de sua existência. Fé é ter coragem de dizer sim para a vida e acreditar em um ser maravilhoso que me ama profundamente. Ter fé é se jogar em um abismo escuro, sem saber exatamente o que me aguarda em seu fundo. É viver um relacionamento com Deus sem nenhuma hipocrisia ou medo de sermos nós mesmos. É ter coragem de duvidar, de questionar e fazer perguntas, o que significa ter com Ele um relacionamento vivo. Ter fé não é aceitar uma tradição, por ter medo de viver, ou por ter medo de que a minha vida se torne um desastre ou um fracasso. Eu não assumo uma fé pelo medo de, mais tarde, ser jogado no inferno, mas sim por ter coragem de, neste momento, querer construir o céu através de uma relação com Deus. Uma pessoa de fé é aquela que busca apaixonadamente a vida, a alegria de ser, o movimento que anima, amplia, aprofunda e transforma.Fé é não ter medo de ser feliz e compreender que conformar-se é morrer (Henry Thoreau). A fé também não está necessariamente ligada à uma religião institucionalizada. Uma pessoa pode ter fé, sem pertencer a um grupo religioso. Mas é necessário que os membros de uma religião tenham fé, caso contrário a religião torna-se um cumprimento frio de preceitos e normas, um ritualismo ou um negócio. O papel de uma religião é oferecer uma experiência de grupo que esclareça, alimente e mantenha viva a fé, ou seja, a profunda coragem de viver. Para todos os cristãos, hoje inicia-se o Advento, o tempo de preparação para o Natal. Seria ótimo se todos nós, durante estas três semanas, nos preparássemos para o Natal, para que este viesse a ser um momento de verdadeira fé: de libertação de nossos medos e o nascer do Novo em cada um de nós. (*) Especial para o JC Cultura