As histórias secretas da vida brasileira já pipocaram muito pelas livrarias e bancas de jornais. Ainda nesta semana, dois livros já começam a se insinuar pela vida cultural do nosso país: Autópsia do medo vida e morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury, livro-reportagem do jornalista policial Percival de Souza (Editora Globo); e Seja feita a vossa vontade, dos jornalistas americanos Gerard Colby e Charlotte Dennett (Editora Record).No primeiro, Percival conta as tramas quase indecifráveis do delegado Fleury, o carrasco de prisioneiros políticos brasileiros na época da ditadura militar. O matador de bandidos é desvelado neste livro com a mesma perspicácia com que o jornalista decifra os atos da bandidagem pela televisão. À procura de informações escondidas pelo tempo, Percival conseguiu recuperar segredos de uma trama que poderia nem fazer parte da história brasileira. Mas fez. E a Autópsia do Medo mostra os fatos antes que o próprio Percival vire protagonista de uma queima de arquivo.O segundo livro, dos jornalistas americanos, conta outra história que é a mesma de Percival. Explico: o delegado Sérgio Paranhos Fleury era parte envolvida também na trama contada em Seja feita a vossa vontade. As histórias se cruzam e formam uma teia de tramas, fábulas, verdades e mentiras que o Brasil todo protagonizou. Colby e Charlotte, os autores do segundo livro, desvelam a trajetória do milionário Nelson Rockfeller, do missionário, também americano, William Cameron Townsend e da CIA para conquistar a Amazônia e a América Latina. O delegado Fleury, em análise minha, estava envolvido, pois fazia parte dos esquemas montados pela repressão. Estes dois livros trazem, então, uma mesma história. A história das farsas protagonizadas por gente que está a todo momento em busca do poder, da fama e do dinheiro fácil. Apesar de contarem histórias ocorridas há algumas décadas, os jornalistas Percival, Colby e Charlotte estão mais atuais do que nunca. Quem nunca ouviu novas versões sobre aquilo que apareceu um dia na televisão, no rádio, no jornal ou na revista? Explico outra vez, dando um exemplo: será que no debate entre Lula e Collor, naquele fatídico ano de 1989, a insinuação de Collor sobre o belo e caro aparelho de som que existia na casa de Lula seria realmente para falar do aparelho de som? E a morte do presidente americano Kennedy, em 1963, mais o golpe sofrido por João Goulart, em março de 1964, não teriam algo em comum?São segredos que qualquer jornalista bem experimentado pode revelar. Muitos não revelam... mas sabem! Como todos nós sabemos de muitas coisas que ocorrem nos bastidores da sociedade brasileira, no entanto, deixamos a história correr por conta própria. Isto não é desenterrar defunto; é, sim, uma forma de tentar explicar coisas que os próprios protagonistas quiseram deixar às escondidas. Agora, já pensou se um jornalista bauruense, dos que não têm rabo preso com o poder, resolve contar os segredos da vida política local? Seria interessante: saber quem articulou o quê; quem se reuniu onde e com quem para armar determinada situação; como se perdeu uma eleição intencionalmente; de que maneira foram escolhidas as peças para determinado quebra-cabeças político e eleitoral; quais os métodos de repressão usados em esfera local; e... por aí vai. Seria um belo livro de cabeceira! (Reginaldo Tech é professor e pesquisador do departamento de Ciências Humanas da FAAC/Unesp-Bauru)