Uma emissora de televisão alemã me pediu para ajudar na preparação de um Talk-Show sobre o tema O que eu tenho a dizer como estrangeiro. Minha tarefa foi encontrar pessoas estrangeiras casadas com alemães. A tarefa não foi nada difícil. Somente em Munique vivem certa de 3.700 brasileiros, entre os quais a grande maioria é formada por brasileiros casados com alemães. O interessante nestes casais não é somente a convivência de duas pessoas de culturas diferentes sob um mesmo teto, mas principalmente os filhos gerados neste ambiente multicultural. Esta nova geração vem caracterizada por uma espécie de cosmopolitismo.Tendo pais de diferentes nacionalidades e culturas, os filhos acabam não assimilando completamente uma determinada cultura e muito menos integram-se perfeitamente no país onde vivem. O que acontece na verdade é uma combinação de aspectos culturais diversos. Esta espécie de família multicultural não é um fenômeno exclusivo de brasileiros que vivem na Alemanha. Cada vez mais aumenta o fenômeno da transnacionalização, ou seja, da imigração de pessoas para diversos países, aumentando desta forma a união de pessoas provenientes de diferentes nacionalidades e culturas.Este tipo de família multicultural com filhos cosmopolitas possui algo de comum com os produtos estrangeiros presentes em nosso mercado e o acesso a meios de comunicação como a Internet: todos eles são sintomas de um fenômeno denominado pelo sociólogo Roland Robertson de globalização.A globalização é um processo em desenvolvimento por todo o mundo. Na Europa ela é também conhecida como americanização, denominação mais do que adequada, pois na verdade o precursor deste movimento mundial são os Estados Unidos. Incorreto é afirmar que a globalização significa uma homogeneização estética e ideológica da cultura de massa norte-americana por todo o mundo, homogeneização esta que a própria cultura norte-americana não possui. A cultura norte-americana é um produto de uma dinâmica interna, através da qual, os Estados Unidos, como uma sociedade multirracial, assimilam influências de outras culturas devolvendo-as novamente ao mundo em uma versão americanizada. Este é o fenômeno que os sociólogos chamam de hibridização. O sucesso dos Estados Unidos não está simplesmente na presença de seus artigos de consumo pelo mundo como McDonalds e Coca Cola, mas sim na disposição de assimilar e igualar elementos diversificados transformando-os em bens de consumo. Isso significa globalizar. O preço da globalização de expressões culturais é a perda da raiz.Quando a Salsa conquistou New York e a partir de lá dominou o mundo, este estilo musical foi desligado de seu contexto latino-americano e se tornou disponível e adequado a locais e regiões que não possuem nenhuma identificação com o mundo latino. Mas a globalização não é uma rua de mão única. Ao mesmo tempo que a cultura norte-americana influencia e modifica os costumes de outras nações e continentes, ela é transformada ao receber correntes culturais de outros povos.O que chamamos de globalização não é a dominação de uma cultura sobre a outra, mas sim a expressão de uma mudança do mundo moderno, no qual os Estados Unidos não é o dominador, mas sim o precursor, um protótipo da nação transnacional. A estrutura ideal da globalização é o que os Estados Unidos possuem: uma democracia igualitária de consumo. O princípio do consumo é a base de integração na globalização, onde tudo deve funcionar para a felicidade privada do indivíduo.Com este objetivo os conflitos entre culturas, religiões ou raças são amenizados, pois a regra do jogo é fazer com que todos se tornem consumidores, ou seja, ninguém deve ser excluído do ato de consumir. No processo de globalização a única cultura dominante é a cultura do consumo.Diante da globalização o Brasil é um triste paradigma. O nosso país possui multiculturalidade e uma grande capacidade de assimilação de novas expressões culturais. O único problema na verdade é a falta de justiça social, a qual exige uma distribuição melhor da renda e condições básicas (educação, saúde...) para a inclusão de todos como consumidores. Enquanto existir milhões de excluídos que vivem como na Idade Média, a globalização continuará sendo uma realidade virtual para muitos e privilégio de poucos. Exatamente como o outro pão, o pão da justiça tem de ser assado pelo povo, substancioso, saudável, diário. (Bertolt Brecht). (*) Especial para o JC Cultura