Quatorze dias após a última fuga, os presos do xadrez 9 estavam cavando túnel quando foram descobertosPela segunda vez no segundo semestre deste ano, os presos da Cadeia Pública de Bauru, o Cadeião, tentaram fuga em massa através de um túnel. A tentativa aconteceu por volta da 1 hora da madrugada de domingo, 14 dias depois da última fuga, quando nove presos fugiram.A ação dos 12 presos que ocupavam o xadrez de número 9 foi percebida pelo carcereiro de plantão, que agiu rapidamente, impedido que a fuga se efetivasse. Ele acionou o Plantão da Delegacia Seccional e a Polícia Militar para dar apoio.A escavação do túnel foi feita a menos de um metro do local onde, em outubro, fugiram alguns presos. Os detentos pretendiam tirar a terra e usar o mesmo caminho dos fugitivos anteriores. Se conseguissem escavar cerca de cinco metros, ganhariam o corredor lateral. De lá, poderiam chegar à rua. Além da escavação, os presos conseguiram serrar as grades internas da janela do banheiro, em forma de cruz. A barra serrada estava recolocada na janela de modo a não chamar a atenção, porém foi percebida pelos policiais. Ontem, a barra foi recolocada na janela. Os 12 presos da cela 9 foram redistribuídos nas demais celas, piorando ainda mais a superlotação do Cadeião. O clima de festas de final de ano contagia os presos e coloca as cadeias e os presídios em estado de atenção. É nesta época do ano e no Carnaval que os detentos mais desejam a liberdade e lutam por ela, através de qualquer meio. Fugas, motins e rebeliões são práticas comuns em finais de ano, especialmente se a cadeia estiver superlotada. Na Cadeia Pública de Bauru, a situação não é diferente. Com capacidade para abrigar 70 presos, a cadeia estava, ontem, com 145, cinco presos a mais do dobro de sua capacidade. A tentativa de fuga piorou ainda mais a situação, que se tornou insalubre para os presos e funcionários. Com a redistribuição dos detentos nas celas, cada uma delas, com capacidade para seis, está com uma média de 16 detentos. A superlotação das celas acarreta desconforto e revolta. Os presos estão dormindo no chão das celas que medem 4x4 metros, um com o nariz no pé do outro, como eles mesmos dizem. Um banheiro para uso comum também é desconfortável. Para os funcionários, a superlotação acarreta o estresse. É preciso atenção redobrada e reflexos rápidos porque a qualquer momento os presos poderão deflagrar um motim, rebelião ou fuga. A cadeia está com um carcereiro a menos. Os três que ficaram estão se revezando 24 horas. Sistema CarcerárioO sistema penitenciário brasileiro está caótico. Só no Estado de São Paulo, existem 57 mil presos distribuídos nas 71 penitenciárias. Número não definido de presos aguardam uma vaga no sistema e, na maioria das vezes, cumprem a pena nos distritos policiais, onde deveriam ficar provisoriamente, até serem setenciados. A assessoria de Imprensa da Coespe informou que não há previsão de vagas para os presos de Bauru, apesar da cidade ter o ônus de ter três presídios. Os três estão superlotados. A PI tem capacidade para 560 presos e está com 865. A PII tem a mesma capacidade e está com 876. O Instituto Penal Agrícola tem capacidade para 500 e abriga 692, informou.Vale lembrar que a assessoria não divulgou de onde são esses presos, mas uma fonte do sistema garante que a maioria é da Capital. Segundo o assessor, estão previstas a instalação de 11 centros provisórios para esvaziar os distritos. Em Bauru não há previsão de instalação. A mesma história o bauruense já ouviu na época da instalação das penitenciárias. Os cinco primeiros centros já estão em construção, dois em Guarulhos, um em Taubaté, um no Litoral e um em Campinas.Faltam vagas nos presídiosConseguir uma vaga em uma das penitenciárias de Bauru do sistema da Coordenadoria dos Estabelecimentos Prisionais do Estado de São Paulo (Coespe) é um verdadeiro tormento para o delegado que estiver como diretor do Cadeião. O problema não é novo e sempre que ocorre uma rebelião ou motim quem arca com os prejuízos é a sociedade.O atual diretor do Cadeião, delegado João José Dutra, disse que a dificuldade é tanta em conseguir vagas no sistema prisional que ele tem mandado preso de Bauru para Junqueirópolis, a 320 quilômetros da cidade. Temos presos em Getulina e onde houver vagas, explicou.Ele acha que Bauru deveria ser mais prestigiada, uma vez que arca com o ônus de ter três penitenciárias: as penitenciária I e II e o Instituto Penal Agrícola (IPA). Segundo ele, os presídios do município recebem presos de todo o Estado, especialmente da Capital, e para os presos de Bauru não há vagas. A vinda dos presos da Capital, segundo Dutra, acarreta outros problemas, dentre eles o aumento da criminalidade. Quando o preso vem para o Interior, a família acaba vindo junto. Com a família, os amigos que, na maioria das vezes, estão envolvidos em outros crimes.Dutra ressalta que já conversou com a diretoria da Coespe sobre o problema. No entanto, em dois meses, Bauru recebeu apenas quatro vagas em cada unidade. Depois desse período, conseguir vagas no sistema é um problema. Se a cadeia de Bauru tivesse seis vagas mensais, a situação não estaria como está, disse.O diretor do Cadeião lembra que até presos recapturados do IPA estão ficando na cadeia. A polícia pega eles e como eles não podem retornar ao IPA, ficam aqui aguardando vaga. Eles dão problemas porque a cadeia não tem a mesma infra-estrutura de uma penitenciária. Eles sabem que têm o direito de ir para o sistema e começam a pressionar. Eu não tenho como transferi-los, disse.