O presidente Fernando Henrique Cardoso está consciente, conforme tem desabafado no Exterior, de que o desenho do Brasil Novo, rascunhado desde a era de Fernando Collor, ainda se acha somente na plasticidade do papel, já que quase tudo quanto ele prometia apagar de ruim, com borracha forte, continua por aí em ramagens bem vivas, quase nada tendo mudado para melhor. Note-se, por exemplo, a paisagem vermelha da corrupção, que se encontra ainda agitada por bombas de variadas potências que explodem aqui e ali, na administração pública ou fora dela. Veja-se ainda o terreno fértil da inflação, que no desenho aparece exuberantemente ainda hoje como nas épocas dos governos anteriores.Aparentemente desolado (preocupação entristece demais), o chefe da Nação vai deixando de sentir-se, como não desejava desde o princípio, ser o oportuno pai da Pátria, vergastada há tempos por um mar tempestuoso de problemas que reclamam solução urgente e aos quais ele não consegue atender nestes tantos anos de governo, que diz democrático. E não o consegue porque, certamente, falta à Nação, por via da própria cúpula governamental e de setores mais representativos da sociedade, o necessário discernimento para entender corajosamente e, ato contínuo, arregaçar as mangas, que a solução de tudo depende da participação de todos e não apenas de medidas oficiais não totalmente cumpridas pela Nação, na qual se incluem, com uma enorme parcela de responsabilidade, faixas bem largas do empresariado que, por processos diversos, teima ainda em praticar o over, para multiplicar suas sempre esticadas receitas, ao invés de partir para a modernização de suas empresas e negócios e, mediante isso, contribuir para a solução das questões financeiras suas e as econômicas do todo nacional.A grande frustração é, por isso, a nossa feroz inflação, que não despenca e, por isso, não realiza plenamente os acalentados sonhos da Nação. Então, urge que todos economizem, gastem menos, reduzam o supérfluo. Paradoxalmente, a compra de carros zero, nacionais ou importados, e aplicações desesperadas em imóveis para locação, seguem, feliz ou infelizmente, a toque de caixa, inchando a praça desguarnecida... As custosas e sucessivas viagens e excursões a tantos países do Exterior vão no mesmo ritmo. Enquanto isso, só o imenso povão, destituído de poupança e vivendo de salário mínimo de 151 reais, fica à margem do processo ou retrocesso, até desaparecendo das lojas e supermercados por carência de uns poucos reais para adquirir o necessário para a família. Conseqüentemente, vai o Brasil Novo permanecer ainda, por algum tempo, somente nos cadernos e agendas oficiais, porque não conseguirá, por mais alguns preciosos anos, repintar os seus envelhecidos traços. É a nossa opinião! (N. Serra, Jornalista Responsável do JC e Delegado Regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado).