No Brasil, como na prática temos visto inúmeras vezes, nem sempre a coisa certa está no lugar certo. Explico: temos o Legislativo nos municípios, no Estado e no País para fiscalizar as coisas mais importantes em suas respectivas esferas. No entanto, precisamos sempre de um parente, não-remunerado para tal, para corrigir a rota de percurso, para que seja mantido pelo menos um item dos bons costumes. Quem se livra da polícia, da Justiça, do Parlamento, não escapa do irmão, do genro, da mulher ou do filho.Se Pedro Collor não achasse que o irmão estava exagerando na arte de locupletar-se, teríamos tolerado talvez por oito anos o caçador de marajás das Alagoas. Se Marco Aurélio Gil de Oliveira, genro do Lalau, não desse o alarme, pois acreditava que da maneira como as coisas estavam indo, o sogrinho iria acabar passando o Tesouro Nacional em seu nome, ante as barbas de FHC, isto poderia ocorrer. Pitta escapou por um triz, pois Nicéa e o filho já estavam de avental e espetos nas mãos para sacrificá-lo. Foi à frigideira quente e voltou. Aliás, essa tradição não é privilégio brasileiro. As questões familiares no poder sempre foram extremamente complicadas.Agripina, mãe de Nero, mulher sem escrúpulos, envenenou o tio, Cláudio, com quem havia se casado em terceiras núpcias, para dar o poder ao filho. Este, como agradecimento, tempos depois mandou sabotar o barco da mãe, que se abriu em pleno mar. E não é que a megera salvou-se a nado! Nero não se conteve e mandou um de seus soldados matá-la. Ao ver a espada do centurião, Agripina disse feri ventrem (fere o ventre) como querendo punir o local que gerou o matricida.De volta ao Brasil, quando tudo ainda não estava bem esclarecido, alguém perguntou ao genro do Lalau onde é que estavam os vários andares do prédio pagos por Brasília, mas que não acrescentavam nem mais um andar ao edifício: Esses andares estão todos no bolso do sogrinho, respondeu.Bem, nessa brincadeira toda de fazer de conta que estamos construindo o Brasil, também vamos todos fazer de conta que o Lalau estava sozinho em toda essa tramóia. Como se sabe, os recursos que ele obtinha nos principais gabinetes de Brasília eram bem divididos entre seu bolso, os parentes, e a construção do prédio de São Paulo e prédios nos Estados Unidos. (Como disse aqui, faz de conta que ele agia sozinho). Dizem que por equívoco da empresa construtora, por várias horas funcionou um luminoso no prédio da Justiça, em São Paulo: Cassino Rei de Paus (em inglês). E num prédio novo, destinado à jogatina, em Miami, a placa: Fórum Trabalhista de São Paulo.Permeando tudo isto, temos um presidente da República que não desconfiava de nada, nada. Lalau, o cara-de-pau, fez mais de 150 telefonemas para o Palácio do Planalto. Como era muito honesto, certamente jogava palitos por telefone com o secretário de FHC. E dez como ele bastariam para deixar o Brasil na lona! Ambos eram tão honestos que um acreditava no outro quando abriam a mão. Ainda sobre o presidente que até assina documentos sem ler: imagine se a pena de morte vigora por aqui! Todo risco é possível: FHC indulta o Escadinha e manda este pobre escriba, aqui, que um dia só enviou uma carta ao Planato, pôr a bunda na cadeira elétrica! Eu, hein, birigó!? Tô pensando em mudar para o Iraque!(*) B. Requena - editor de Internacional do JC