Economicamente falando, prender não é vantagem. Cada preso custa ao Estado de São Paulo cerca de R$ 600,00Bauru possui mais de 300 mil habitantes e uma população carcerária em torno de 2,5 mil. As três penitenciárias; I, II e Instituto Penal Agrícola(IPA) abrigam 2.431 presos e só 10% deles são de Bauru e região. Aproximadamente 145 presos estão na cadeia pública aguardando decisão judicial e vagas nos presídios.A população carcerária aumenta em progressão geométrica. Para se ter uma idéia, há 100 mil mandados de prisão a serem cumpridos, cerca de 25% deles são do Estado de São Paulo. Se a ordem judicial fosse cumprida, haveria necessidade de triplicar o número de presídios e de vagas para acolher todos os condenados.O sistema prisional em todo o País está um caos. Há mais condenados que vagas e as prisões estão superlotadas. Um amontoado de presos, cerca de 16 em um cela de 4x4, reflete a realidade da cadeia pública de Bauru, uma cidade com três penitenciárias e sem vagas para abrigar seus presos.A superlotação dos cárceres é um problema crônico num País que investe na construção de novos presídios e deixa a Educação, Saúde e geração de empregos para segundo plano. O governo estadual prevê a construção de 12 Centros de Integração Provisória, em todo o Estado, para aliviar a situação dos distritos policiais das Capitais. E é nas grandes metrópoles que o caos carcerário está instalado. Sem vagas suficientes, as capitais exportam presos para o Interior, causando a superlotação das cadeias das médias e pequenas cidades, como a que está ocorrendo em Bauru. Segundo dados da Penitenciária I de Bauru, 70% dos detentos que habitam o presídio são de São Paulo e 20% são oriundos do restante do Estado. Só 10%, ou seja, cerca de 86 presos, são da cidade e da região. GastosUm preso custa ao Estado aproximadamente R$ 600,00/mês. Na contramão de direção fica o salário de alguns funcionários das penitenciárias que ganham bruto cerca de R$ 300,00 para cuidar daquele que infringiu a lei. É o caso dos escriturários e oficiais administrativos.O dinheiro investido na ressocialização dos detentos nem sempre é certeza de resultado positivo. Mais da metade deles voltam a delingüir, ou seja, se tornam reincidentes no crime. Um dos fatores de influência na reincidência, segundo o diretor da PI, Wilson Elorza Júnior, é a falta de oportunidades no mercado de trabalho. A situação está difícil para todos, pior ainda, para o ex-presidiário.O diretor admite que nem todos aqueles que cumprem pena deixam o presídio com a intenção de mudar o rumo de suas vidas. Há aqueles que cresceram na criminalidade e que nem o tempo no cárcere faz com que ele mudem de idéia. Uma décadaDez anos depois da inauguração das penitenciárias I e II, a população de Bauru assiste estarrecida o quanto foi enganada. Na época, em 1990, a construção dos presídios era apontada como a solução para o problema da cadeia pública, que então vivia o drama da superlotação. O problema persiste até hoje e, com raras exceções, a cidade foi prestigiada no sistema prisional. Conseguir uma vaga para preso de Bauru não é tarefa fácil para o diretor da cadeia. A PI foi inaugurada em outubro de 90 com capacidade para 528 presos. A PII foi inaugurada um mês depois. Juntas, elas formariam o complexo penitenciário com capacidade para abrigar, no máximo, 1,2 mil presos. Hoje estão com 1.741, ou seja, estão com 541 detentos a mais do que o previsto. DificuldadesO aumento da população carcerária é gradativo e como tudo no Brasil, é necessário fazer adaptações para encarar a nova realidade. Com 300 presos acima de sua capacidade, a PI teve que passar por adaptações estruturais, segundo Elorza Júnior.A falta de água foi resolvida com a construção de um poço maior. As celas individuais, num total de 88, geraram o dobro de vagas. Foram adaptadas para receber mais um habitante. De 88 vagas elas passaram a ter 176 vagas. O tempo foi passando e um colchão foi jogado no chão. A cela passou a acolher três. Hoje, elas têm quatro habitantes. O espaço diminuiu, mas as adaptações continuaram, desta vez por parte dos presos, conforme informa o diretor. Eles adaptaram as acomodações e vivem no mesmo espaço.As outras 88 celas com quartos de cinco camas foram adaptadas para receber um habitante a mais. Um deles dorme no chão e usa o mesmo espaço, programado para cinco. O aumento do número de presos nas celas gera uma série de situações insatisfatórias para o preso. O banheiro continua sendo um só e as acomodações ficam bastante prejudicadas.Os problemas do aumento da população carcerária não param por aí. Com 300 presos a mais do que é capaz de suportar, a PI continua com 250 funcionários, conforme explica o diretor. Quando inaugurou a penitenciária existiam mais funcionários. Alguns foram trabalhar em outras penitenciárias. Outros, aposentaram. Só o número de técnicos; psicólogos, assistentes sociais aumentou.PerfilO cárcere bauruense é formado por jovens, em sua maioria. São homens de 19 a 25 anos que entraram na marginalidade muito cedo e que têm pena a cumprir de quatro a 10 anos, passando no presídio, a idade mais produtiva de suas vidas. Provenientes de famílias de nível sócio econômico baixo, eles chegam das favelas e das periferias da cidade, normalmente, debilitados fisicamente. Não se alimentam corretamente e estão fora do peso padrão para esta idade. Segundo o diretor da PI, Wilson Elorza Júnior, depois de alguns meses na penitenciária, alimentados com quatro refeições diárias, todas balanceadas, eles ganham peso e se tornam pessoas fisicamente normais. O grau de escolaridade é outro fator gritante entre os presos. Em idade escolar para frequentarem uma universidade, a maioria deles tem apenas o primeiro grau. Alguns, incompleto. É no presídio que eles começam a estudar. A situação socioeconômica dos presos chama a atenção, segundo o diretor do presídio. Alguns chegam só com a roupa do corpo. Aqui, eles tentam mudar de vida, trabalhando. Insistem para conseguir um posto de trabalho que lhes oferece remissão de pena e algum dinheiro para despesas pessoais.Não cobiçar a mulher alheiaA visita do preso, especialmente a família, é muito respeitada na cadeia. No dia dedicado à visita, nenhum preso deve se apresentar sem camisa e de bermuda. Todos devem estar vestidos de calça e camisa. A mulher do preso, que muitas vezes não é casada com ele, apenas amasiada, tem que ser respeitada pelos demais. Nenhum preso deve olhar a mulher do outro e nem, tão pouco, mexer com ela. Se isso acontece, a cadeia se revolta contra aquele que desrespeitou a regra. A solidariedade é outro marco na convivência dos presos. Quando um deles está com uma doença grave, como aids, tuberculose ou câncer, seus companheiros de cela se solidarizam com ele. Eles cuidam do companheiro de cela.Os cuidados vão além do previsto. Eles fornecem a cota de leite deles e até guloseimas e outras coisas para o detento doente. O doente passa a ter prioridade em todas as situações. É um exemplo para a nossa sociedade, que em situações semelhantes, discrimina o doente.A discriminação dos presos fica reservada para aqueles que praticam crimes considerados inaceitáveis por eles. O preso que pratica estupro, mata criança, abusa de menores etc, é discriminado no presídio. A população carcerária não aceita este preso, temos que colocá-lo em cela separada, explica o diretor.Este tipo de preso, segundo Elorza Júnior, está sendo recolhido na penitenciária de Itaí. Esta penitenciária foi criada para receber este tipo de preso. São presos que normalmente ficavam no seguro. Muro de lamentaçõesO preso cumpre a pena sem reclamar, de acordo com o diretor da PI. Mas, quando tem direito exige. Eles não reclamam do cumprimento da pena. Querem agilidade quando têm direito a benefícios. Ficam revoltados com a morosidade da Justiça.O diretor explica que o acúmulo de processos na Vara de Execuções Penais prejudica o bom andamento da Justiça. A Vara de Execuções de Bauru tem mais de cinco mil processos. Responde pelas penitenciárias de Bauru e pelas duas de Pirajuí. Falta estrutura.Ele garante que nenhum preso fica no presídio além do tempo determinado. O alvará de soltura é providenciado 15 dias antes do vencimento da pena.