09 de julho de 2026
Geral

Televisão Até que ponto ela é boa para as crianças?

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 7 min

Não foi por mero acaso que em um dos filmes mais aterrorizantes dos anos 80, Poltergeist - O Fenômeno, as forças do mal entravam na vida de uma típica família de classe média americana pela televisão, trazendo uma seqüência de transtornos que culminavam com o desaparecimento da filha mais nova do casal central. A intenção indireta do cineasta Steven Spielberg, autor do roteiro do filme, era justamente colocar a televisão como o instrumento que pode trazer o mal para dentro de nossas casas, principalmente para as crianças, se permitirmos. Alegorias à parte, o tema: influência nociva da televisão para as crianças, voltou a ser evidenciado ultimamente com a censura, do Ministério Público do Rio de Janeiro, a participação de crianças na novela Laços de Família, que, segundo a Justiça, possui cenas impróprias sobre sexo, prostituição e violência. Em Bauru, a assistente social Cristiane Dario, concluiu com o seu trabalho de graduação na faculdade, intitulado Os impactos da Mídia Televisiva sobre a criança, que a televisão pode interferir negativamente no dia-a-dia da criança, se os pais deixarem.De acordo com Cristiane Dario, é inegável o poder que a televisão exerce sobre as crianças, principalmente por três fatores: elas passam muito tempo na frente dos aparelhos, assistem programas que não são próprios para as suas idades (mesmo que eles sejam transmitidos de madrugada) e não sofrem nenhum tipo de controle dos pais, que permitem que os filhos consumam a televisão da maneira que quiserem. Toda essa liberdade, aponta a assistente social, é responsável por três tipos de comportamentos básicos nas crianças: a sexualidade aflorada (no caso das meninas), a exaltação da violência (nos meninos) e o consumismo (em ambos os sexos). As meninas logo cedo já estão usando shortinhos e dançando músicas como Na boquinha da garrafa, os meninos vivem brincando de luta e querendo ser com o Van Damme, diz Dario.O seu trabalho foi realizado com crianças na comunidade São Manoel, um dos pontos mais pobres de Bauru, apesar disso, a assistente social acredita que os resultados obtidos com a pesquisa sejam semelhantes com crianças de classes mais abastadas. Uma vez em contato com a televisão, se não tiver um controle, a criança vira uma consumidora mesmo ressalta.Na opinião da psicóloga Cláudia Manaia, a banalização do sexo e a estimulação da violência e do consumo, através da mídia, acaba tendo consequências sérias na formação da criança. SexoNo que diz respeito ao sexo, a criança, é claro, que não pode ser considerada um ser assexuado, o problema é que acaba sendo exposta a cenas que não sabe exatamente interpretar de forma adulta.Segundo Cláudia Manaia, alguns pesquisadores sobre infância e adolescência, acreditam que a superexposição das crianças à sexualidade ou à sensualidade, pode levar a uma diminuição do período da infância, acelerando a passagem para a adolescência. A televisão não é o único fator dessa passagem, mas contribui bastante. O período crítico é quando as crianças estão entre os 11 ou 12 anos, quando começam as transformações corporais e hormonais nas crianças e os apelos eróticos da mídia a pegam em cheio.Com a banalização e o sexo sendo desnivelado de qualquer contexto emocional, e que, sem os pais por perto para poder ajudar a interpretar ou orientar o que se passa na TV, a criança pode ver conceitos, atitudes, que nem sempre estão prontas para entender, afirma a psicóloga. Muitas vezes também, explica Cláudia Manaia, os pais colaboram, incentivando atitudes que levam a criança a explorar seu corpo, servindo somente para alimentar a vaidade adulta. Um exemplo típico são os pais que acham lindo quando a filha de 7 anos dança, de shortinho, com tanta habilidade quanto a dançarina profissional.ViolênciaA psicóloga questiona: Que bem faz para uma criança, ver desenhos que estimulem a violência e nos quais os sangue jorra como se nada estivesse acontecendo? Ou ver pessoas explodindo com tiros e depois saírem andando como se nada tivesse acontecido? Essa desconexão com a realidade é terrível na sua opinião porque na televisão, qualquer provocação é respondida com socos e agressões, sem preocupação de argumentos. Este comportamento pode ser incorporado pelas crianças que não convivem com modelos diferentes, ou que não têm com quem conversar, para que o que vê, seja decodificado e absorvido de forma não prejudicial, explica. Cláudia lembra que faz parte do desenvolvimento da criança, a atitude de imitar e cita casos, onde a criança de forma inocente, pratica atos de violência por imitação do que viu na TV. ConsumoJá o problema da televisão no aspecto comercial para as crianças, é que elas ficam expostas ao bombardeio da mídia (assim como os adultos), e que isso gera a necessidade de ter para ser igual ao outro, para poder pertencer a um grupo, imitar, etc. Segundo Cláudia Manaia é preciso haver bom senso dos pais para que os filhos não se tornem consumidores compulsivos, até porque, nem sempre é possível atender todas as solicitações da criança. O que é importante, é termos consciência de que esse bombardeio da mídia existe, e que não podemos nos distanciar de valores, da importância das relações interpessoais, para que não nos tornemos robotizados, e possamos diferenciar o que é consumo necessário do supérfluo, explica a psicóloga Como regularPara Cláudia, a cura para o problema da criança e a televisão não é simplesmente desligar a TV, ou selecionar o que elas devem ouvir ou assistir. O mais importante para a psicóloga é a forma como cada um pode se colocar diante das influências da TV, com suas próprias características, seus valores, e evidentemente, sem esquecer o valor individual. Afinal, só através do conhecimento interno é possível diminuir a influência externa, diz. Os pais precisam repensar a sua necessidade de ter, já que muitos passam isso para criança, pois sentem necessidade de serem incluídos socialmente a qualquer preço, independente de isso ser bom ou não. Muitas pessoas se avaliam pelo que tem, e não pelo que são. Resumindo: é preciso analisar o próprio caso para perceber até onde a televisão vai mostrar seus efeitos. O horário também não é uma arma. As crianças não respeitam isso e até acordam de madrugada para assistirem televisão, lembra a assistente social Cristiane Dario.Os pais que se protegemNem todos os pais ficam alheios à influência da televisão na vida dos filhos. Alguns casais (embora isso não seja recomendado por psicólogos) chegam a cortar a televisão da rotina dos filhos para que eles não entrem em contato com tanto sexo e violência, principalmente. Não deixo que minha filha veja as novelas atualmente, afirma categórica a dona de casa Eliana A. Corrêa. A explicação para a proibição é, segundo ela, o baixo nível da programação atual. Antes, parece que a televisão era mais calma, sem tanto sexo e tiros, diz. Eliana diz que a filha Tatiane, de 4 anos, não reclama das eventuais proibições mas exige ver seus desenhos animados favoritos. A comerciante Luciana de Andrade Paterno também libera os desenhos animados para o filho Mateus, de 6 anos, mas proíbe que ele veja filmes com temas violentos, lutas e sangue. Se ele está por perto eu e o meu marido até deixamos de ver o filme só para que ele não veja, afirma. Outra coisa longe dos olhos de Mateus são as cenas de conotação sexual, Sexo ele não vê mesmo, afirma a mãe, convicta. Mas, diferente de Eliana, Luciana não vê nada de mal nas novelas, As coisas na novela são insinuadas, não acho que façam mal, diz. Na casa do professor Aloísio Pacheco o que não funciona são os comerciais de televisão para crianças. Por mais incrível que pareça, ele consegue controlar o desejo dos filhos Jorge, de 5 anos e Lucas, de 7, de terem todos os tipos de brinquedos que são lançados no mercado. Já deixei isso claro a eles e hoje percebo que não para eles o apelo comercial da televisão é muito pequeno. Nunca ouvi um deles dizer eu quero isso quando vêem um produto. Acho que se tivesse uma filha isso não seria possível, comenta bem-humorado.