08 de julho de 2026
Geral

Internet coloca comerciários em alerta

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Embora ainda seja quase uma novidade no Brasil, o comércio eletrônico pela Internet, ou e-commerce, já é encarado como uma ameaça pelos comerciários. Mais especificamente para aqueles que ficam no cara-a-cara com os clientes: os vendedores, que podem perder o lugar atrás do balcão para uma tela e um mouse. Como o perigo é real, mas ainda não é imediato, não existe uma estratégia por parte dos comerciários para garantir o emprego mesmo com o crescente uso do computador. Investir na própria qualificação é uma boa opção.Segundo a mais abrangente pesquisa sobre a Internet brasileira já realizada até hoje, 14 milhões de pessoas têm acesso à rede mundial de computadores no País. Desse número, apontou o trabalho, que foi realizado pelo Ibope e a eRatings.com (um instituto de pesquisa especializado em Internet), 1,4 milhão de pessoas fizeram compras on-line, somente entre maio e setembro de 2000. Em outras palavras: deixaram de ir até às lojas para adquirirem seus produtos pelo computador e recebê-los em casa, pelo correio.A possibilidade disso vir a se tornar um hábito de todos os brasileiros que possuem um PC em casa e têm acesso à Internet é um sinal de alerta para os comerciários. Já estamos tomando providências para quando o impacto dessa prática chegar, diz Edson Quintiliano Jr., assessor de comunicação do Sindicato dos Empregados no Comércio de Bauru (SECB). Na sua opinião, a competição entre o comércio tradicional e o e-commerce vai ficar mais acentuada à medida em que mais e mais pessoas forem adquirindo computadores, é inevitável e irreversível, afirma. A declaração procede, a pesquisa do Ibope e da eRatings.com estima que em 2001, 4,6 milhões de domicílios vão ter computadores conectados à Internet, o dobro do número atual. Ao mesmo tempo, o assessor lembra que não é a primeira vez que isso acontece, Sofremos desde o começo da década de 80 com o comércio pela televisão e mais tarde, com o telemarketing, e sobrevivemos, diz.Para Antonio Carlos Rossini, gerente de uma loja, que trabalha com a venda de móveis e eltrodomésticos, o comércio virtual ainda não ameaça mas já é um motivo para ficar preparado porque, com os computadores se tornando cada dia mais acessíveis, a Internet gratuita e a maior segurança para as compras por cartão de crédito, mais pessoas vão querer fazer compras on-line. A médio e longo prazo acho que vamos ter problemas com a Internet, acredita. A vendedora Maria Alice Camilo, apesar da distância da competição, tem medo. De repente, o problema pode não ser tão grave agora, mas logo as lojas que têm sites vão vender bastante e investir nesse segmento, deixando a venda tradicional em segundo plano. Numa dessas, algumas pessoas podem perder o emprego, inclusive eu, explica. Carlos R. Martins, funcionário de uma loja de departamentos, também se diz assustado com as compras pela Internet, Pelo que eu sei, é muito mais fácil do que vir até a loja, afirma. Na sua opinião, uma forma de reverter esse processo é melhorando o atendimento, Acho que vai ser a única maneira de tirar o cliente da frente do computador e chamá-lo para a loja. Pode não ser o fimNa opinião do presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), Cássio Carvalho, mesmo com o eventual crescimento do comércio virtual, os vendedores vão continuar tendo seus empregos porque nem todas as pessoas vão deixar de ir às lojas, onde podem ver, tocar, experimentar o produto que querem comprar. Apenas alguns segmentos específicos vão se desenvolver por causa da Internet, os outros não vão se alterar, diz. Carvalho cita o segmento dos livros e produtos de informática como exemplo, nos demais não deve haver uma grande expansão, completa. O presidente da Federação dos Empregados no Comércio do Estado de São Paulo (Fecesp), Paulo Lucania, em entrevista à publicação mensal da entidade, afirmou que não acredita no fim da função do vendedor, mas alerta para necessidade dos comerciários procurarem qualificação, preparando-se para o que chama de novos tempos. Para Lucania, o e-commerce, deve ser visto com preocupação porque o avanço da tecnologia nessa área pode trazer conseqüências maléficas ao nível de emprego, aumentando ainda mais a exploração do comerciário e reduzindo o número de vagas. AperfeiçoamentoApesar do comércio virtual, por enquanto, atingir segmentos específicos e não ser hábito geral, o ideal, segundo Edson Quintiliano Jr., é que os comerciários fiquem previnidos e se preocupem com a sua qualificação, como recomendou o presidente da Fecesp. O comerciário deve fazer cursos de técnicas de vendas, de informática e saber como lidar com vendas pela Internet, afirma o assessor do SECB. Para Quintiliano Jr., aprendendo outras técnicas de venda, que lidem mais com o contato frio (sem a presença física do cliente), o comerciário pode estar apto a desenvolver outro tipo de venda, senão no balcão, atrás de uma mesa, com um telefone e um computador, O importante é que ele não perca o emprego, define. De acordo com o assessor, o Sindicato dos Empregados no Comércio de Bauru já aborda em seus cursos para comerciários a questão da Internet como uma ameaça, Já estamos privilegiando as técnicas de contato frio nos nossos cursos, assegura, antes ensinávamos que sem o vendedor não havia venda, hoje isso não é mais verdade. Os líderes de venda da Internet n ibazar.com.br (313 visitantes/mês)n americanas.com.br (297 visitantes/mês)n submarino.com.br (280 visitantes/mês)n lokau.com.br (243 visitantes/mês)n shoptime.com.br (178 visitantes/mês)Fonte: Ibope/eRatings.comMais fácil Pessoas que já usaram algum serviço de compra pela Internet acreditam que o método é muito mais fácil do que ir até uma loja e, em alguns casos, mais econômico. É mais cômodo porque você não precisa sair de casa, além disso, em alguns casos, os produtos são mais baratos do que nas lojas, diz a estudante Juliana A. Soares. A designer Karina Bannwart confirma a praticidade da rede, Já usei a Internet para comprar livros e CDs que dificilmente encontraria em lojas. É muito mais simples porque a gente não precisa ficar procurando por aí, é só clicar o mouse e já está comprado, explica. Mas ela nem sempre acha que os preços são mais baratos, Acaba saindo a mesma coisa, a vantagem é não ter que ir à loja. Até quem nunca usou a rede para satisfazer seus impulsos de consumo acredita que ela seja mais prática. Nunca fiz compras pela Internet por pura falta de intimidade com o computador mas várias pessoas à minha volta me dizem que os produtos são mais baratos e que é muito mais fácil de se comprar dessa maneira, afirma a professora Stela Cuttin.Que é simples, ninguém tem dúvida, mas nem todos os produtos são facilmente comercializados pela rede. Os campeões de venda são mesmo os livros, CDs e produtos de informática e eletrônicos. Na opinião do comerciante Cláudio Faquete, a compra pela Internet é viável para quem já conhece o produto que pretende adquirir e não vai testá-lo, Você não vai comprar um carro usado pela Internet, justifica, de qualquer modo, é prático usar o computador porque não é preciso sair de casa, completa.E a falta de contato humano? Pelo que parece, ninguém se importa em ficar longe dos vendedores e balconistas quando tem um computador em casa. O contato com o vendedor nem sempre é agradável, muitas vezes ele fica tentando empurrar sua mercadoria ou faz cara feia quando você diz que não vai levar o produto, diz a dona de casa Helena Garcia. Até acredito que algumas pessoa achem melhor fazer uma compra sendo atendido por alguém. Eu prefiro a minha tela o meu mouse, declara o estudante universitário Sérgio Camargo.