08 de julho de 2026
Geral

UMA QUESTÃO DE LINGUAGEM

Isolina Bresolin Vianna
| Tempo de leitura: 2 min

Famoso não só pela sabedoria jurídica mas principalmente pela linguagem, o insigne professor da vetusta e veneranda Faculdade do largo de São Francisco, Saboia de Medeiros, deixou vasto anedotário entre seus alunos de outrora. Contam-se que, num exame oral, para debochar do aluno que não ia lá muito bem, ele chamou o bedel e pediu traga aí um fardo de feno ao que o aluno imediatamente acrescentou: e para mim um cafezinho.Certa vez, foi convidado a passear na fazenda de um aluno. Andando pelos campos, deparou com um rio em cuja margem cochilava o barqueiro, que tinha ao lado um cão que também cochilava. Querendo passar para a outra margem, perguntou ao barqueiro: quanto requereis de remuneração pecuniária para transportar-me deste polo para aquele continente? O barqueiro coçou a cabeça, olhou o professor e respondeu à pergunta que não entendera, informando que o cachorro não mordia, ele podia entrar no barco O professor, indignado repetiu a pergunta e o barqueiro ainda sem nada entender deu a mesma resposta. Aí então, no auge da indignação, ele declarou solenemente Se dizeis isso por mera ignorância, eu transijo.Se, porém, o fazeis para menoscabar a minha prosopopéia, transportar-vos-ei para o alto de uma sinagoga e de lá, com a ponta da minha metafórica bengala, transformar-vos-ei em massa cadavérica.Ainda nesse mesmo e malfadado passeio, montando a cavalo saiu o professor. Mas, como não tinha prática de tal exercício, o cavalo desembestou com ele e levou-o ao chão. O aluno anfitrião que assistiu ao tombo, perguntou-lhe por que não havia obedecido a instrução do capataz que gritara para que ele parasse o cavalo. Ao que o professor respondeu: porque ele não se pronunciou de forma correta, ele deveria ter dito detende o fogoso corcel. Conheço gente assim, prefere cair do cavalo e se fazer de desentendido a aceitar uma frase incorreta. (Isolina Bresolin Vianna - Academia Bauruense de Letras)