08 de julho de 2026
Geral

Redução da Selic pode fazer juro real fechar com 1 dígito

Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 5 min

A redução da taxa básica de juros, a Selic, de 16,5% para 15,75% ao ano (a.a.) surpreendeu o mercado, que esperava uma queda de somente 0,5 ponto percentual. Porém, o delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon), Reinaldo César Cafeo, destaca que, independente de qualquer coisa, a taxa deve permitir que o País feche o ano com um juro real de apenas um dígito. Descontando a inflação, se considerado um índice de 6% do IPC da Fipe, a taxa de 15,75% vai se transformar em um juro real de 9,19%. Porém se for considerada a inflação projetada de 4,3%, a taxa real volta a ter dois dígitos, chegando a 10,26% anuais.Os efeitos da redução da Selic têm opiniões controversas. Os economistas acreditam que a redução não chega ao consumidor final, mas deve fazer muito bem para a dívida interna do País que deve crescer menos. Por outro lado, o comércio e algumas instituições financeiras acreditam que uma redução, mesmo que pequena, chega logo para beneficiar o consumidor final.Para Cafeo, a estabilidade externa, vinda da ajuda financeira à Argentina, a queda no preço do petróleo e da própria sinalização de baixa futura da taxa de juros norte-americanas, podem ser apontadas como indutora dessa redução.O delegado do Corecon afirma que ambiente interno é favorável, já que o País está chegando no final de ano, quando normalmente há pressão de demanda, sem elevação na taxa de inflação. Também os recentes aumentos no combustível não pressionaram os preços.O economista diz que a redução não é para ser comemorada, pois o Brasil ainda tem a segunda maior taxa de juros do mundo, perdendo apenas para a Polônia e com a Rússia e México muito próximos, mas com índices menores.A redução da Selic, destaca Cafeo, diminui a rolagem da dívida interna, e pode ser considerada somente um primeiro passo para uma queda na ponta, no bolso do consumidor. Essa queda de juros na ponta depende de muito mais do que a redução da Selic, está condicionada ao aumento da oferta de dinheiro no mercado, depende da disposição dos bancos em correr riscos, aumentando o volume de empréstimos.O economista e professor universitário Said Yusuf Abu Lawi considera baixa a redução de 0,75% na taxa Selic. Para ele, para refletir para o consumidor final essa queda teria que ser substancial. Muitas pessoas acham que 1% é uma queda substancial na atual conjuntura. Mas, não considero assim, não. A taxa de juros ainda é muito alta, afirmou.Said Yusuf disse que, se houve reflexos ao consumidor será mínimo. Ele destaca que a queda vai influenciar, principalmente na redução do crescimento da dívida interna do País e ajudará o governo acertar algumas pendências, como reajuste dos militares e do salário mínimo.O economista Fernando José Martha de Pinho diz que a queda na taxa Selic era uma coisa esperada há alguns meses, que acabou demorando um pouco mais em razão do aguardo pelo comportamento da economia norte-americana e da crise da Argentina que foi atenuada com o empréstimo acertado com o Fundo monetário Internacional (FMI).Pinho afirma que o governo foi sábio ao mudar, agora, a taxa de juros, uma vez que a economia tende a estar mais estável no final do ano, e, além disso, pela inflação estar absolutamente sob controle.Fernando Pinho destaca que o governo necessitava reduzir a taxa para conter o crescimento da dívida pública interna que, a cada dia, se torna mais insustentável o que não fica anulado, mas tem apenas uma melhora. O montante de dinheiro sendo crescente, mesmo que a taxa de juros diminua, muitas vezes, não vai ter uma diminuição no valor final da dívida pública proporcionalmente igual à diminuição da taxa de juros, afirmou.Para ele, uma das coisas que pesou muito na redução da taxa Selic foi a tentativa de se amarrar o reajuste do salário mínimo a uma potencial arrecadação da CPMF potencial porque ainda não está garantida e também com o potencial aumento da arrecadação pela coibição da sonegação ou elisão fiscal. Pinho diz que essa é uma situação muito discutível, pois não se pode contar com recursos que não estão definitivamente no caixa do governo, até porque essas medidas de combate à sonegação e quebra do sigilo bancário, que potencialmente poderiam trazer maior arrecadação, ainda dependem de decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e de alguns segmentos da sociedade que vão se movimentar para conseguir que o STF não permita essa invasão à privacidade do contribuinte.Fernando Pinho afirma que, com a pressão dos Estados Unidos para que a consolidação antecipada da Associação Livre Comércio das Américas (Alca), o governo brasileiro terá que tomar medidas drásticas, em 2001, para se adaptar e aprofundar a abertura comercial. Assim, prevê, o próximo ano poderá ser ainda mais duro que este. Para ele, a partir do momento em que houver a dolarização total da economia Argentina, o que deve ocorrer em 2001, Paraguai, Uruguai devem optar pelo bloco com os norte-americanos, forçando o Brasil a se adaptar para fazer frente às mudanças.Juros menores O superintendente do Banco do Brasil em Bauru, José Marconi Guimarães Lima, acredita na redução nos juros cobrados pelos bancos, a exemplo do que fez o BB, ontem, quando reduziu as taxas em sete linhas de crédito para pessoas jurídicas.Na área de pessoa física, a instituição baixou as taxas de cheque especial, que variavam de 2,1% a 7,79% ao mês, ficando entre 2,05% e 7,74% ao mês. No cartão de crédito, as taxas de juros do crédito rotativo passam de 7,79% para 7,74%.Três modalidades de linhas de crédito para pessoa física também tiveram redução, com destaque para o CDC Cheque Veículo, que passa de 2,4% para 2,3%. O Leasing Cheque Veículo será reduzido de 2,2% para 2,1%. As novas taxas de cheque especial começam a vigorar em janeiro. As linhas de CDC e leasing já estarão com as novas taxas a partir de hoje.Para Marconi, como o BB baliza o mercado, é provável que outras instituições sigam a tendência de queda nas taxas cobradas na concessão de crédito em diversas linhas.ComércioCássio Nunes Carvalho, presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib) acredita que haverá uma redução nos juros cobrados nos financiamentos das lojas. De acordo com ele, algumas grandes redes estão apenas aguardando o posicionamento dos bancos para diminuírem a taxa.Para Carvalho, a queda nos juros no sistema financeiro deverá impactar nas lojas. Isso terá um reflexo positivo para o comércio, afirmou.Porém, Carvalho diz que o impacto em maior escala só será sentido a longo prazo.