No comentário da semana passada, tive oportunidade de referir-me às expectativas favoráveis para a nossa economia em 2001. A atividade econômica vem se recuperando há dois semestres consecutivos , especialmente no setor industrial, sem pressionar a inflação. O novo regime cambial, com taxas flutuantes desde janeiro de 1999, tem funcionado satisfatoriamente e a boa administração do sistema de metas inflacionárias aumentou a credibilidade do Banco Central . Há razões para acreditar, portanto, que poderemos ter em 2001 uma taxa de crescimento parecida com a deste ano , em torno dos 4 % , em regime de estabilidade . Essa expectativa quanto ao comportamento da economia não nos desobriga de cobrar mais empenho do governo para evitar o agravamento da crise social devido à persistência de elevadas taxas de desemprego. Nos últimos meses melhorou ligeiramente a oferta de emprego em alguns selecionados setores fabris. Mas não podemos esconder o fato que 1 milhão e 400 mil chefes de família passam o Natal sem emprego em São Paulo e que a demora em encontrar nova colocação ainda é cruel: 48 meses. Se queremos um desenvolvimento mais rápido, se precisamos urgentemente ampliar as oportunidades de trabalho para nossa gente, é imprescindível a participação ativa do governo. É ele que dispõe dos instrumentos para estimular os investimentos que vão gerar os empregos na indústria, na agricultura e no setor exportador. Um movimento importante foi realizado esta semana pelo Banco Central, ao reduzir os juros básicos da economia (a taxa SELIC) para 15,75%. Demorou um pouco, mas antes tarde do que nunca. Esse movimento precisa ser complementado pela expansão do crédito. O nível do crédito interno com relação ao PIB é ridículo, quando comparado com o de nossos competidores no exterior. E o governo não utiliza os instrumentos que dispõe para agilizar os financiamentos a todo um universo de empresas médias e pequenas , que são as maiores geradoras de emprego. Em quase toda a sua história, o Banco do Brasil foi o maior financiador da pequena indústria, da agricultura e funcionou como a alavanca que moveu o setor exportador. Hoje, suas prioridades são outras. Compete ao governo reencaminhar o Bancão à sua vocação original. Não faz sentido deixar todo o crédito de longo prazo concentrado no BNDES, que vê maior prioridade na construção de um parque aquático, na reforma do Jockey Clube e no suporte ao capital estrangeiro que chega para comprar nosso mercado interno e reduzir postos de trabalho de brasileiros. Nossos economistas neocolonizados têm urticárias quando ouvem falar em política industrial. Estamos terminando o ano com um resultado medíocre no setor exportador, não apenas por que os preços externos caíram, mas por que persiste no governo o receio de desagradar os competidores externos, quando o de que precisamos é exatamente espicaçá-los. Um pouco mais de ousadia para atuar sobre esses problemas nos fará muito bem neste Novo Ano, aproveitando os bons ventos que sopram na direção de nossa economia. Desejo um Bom Natal a todos os nossos pacientes leitores.(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da Faculdade de Economia e Administração da USP e ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento -E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br