08 de julho de 2026
Geral

O dia em que Papai

(*) Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Esse juiz da 1.ª Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, Siro Darlan, está se especializando em dar ibope para os meios de comunicação de massa. Depois da polêmica criada em torno da participação de menores-atores na novela Laços de Família, o que fez elevar os níveis de audiência do horário em pelo menos três pontos, a autoridade volta seus poderes contra a revista Playboy de dezembro, em cuja capa Carla Perez aparece segurando os seios siliconados com a ajuda de Papai Noel.O mesmo magistrado exigiu que se tapasse o bumbum da ex-É o Tchan, exibido em outdoors, no Rio de Janeiro.A Editora Abril, que publica a revista, foi notificada a envelopar os exemplares em invólucro indevassável, para que as crianças não vejam nas bancas as imagens que agridem sua inocência.Esse público infantil foi o principal motivo da revolta do fundador da Escola de Papais Noéis que existe no Rio de Janeiro. Lá eles acham que criança acredita mesmo naquele cidadão que freqüenta shopping centers vestido com uma calorenta roupa vermelha em pleno verão, ostenta barbas e bigodes brancos postiços e tem a barriga estufada com almofadas. Hoje, aos 10 anos, a molecada morre de rir com aquele idiota que tem a mania de fazer rô-rô-rô-rô e distribuir balas, em vez de camisinhas.Carla Perez está completamente remasterizada. Além dos seios que receberam gel de silicone, o nariz foi arrebitado e os olhos perderam as bolsas que lhe davam um ar cansado de taxi-girl. Só o bumbum continua o mesmo. Em time que está ganhando não se mexe. Os protestos mais veementes contra essa capa de revista vieram dos alunos do Curso de Papai Noel, no Rio de Janeiro. Na festa de formatura, os alunos ostentaram uma tarja preta em seus gorros em sinal de protesto. Alegam que deveria haver mais respeito ao bom velhinho.Por mim, não vejo desrespeito algum. Aquele rechonchudo, sorridente Papai Noel de bochechas rosadas da capa, parece estar de bem com a vida. Na verdade está segurando apenas as mãos de Carla Perez, e não os seios diretamente. Com toda certeza, esses recém-formados estão mesmo é enciumados por não terem sido eles os eleitos.Para aqueles que defendem que Papai Noel - no Brasil deveria ser Pai Natal, para fugir do francesismo - simboliza a inocência e por isso não pode estar metido com mulheres desnudas, a história demonstra que esse velhinho já perdeu os odores santos no século 19, quando substituiu São Nicolau, que foi bispo. O Papai Noel de hoje é inteiramente laicizado. Em vez de mitra episcopal porta um barrete peludo, bem como um longo manto bordado de arminho. O velhinho de barba branca é sempre alguém que se disfarça para parecer bonzinho. Satanás também se mostra como um anjo de luz para enganar, adverte a Bíblia (II Co. 13:14).O próprio Natal também nada tem a ver, pela análise da Bíblia, com o nascimento de Jesus. Segundo São Lucas, Maria e seu marido José subiram a Belém para se recensearem e foi nessa cidade que Ele nasceu, cumprindo assim a profecia de Miquéias. Esse censo foi realizado 4 anos a.C. Jesus teria nascido em setembro ou, no máximo, em outubro do ano 4 antes de Cristo. Também os reis magos não foram a Belém nos dias imediatos ao seu nascimento. Eles eram do Oriente e as viagens, na época, eram muito demoradas. Devem ter levado uns bons meses para chegar à manjedoura.Foi um antipapa, um tal de Hipólito, que, no ano 217, decidiu ter Jesus nascido nessa data, o que se tornaria um dogma da Igreja Católica 150 anos depois, no concílio de Constantinopla.Na verdade a Igreja estava recuperando uma festa universal do solstício de inverno. Em Roma, por exemplo, as Saturnais terminavam a 24 de dezembro. No Oriente, o culto ao deus da luz era celebrado a 25 de dezembro. Essas festividades pagãs eram acompanhadas de orgias e bebedeiras. Agradavam tanto que os cristãos receberam com satisfação essa desculpa para continuar celebrando-as, embora com grandes alterações no espírito e na forma. As libações e as comilanças continuam. Acabar de vez com elas provocaria revolta no grosso da população. Tornou-se uma questão de marketing.Independentemente desses falsos mitos, não há ninguém que fique indiferente ao Natal. Há algo que envolve os nossos corações, que ilumina o nosso ser e resplandece a nossa vivência.Feliz Natal.(*) Zarcillo Barbosa é jornalista ecolaborador do JC