Minas Gerais lidera ranking de produção da cachaça artesanal, que começa a ganhar o mundo e o respeito de especialistasFubuia, inchetoba, branquinha, esquenta frio, levanta moral, caninha, engasga gato. O nome não importa. O brasileiro está redescobrindo a bebida mais tradicional do País: a cachaça. Mas a cachaça de qualidade. Em Bauru, pelo menos dois estabelecimentos ficaram conhecidos pela comercialização da boa pinga: Coisas da Roça e Cachaçaria Água Doce. A cachaça de qualidade de Minas Gerais - Estado que ficou conhecido pela produção artesanal da bebida - já é degustada com prazer, resgatando um ritual tupiniquim que só era praticado pelas camadas mais populares da sociedade.O mineiro de Juiz de Fora Henrique Carvalho, proprietário do bar Coisas da Roça, diz não ter dúvidas de que o brasileiro, de um modo geral, está redescobrindo a boa pinga. A clientela que freqüenta seu estabelecimento é prova de que a cachaça é a bebida da moda, mais uma vez. O bauruense, assim como o brasileiro, está redescobrindo o paladar da boa cachaça e se preza até a degustar pelo paladar e não pela graduação, conta.Para atender a boa demanda de procura da bebida, ele mantém fortalecido seu vínculo com os vales das Gerais. É de lá que Carvalho importa pinga de qualidade, como a Vale Verde, produzida na região de Betim, a Salinas e a Havana, originárias de Salinas, região norte de Minas, localizada no Vale do Jequitinhonha. Uma outra marca, a Flor de Minas, de Ouro Preto, também é uma das mais solicitadas.PirajuíA degustação e a redescoberta da cachaça não são exclusividade dos bauruenses. A região também envereda para o mesmo prazer. Em Pirajuí, a boa pinga mineira satisfaz o paladar de pessoas exigentes. O comerciante Marcelo Lemos, proprietário da Panificadora Santa Edwiges, é a referência na cidade para a compra do aguardente. Ele confessa que no passado classificava a bebida como chula e de baixa qualidade.Ele mudou esse conceito depois que conheceu a mineira Havana. Gostei do paladar e comecei a me interessar pelas cachaças de boa qualidade, diz. Hoje, além de apreciar uma boa pinga, aproveita a esteira do momento para comercializa-la em Pirajuí e região. Lemos também importa a bebida de Minas. A mais procurada é a Salinas. Mas ofereço outras dez marcas de qualidade, inclusive a Havana, propagandeia.Na opinião do comerciante, o brasileiro tinha vergonha da bebida mais tradicional do País. Enquanto o escocês fala com orgulho do uísque, o cubano do run, os russos da vodka, nós ainda temos vergonha da cachaça. Ele acredita, no entanto, que esse conceito está sendo revertido nos últimos cinco a seis anos. O brasileiro está despertando para a boa cachaça, aquela que é produzida artesanalmente, conclui.Eu bebo, simO mineiro Antonio Eustáquio Rodrigues, dono das marcas de cachaça Seleta e Boazinha, é um sujeito previnido contra mau-olhado. Não sai de casa sem antes colocar um galho de arruda atrás da orelha. Em Salinas, norte de Minas Gerais, ele é conhecido de longe pela mula de sete palmos que monta. Embora seja um empresário abastado, o animal é o seu único meio de transporte entre a cidade e suas duas fazendas produtoras de cachaça.Rodrigues é o maior produtor de pinga artesanal daquela região. Faço o que gosto, gosto do que faço e domino a situação, diz, no jeito mineiro de conversar ao pé da orelha. Se depender de sua vontade, seus dois alambiques deverão fechar o ano com uma produção de 900 mil litros de cachaça. Religioso e devoto de Nossa Senhora Aparecida, o mineiro raspa a barba apenas uma vez por ano.No dia que faz isso - 22 de outubro, data de seu aniversário -, marca a hora e o nome do barbeiro que fez o serviço. Depois, pega o registro e a barba e os joga dentro de uma cumbuca, que fica lacrada. É promessa, confessa, completando que pratica essa rotina há 15 anos. Do dia 22 de outubro a 31 de dezembro, apara a barba dia sim e dia não.Salinas, que é considerada, com um certo exagero, a capital mundial da cachaça, realizou, em outubro passado, a sua 1ª Festa da Cachaça. O evento foi criado e idealizado por Rodrigues, que quer divulgar para o Brasil e o mundo a qualidade da bebida mais tradicional do País. Logicamente, que o mineiro está falando da cachaça produzida em sua terra.