Na opinião do padre Boaventura e do pastor Edson Valentim, o consumismo distorceu o significado da dataO ser humano, em sua grande maioria, perdeu o sentido do que é realmente o Natal. Essa é a opinião de dois dos três entrevistados da semana do Jornal da Cidade. Tanto o representante da Igreja Católica, padre Boaventura Barron, quanto o dos Evangélicos, pastor Edson Valentin, dizem que o consumismo distorceu a data. Na Entrevista da Semana, o JC reuniu ainda o representante do Espiritismo, Richard Simonetti, para abordar temas como clonagem, espiritualidade e fim do mundo. As perguntas foram basicamente as mesmas para os três, para que o leitor tenha uma idéia de como cada religião se posiciona a respeito dos temas. Padre BoaventuraJornal da Cidade - O que é o Natal para a Igreja Católica?Padre Boaventura - É a celebração do nascimento de Jesus que, este ano, está completando 2000 anos. É a celebração do Verbo de Deus, da Palavra de Deus, quando o Filho de Deus se fez carne entre nós, nascendo da Virgem Maria. Ele que é infinito, se fez finito. Se fez pequeno e pobre entre nós para ganhar nosso amor.JC - O senhor acha que as pessoas perderam a noção do que realmente é o espírito do Natal? PB - De uma maneira geral, perderam sim. Uma das causas é a situação em que se encontra hoje a família. Os valores cristãos se transmitiam de maneira muito forte pela família. E a família enfraqueceu. No lugar dela, temos os meio de comunicação, sobretudo aqueles muito interessados em vender, que até transformam o mistério cristão num objeto de venda. A publicidade do Natal faz pensar isso.JC - O senhor acredita que o consumismo acabou se sobrepondo ao sentido espiritual da data?PB - Sim. O consumismo é o desejo de comprar e gastar e, para isso, é preciso lucrar, ganhar por qualquer meio, até mesmo o espiritual.JC - Na opinião da Igreja, como as pessoas deveriam comemorar o Natal? PB - O jeito correto é vivendo o mistério. Aquilo que foi realizado há dois mil anos, uma vez para todos, se faz presente agora e se realiza hoje, para mim, para nós que somos agora vivos. Existem muitas maneiras de encontrar essa realização. Sobretudo a liturgia atualiza esses grandes mistérios. Pela liturgia, Jesus nasce em cada um de nós.JC - O senhor acha que, hoje em dia, as pessoas estão mais apegadas à espiritualidade?PB - Não se pode fazer comparação. Há aspectos antigos que são melhores e outros, que são piores. Antigamente não tinha esta facilidade enorme de se distrair. As relações humanas íntimas giravam em torno da família, sobretudo os pais e os avós. Atualmente, isso se quebrou. Por isso, as pessoas têm mais dificuldade de compreender o mistério do Natal. Ao mesmo tempo, essa corrente de idéias é passada facilmente pelos meios de comunicação. Mas, temos elementos fortíssimos no mundo de hoje que podem fortalecer a espiritualidade. Temos outros elementos atuais, como o respeito à pessoa humana, à liberdade, que nos séculos passados não eram levados tão em consideração. São elementos positivos de hoje em dia. Não somos nem melhores, nem piores do que os antigos, somos diferentes.JC - Como o senhor analisa o surgimento de diversas seitas nos últimos tempos? PB - Existem várias razões para o surgimento dessas seitas. Elas estão na linha da intimidade: eu com Deus. Não levam em conta tanto a instituição. E, como o mundo moderno, ou ultramoderno, valoriza muito a espontaneidade e a liberdade, as pessoas querem quebrar barreiras. A verdade é que, quando isso acontece, abre-se ao perigo da subjetividade, que significa que cada um tem sua verdade. Isso está errado. A verdade divina não é o que cada um pensa. É o que é. Infelizmente, poucas pessoas possuem uma formação cristã sólida. Então, muitas pessoas ficam abertas a outras correntes religiosas que podem satisfazer seus desejos. Cada um procura sua religião como se fosse um time de futebol, sem compromisso. JC - E quanto ao fim do mundo. Muito se falou nisso no ano passado, com a chegada do ano 2000. O que senhor pensa sobre isso?PB - Isso está muito explorado por pessoas interessadas em ganhar dinheiro, o que é um erro total. Para esses que falam do fim do mundo utilizando as escrituras (Bíblia), quero que leiam o que falou Jesus: ninguém sabe o dia e a hora, nem o Filho do Homem. Não queiram saber mais que Jesus. JC - O que o senhor pensa sobre a clonagem de seres vivos? PB - A manipulação da vida humana, principalmente, a criação de seres humanos ao gosto do consumidor é querer bancar Deus. Isso não está permitido e as conseqüências podem ser fatais. A humanidade tem que se defender disso, o que não quer dizer que essas técnicas não possam beneficiar os seres humanos. Mas, tem que ficar no sentido de melhorar a pessoa humana e não formar pessoas à vontade de cada um. Richard SimonettiJC - O que é o Natal na visão do Espiritismo?Richard Simonetti - É a data magna da Humanidade, a festa maior da cristandade, em que comemoramos o nascimento de um Espírito superior que veio à Terra oferecer aos homens a mais significativa de todas as revelações: o amor, em seu caráter de universalidade. Esse amor maior, que nos irmana a todos.JC - O senhor acredita que as pessoas perderam um pouco a noção do verdadeiro espírito do Natal?RS - Não se trata do que perdemos, mas do que ainda não encontramos. O espírito do Natal está na vivência cristã, no empenho por colocarmos em prática as lições de Jesus, com seus exemplos de humildade, na manjedoura e sacrifício, na cruz. Ainda temos muito dos pastores de Belém. Achamos tudo bonito, maravilhoso. Empolgamo-nos com as festividades natalinas, mas continuamos a cuidar de nossos rebanhos.JC - O consumismo acabou se sobrepondo ao sentido espiritual da data?RS - O comércio cumpre sua vocação mercantilista, atendendo à incapacidade de exprimir amor que caracteriza o comportamento humano. Fica mais fácil demonstrar apreço oferecendo presentes.JC - Na sua opinião, como deveria ser comemorado o Natal?RS - Natal é sinônimo de nascimento. Comemoramos o nascimento de Jesus. Então, é imperioso não esquecer o aniversariante, reservando alguns momentos para meditar em torno desse celeste mensageiro, que renunciou aos páramos celestes para nos ensinar que somos todos irmãos, filhos de um pai de infinito amor e misericórdia, que nos ama a todos, indistintamente. Abracemos com carinho as pessoas de nosso relacionamento, os familiares e amigos; perdoemos os que nos ofenderam; estendamos bênçãos de ajuda aos sofredores de todos os matizes, e estaremos comemorando de verdade o Natal.JC - As pessoas estão mais apegadas à espiritualidade nos dias de hoje. Por quê?RS - Porque estão mais sofridas. A dor é a grande despertadora, no estágio de evolução em que nos encontramos, estimulando-nos a buscar conforto e alento nos valores espirituais.JC - Como o senhor analisa o surgimento de diversas seitas nos últimos tempos?RS - A humanidade começa a compreender que Jesus é, segundo suas palavras o caminho, a verdade e a vida. Ocorre que não estamos todos no mesmo estágio evolutivo. Cada ser humano tem seu potencial, sua vivência do pretérito, sua idade espiritual. Daí a diversidade de crenças, envolvendo interpretações variadas. Nada disso será preciso quando vivenciarmos a lição fundamental - fazer ao semelhante o bem que gostaríamos nos fosse feito. Essa é a religião do Cristo.JC - E o fim do mundo? Muito se falou nesse assunto, principalmente com a chegada do novo milênio. Qual sua opinião?RS - Realmente, o Mundo vai acabar. Ocorrerá dentro de 6 bilhões de anos, quando o Sol esgotar sua energia, transformando-se numa gigante vermelha que nos engolirá a todos. Mas, tudo bem, não precisamos ter medo. Até lá, Deus arranjará outro lugar para a gente morar.JC - O que o senhor pensa a respeito da clonagem dos seres vivos?RS - Será prática corriqueira nos próximos séculos. Não há por quê opor-se às conquistas da Ciência, porquanto nada é descoberto ou desenvolvido sem o consentimento de Deus. A vida é criação divina, mas o homem descobrirá fatalmente meios variados para que ela se manifeste, como ocorre com a clonagem e a inseminação artificial. Futuramente teremos madres artificiais, liberando a mulher dos sofrimentos da gestação.Pastor Edson ValentinJC - O que é o Natal de acordo com os preceitos evangélicos?EV - Uma coisa é o fato em si, outra é a data. Gostaria de fazer uma diferenciação entre elas. A data é uma invenção que não tem nada a ver com o fato real. Jesus jamais poderia ter nascido no mês de dezembro. A realidade que a Bíblia narra na época não coincide com alguns fatos. Por exemplo, diz que quando Jesus nasceu os pastores estavam no campo, nas vigílias da noite guardando o rebanho. Isso jamais poderia ter ocorrido em dezembro, que é um mês de muito frio e muita chuva lá (em Belém). Entre outubro e janeiro não teria ocorrido o nascimento de Jesus, segundo demonstram os fatos. Essa data, então, é furada. Historicamente, o dia 25 de dezembro está vinculado a outra festa pagã, que era foi absorvida pelo Cristianismo quando Constantino o assumiu como religião oficial. Para os pagãos, 25 de dezembro era a adoração ao deus Sol. As datas foram conciliadas. O fato em si: para que nós tivéssemos condições de conhecer Deus de forma plena, teria que ser dentro daquilo que temos capacidade de compreender, ou seja, dentro dos nossos sentidos. Por isso, Deus se fez homem para ser conhecido por nós. O Natal é apenas uma das fases de todo o plano de Deus, que vai até a ressurreição.JC - O senhor acredita que as pessoas perderam um pouco a noção do verdadeiro espírito do Natal?EV - Isso vem de longa data. Na verdade, o costume judeu nunca foi de comemorar nascimento. Isso foi introduzido no calendário cristão alguns séculos depois do nascimento de Jesus - mais ou menos cinco séculos depois. Na verdade, ele já começou errado. O fim não poderia ser outro. Está totalmente distorcido. Hoje, quando se fala em Natal, fala-se apenas em presentes, Papai Noel - que não tem nada a ver com o Natal - pinheiro, que também não tem nada ver, tudo é feito para atrair o consumo. Se Natal é expressão do amor de Deus, a maior expressão é amar a Deus.JC - Na sua opinião, como as pessoas deveriam comemorar o Natal? EV - Essa idéia de troca de presentes é puramente comercial. A comemoração deveria ser feita em compromisso com Cristo. A partir do momento que a pessoa assume o compromisso de viver em obediência a Cristo, essa é a maior celebração que ele pode fazer.JC - As pessoas estão mais apegadas à espiritualidade nos dias de hoje?EV - É sempre assim. Tem muito misticismo nessas épocas. A própria história mostra que virada de século e de milênio sempre tem muito misticismo. Essa é uma época especial, em que muitas das profecias bíblicas já foram claramente cumpridas. Sabemos que Deus está preparando algo muito especial. Mas, a gente não vê nada de fato de especial na data em si. Na verdade, Jesus nasceu cinco anos antes do nascimento oficial dele. O milênio já virou há cinco anos. Se tivesse que acontecer alguma coisa, já tinha acontecido. O que nós temos hoje é somente uma passagem de calendário.JC - Como o senhor analisa o surgimento de diversas seitas nos últimos tempos?EV - Isso não é novidade, sempre aconteceu e não foi só na virada de milênio. O misticismo é um anseio do coração humano. Se a pessoa não busca a Deus, ela vai tentar preencher seu coração com algo sobrenatural. JC - O que o senhor pensa a respeito da clonagem dos seres vivos?EV - O homem pode manipular qualquer coisa que existe, menos gerar vida, pois ele não tem o poder de criar, que só Deus tem. O que acontece com a Ciência é que o homem quer dominar a vida. Ninguém sabe o que isso vai gerar no futuro, está saindo totalmente do natural. As conseqüências podem ser muito perigosas.