Há uma atiga estória, muito repetida, apócrifa, que embute a quintessência do egoísmo. Quando eu era jovem, eu queria consertar o mundo por inteiro. Envelhecendo, eu verifiquei que isso seria impossível, por isso, decidi olhar por minha cidade. Algum tempo depois, também isso falhando, tentei, por fim, colocar minha família nos trilhos certos. Agora, minha ambição é apenas consertar a mim mesmo.Pois bem, nos dias correntes, com a globalização esmagadora, a estória acima mostra sobretudo a faceta cínica, adaptada aos interesses egocêntricos. Mas o paradoxo, que encontramos na sua construção e na sua mensagem, é que estamos diante de uma posição unívoca: não podemos consertar a nós mesmos, sem consertar o mundo, porque nós somos o mundo.Ora, se somos o próprio mundo, porque estamos interligados pelas mais sofisticadas tecnologias de comunição ou pela incontrolabilidade anárquica da Internet, enfrentamos a cada instante de nossa vida um desafio. Esse desafio pode ser encarado com cinismo, ou com egoísmo, ou com sentimento, com com amor. Dependerá da nossa interpretação da vida, do caminho a ser perseguido.Se for com cinismo, não nos importará saber, ao comprarmos uma peça de artesanato, oriunda de uma região pobre, que quem a fez não tem qualquer benefício social e ganha menos de um salário mínimo. Diremos, até, que a compra é um bem àquele desconhecido, artesão desconhecido.Se for com egoísmo, na mesma posição, diremos que o preço é baixo, o artigo me interessou, logo, que tenho a ver com quem o fez.Se for com sentimento, teremos piedade. Lamentaremos. Conversaremos com os parentes e amigos: é só.Sabemos que as orações proferidas em uma famosa Festa Judaica (Rosh Hashaná) conduzem o fiel a recitar: Consertar o mundo segundo a regra de Deus. Embora isso nos seja impossível, podemos começar. Então, quem sabe, conseguiremos salvar a nós mesmos. Assim, o povo está fazendo, ao votar em quem promete ajudar a consertar o combalido Brasil, desvinculando-nos do nefasto neoliberalismo para ingressarmos numa era mais fraterna.E.T. - Essas reflexões originaram-se do artigo com o mesmo título de autoria de Micha Odenheimer, professor do Instituto Kolot (The Jerusalem Report, outubro de 2000). (Jayme Vita Roso, advogado, é conselheiro da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil)