Final de ano, antes de mais conversa quero desejar aos caros leitores (espero que não tão raros ...) um Feliz 2001 e, podendo, um excelente Século 21. Tenho comentado aqui neste espaço que são bastante boas as perspectivas para a nossa economia. Após o sofrimento da última década, readquirimos em 2000 algumas das condições básicas para ingressar num novo ciclo virtuoso de crescimento com estabilidade. Havendo tino e vontade política e corrigindo os desvios que ainda persistem na concepção da política econômica, é grande a possibilidade de que possamos ter um crescimento sustentado por um bom período. Gosto de lembrar que o Brasil foi um dos países do mundo ocidental que mais cresceram entre 1880 e 1980. Isso não aconteceu por acaso. Crescemos a despeito de não proporcionarmos uma educação de ponta aos nossos trabalhadores e de não termos resolvido problemas básicos de saúde do nosso povo, É evidente que, melhorando as condições e educação e saúde, os sacrifícios serão melhor repartidos e os benefícios do desenvolvimento mais bem distribuídos. De qualquer modo, vive-se melhor com desenvolvimento e emprego do que na falta deles. A questão central é como o povo e os governos enfrentam os desafios ao crescimento. Sendo eu um personagem do século passado, permito-me recordar alguns desafios que o Brasil enfrentou... e venceu. Escolhi dois, apenas, porque eles voltaram a nos perturbar e não estamos sabendo enfrentá-los. São os desafios da política industrial e da produção agrícola. O primeiro desses desafios produz calafrios em nossos economistas neocolonizados. Para eles, política industrial e substituição de importações são anátemas. Enquanto eles se arrepiam, dois autênticos paladinos do livre comércio, Alemanha e Canadá, travam uma briga de foice para atrair empresas que substituam suas importações e gerem novas exportações. Nesse instante, estão oferecendo enormes subsídios a um produtor de chips de Taiwan para que vá instalar-se em seus territórios! O Brasil já foi um participante ativo desse jogo. Tivemos uma política de substituição de importações, em alguns momentos exagerada, mas o fato é que entre 1947 e 1980 a economia brasileira cresceu a uma taxa média superior a 7%. O PIB dobrou a cada 10 anos e cresceu 5 vezes em uma geração! É claro que cresceu usando mais mão-de-obra e mais capital e com menor contribuição do fator residual chamado produtividade, mas é claro, também, que esta melhorou pois o PIB per capita aumentou acima de 4% ao ano. Construímos um parque industrial pujante, apto a atender às necessidades do mercado interno em expansão e extremamente ativo no comércio exterior. As exportações da indústria nos permitiram superar os problemas de pagamentos externos, em situações difíceis, como na crise dos anos 80. Na década de 90, nossos gênios neocolonizados descobriram que o Brasil não precisava de superávits comerciais. As exportações minguaram, enquanto contraíamos um formidável passivo externo que hoje ultrapassa 350 bilhões de dólares. Precisamos de uma política industrial capaz de qualificar a economia brasileira como base física para a substituição de importações e ampliação de exportações. O outro grande desafio mora no interior. Trata-se de oferecer garantias aos agricultores contra a violação do direito de propriedade, um direito constitucional que deixou de existir no campo. Até o final dos anos 80, o meio rural era razoavelmente seguro e os agricultores recebiam o suporte oficial de crédito. O Brasil tornou-se um dos mais importantes produtores e exportadores mundiais de alimentos. A agricultura é, naturalmente, uma atividade de alto risco econômico. Está sujeita ao comportamento aleatório do clima. Desde 1994, perdeu o suporte oficial do crédito e a garantia do preço mínimo. Acumulou dívidas impagáveis, graças à política de juros extorsivos. A tudo isso somam-se os fatores de insegurança quanto à posse da terra. O governo, em lugar de apoiar os agricultores que realmente produzem, preferiu usar os recursos oficiais para financiar projetos insustentáveis e corromper o movimento dos sem-terra. Mais de um milhão de propriedades produtivas foram abandonadas pelos donos da terra ou seus arrendatários e os trabalhadores dispensados. Como afirmou recentemente um ilustre funcionário tucano, que é do ramo, fizemos a pior reforma agrária com o maior custo do mundo. O desafio, agora, é convencer o governo de que precisa repensar toda a ação que realiza no setor rural.(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP