08 de julho de 2026
Geral

3º Milênio: Esperançoso e ameaçador

Jorge Boaventura
| Tempo de leitura: 3 min

Estamos no dealbar do terceiro milênio, a iniciar-se em meio ao ambiente de um universo confuso e angustiado em que, a par dos cada vez mais rápidos avanços da Ciência e da Tecnologia, multiplicam-se as áreas de tensão e de conflitos, ao mesmo tempo em que a conduta humana se vai, cada vez mais, como que desumanizando-se e tornando-se mais e mais egoísta e brutal.

O quadro dessa realidade que, supomos, de tão ostensivamente evidente, torna-se difícil de ser ignorada exprime um paradoxo que, basicamente, talvez se desvaneça quando considerarmos que o homem é uma realidade dual de corpo e espírito, vivendo em contato com a matéria de que se constitui sua realidade física e de que se constitui o mundo material em que ela vive e com o qual entra em contato por intermédio de seus sentidos corpóreos.

Às coisas do espírito, porém, por sua natureza subjetiva, só se chega por intermédio do pensamento contemplativo e pelas vias da religiosidade ou da especulação filosófica. Até à altura do século quatorze, aquele tipo de pensamento, e as vias que lhe davam curso, eram absolutamente predominantes, o que explica o lento evoluir dos conhecimentos acerca do mundo material, e de suas características e circunstâncias, conhecimentos que começaram acelerar-se com o surgimento, no campo da Filosofia, da postura nominalista, segundo a qual os chamados universais não tinham existência real fora das mentes dos que deles cogitavam e dos nomes que lhes eram atribuídos. O leitor, a cuja inteligência estamos remetendo as considerações até aqui, sumaríssimamente, assinaladas, deve já ter percebido que estamos nos referindo à célebre querela dos universais, que acabou por abalar e dar por terra os exageros da escolástica. É que, com o nominalismo, o homem era convidado a extroverter-se, a preocupar-se mais com o mundo, em outro exagero, tido como único real, com o mundo de matéria e de suas características. Obviamente, o leitor inteligente bem o percebe, data daí o progresso cada vez mais rápido da Ciência e da Tecnologia, rapidez que, tornando-se exponencial em sua aceleração, acarretou os efeitos benéficos que seria disparatado negar mas, simultaneamente, estiolou o pensamento contemplativo, a perquirição das realidades do espírito, de suas exigências, necessidades e atributos. Daí, supomos, o efeito não desejado nem previsto, da desumanização crescente a que aludimos de início, a qual imprime a marca da periculosidade a que também fizemos alusão, e que sombreia o milênio em que estamos entrando. A Ciência e a Tecnologia serão boas ou más, segundo os valores que animem aqueles que delas se utilizem e, principalmente, dos que delas detenham os controles. E, pelo visto até agora, e cada vez mais claramente, tais controles estão em mãos marcadas pela ignorância espiritual e pela predominância de uma concupiscência e uma ambição ilimitadas e irracionais. Aí estão os morticínios, as guerras que estão matando milhões, com armas que nenhum dos litigantes fabrica, mas que lhes chegam às mãos por quem lhas vende, acrescentando ao preço absurdo do sangue derramado, as dívidas que, como sangue-sugas insaciáveis, lhes rouba qualquer possibilidade de progresso. Vide o que está em curso, sobretudo na África sub-saárica. Voltaremos ao assunto permitindo Deus.

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