Nas últimas eleições, o Partido dos Trabalhadores conseguiu eleger um número expressivo de prefeitos em cidades importantes. De olho em 2002, quando teremos eleições gerais, seus representantes têm pela frente um desafio considerável: cumprir as promessas de campanha, em especial as que contemplam as necessidades das camadas mais pobres da população. Para muitos deles, será a hora de mostrar aos eleitores que as críticas virulentas que fazem, quando na oposição, não são apenas retórica, recurso para angariar votos e ocupar espaço na mídia. Também será o momento de assumir a responsabilidade de tomar, quando necessário, medidas impopulares, que trazem desgaste a curto e médio prazos. São os ônus do poder.
O caso de São Paulo é exemplar. Após oito anos de desmandos, a cidade está endividada, suja, em estado caótico. Seus problemas se multiplicam. A relação entre Executivo e Legislativo se deteriorou de tal forma que, nos últimos tempos, as notícias sobre a Prefeitura e Câmara Municipal foram parar nas páginas policiais dos jornais.
Para enfrentar tantos problemas, a prefeita Marta Suplicy procurou formar um secretariado de alto nível. Não se pode negar a competência técnica, experiência e seriedade da maioria de seus membros. Executivos, como João Sayad e Jorge Wilheim, por exemplo, se nunca foram testados nas urnas, têm uma longa folha de serviços prestados ao País, o primeiro como economista, o segundo como urbanista respeitado em todo o mundo.
Dos 17 secretários municipais nomeados pela prefeita, sete são deputados: quatro federais e três estaduais. Em princípio, isso é um bom sinal. O Parlamento, em que pesem todas as mazelas que lhe são atribuídas, faz com que seus ocupantes desenvolvam a prática do diálogo, do entendimento entre correntes políticas antagônicas e por que não dizer? da tolerância.
Foi louvável, por exemplo, a iniciativa da prefeita em indicar o deputado federal Eduardo Jorge para a pasta da Saúde, cargo que já ocupou durante a gestão Luiza Erundina. Ele tem pautado sua atuação na Câmara dos Deputados em defesa do setor. Foi sua a iniciativa de apresentar a primeira emenda constitucional obrigando Estados e municípios a destinar um percentual fixo de suas receitas para a área da Saúde, algo fundamental para o aprimoramento do SUS. Todos os demais secretários-deputados igualmente têm obtido destaque em suas respectivas áreas de atuação. E tudo indica que, pela experiência já acumulada, reúnem condições de fazer um excelente trabalho. O problema é que, salvo rotundo engano, em 2002, todos os sete secretários-deputados deverão disputar um cargo eletivo. Uns tentarão a reeleição.
Outros, talvez sonhem com postos mais altos. Para tanto, terão que deixar as secretarias dentro de quinze meses um tempo curto demais para enfrentar todas as mazelas deixadas pelas administrações Maluf e Pitta. Pode-se concluir, portanto, que o secretariado da prefeita Marta Suplicy é de excelente nível, mas claramente provisório.(O autor, Milton Flávio, é deputado estadual pelo PSDB e líder do governo na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo)