08 de julho de 2026
Geral

Calendário: todo dia é dia de santo

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 6 min

Padre explica que Igreja ampliou as canonizações e beatificações para mostrar que todos podem ser santos

O ano 2001 está em seu sétimo dia e a Igreja Católica já celebrou nove santos. Hoje, por exemplo, é Dia de São Raimundo de Peñafort. Ontem foi Dia dos Reis Magos. Também já passaram os dias de Maria Mãe de Deus, S. Basílio Magno, S. Gregório Nazianzeno, S. Genoveva, S. Ângela de Foligno, S. Gerlach e S. Amália - em apenas uma semana. Os calendários apontam praticamente um santo por dia (algumas datas chegam a ter três) e isso porque só são celebrados aqueles que caíram no gosto popular. Segundo o padre marianista Boaventura Borrón, a Igreja contabiliza milhares e milhares de santos em todo o mundo.

E este número vem aumentando nos últimos anos, graças ao Papa João Paulo II. De acordo com uma reportagem publicada pela Revista Veja (20/12/00), em 22 anos, o atual papa canonizou 447 pessoas, enquanto que os outros 263 papas que o antecederam, somados, fizeram 302 canonizações.

Para padre Boaventura, isso acontece porque a Igreja está chamando os fiéis a tornarem-se santos. E a forma encontrada para isso foi quebrar as barreiras que separavam os santos das pessoas comuns. Antigamente, os santos eram mártires, apóstolos, pessoas ligadas a ordens religiosas. Hoje, nós temos pais e mães de família considerados santos, médicos e engenheiros considerados santos, disse.

Segundo ele, ser santo é aceitar Jesus Cristo e viver conforme seus mandamentos e princípios, com humildade, paciência e muito amor. Até pouco tempo atrás, para ser santo era preciso ter uma história de vida recheada de provações em nome da fé. E era preciso interceder pela realização de milagres. Hoje, o milagre só é exigido para a canonização, mas basta ter um comportamento exemplar para que a pessoa possa ser candidata à beatificação, o primeiro passo para a canonização. A seguir, trechos da entrevista com padre Boaventura.

JC - O que é um santo? Padre Boaventura Borrón - Um santo é uma pessoa consagrada, oferecida a Deus e participante da graça de Deus. Porque, na verdade, só Deus é santo por excelência. Ele é altíssimo, perfeito, cheio de amor e misericórdia. E este Deus santo é também fonte de santidade. Ele faz santos. É santo seu filho Jesus, santo seu Espírito.

Agora, quando você fala de santos na Igreja, entende-se que são aqueles que estão vivendo na fé, esperança e caridade de Jesus Cristo. A santidade é um dom de Deus. Ninguém, por seu esforço ou suas virtudes simplesmente, pode chegar a ser santo. É preciso ter um dom do Espírito Santo derramado em nossos corações. Ele nos dá o seu amor - o amor divino. Esse amor que Deus nos dá tem que funcionar. Nós podemos deixá-lo inativo ou fazê-lo funcionar, por meio da esperança e da caridade. Ser santo não quer dizer ser perfeito, porque nesse caso ninguém é santo. É mais participar da bondade e dos dons da graça de Deus.

JC - Temos um número grande de santos...Pe. Boaventura - A Igreja está chamando à santidade sempre. Alguns cristãos praticaram o Evangelho de maneira heróica e se assemelharam a Jesus Cristo de uma maneira excepcional. Derramando seu sangue por Cristo, dedicando-se a obras de beneficência, santificando-se também pela oração, pela penitência, unindo-se a Jesus. Esses cristãos são testemunhas heróicas da fé em Cristo Jesus. E, nesse sentido, todos os cristãos são assim.

JC - Como isso começou?Pe. Boaventura - Os primeiros cristãos venerados como santos, além dos apóstolos e evangelistas, foram os mártires, porque eles deram um testemunho de sua fé em Cristo morrendo por Jesus. Depois, quando acabou o martírio, foram considerados santos aqueles que viveram sua fé com grande autenticidade e pessoas que fizeram um bem muito grande à humanidade. Aí temos fundadores de ordens religiosas, eremitas, pais e mães de família que educaram santamente seus filhos e os Santos Padres. Eu não saberia dizer um número exato, mas são milhares e milhares canonizados pela Igreja.

Alguns mais significativos que entraram na piedade popular são indicados no calendário. Ultimamente, a partir do Vaticano II, deu-se uma ênfase grande ao reconhecimento de santos numa vida normal da Igreja, quer dizer, sem renunciar à família. Então, leigos, homens e mulheres, professores, médicos, engenheiros, que praticaram a vida cristã de uma maneira heróica também foram considerados santos.

JC - E qual o papel do santo na Igreja?Pe. Boaventura - O papel do santo na Igreja é duplo. Primeiro, o exemplo, porque nós ouvimos melhor uma fé vivida por um homem ou mulher santos do que um livro, mesmo um livro santo como a Sagrada Escritura. Nós ouvimos melhor os exemplos de vida, que estimulam a viver com coragem a vida cristã.

O segundo papel é que eles são amigos de Deus e são muito especiais. Sabendo que só há um mediador - Jesus. Mas Jesus completa-se com seus santos. Então, a intervenção dos santos não interfere na mediação de Jesus. Podemos dizer que os santos têm esse dom de intercessão e podemos falar em especialidades. Por exemplo, São José intervém muito nos problemas familiares, porque era um esposo e pai. Então, eu recomendo aos namorados, esposos, pais, filhos com problemas, que recorram a São José, pedindo a graça a Deus, por meio deste santo.

JC - Podemos afirmar que os santos intercedem junto a Jesus, que intercede junto a Deus?Pe. Boaventura - Isso é materializar muito. Intercedem com Jesus, porque Cristo não está separado de seus santos. Não é tão burocrático, como um advogado que intercede pelo outro.

JC - Uma reportagem recente (Veja 20/12/00) informa que o Para João Paulo II foi o papa que mais santos canonizou na história da Igreja. Como isso está sendo avaliado?Pe. Boaventura - Na realidade, a Igreja era muito parcimoniosa na declaração dos santos, até porque é uma solenidade muito grande. Este papa quebrou estas barreiras. Quer dizer, pessoas que foram consideradas santas, vamos declará-las, mesmo que sejam muitas. Não tem mais tantos obstáculos e até é muito interessante para o mundo de hoje dar exemplos variados e numerosos de santidade para que os cristãos saibam que é possível viver do Evangelho hoje também. Qualquer pessoa hoje que tome o Evangelho a sério pode ser santa, pode ganhar a santidade. Na realidade, a santidade não depende de um estado ou uma profissão. Depende de amor. Então, uma senhora ignorante, analfabeta, mas que acredita em Jesus, que confia em Cristo, que aceita sua pobreza e que vive no amor, pode ser mais santa que o Papa. Deus não faz discriminação de pessoas.

JC - A intenção, então, é mostrar que todos podem ser santos, desde que adotem o modelo deixado por Jesus Cristo?Pe. Boaventura - Todo mundo está chamado a ser santo e pode ser santo, desde que aceite, ame e viva para Jesus Cristo, praticando as virtudes que ele nos deixou, sobretudo a humildade, mansidão, paciência e o amor de Jesus. Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. As pessoas devem saber que Deus as ama e as quer santas. E o amor de Deus não tem limites. Qualquer um, mesmo um criminoso, pode ser santo. O exemplo mais maravilhoso é aquele ladrão, criminoso, bandido que estava pendurado com Jesus na cruz. Ele falou Lembra-te de mim quando estiveres em Teu reino e Jesus imediatamente respondeu: Hoje estarás comigo no paraíso.

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Pessoas que têm acesso à Internet podem saber mais sobre os santos em diversos sites disponíveis.

O calendário de celebrações, por exemplo, pode ser visto em www.meusonho.com.br/datasespeciais.htm. Já no site www.lepanto.org.br, além do calendário, há informações sobre vários santos.