08 de julho de 2026
Geral

Sem-tetos preocupam Reginópolis

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Famílias sem moradias fixas e sem dinheiro para pagar aluguel de uma casa invadem prédios públicos do município

Reginópolis - As cenas deprimentes geradas pela falta de moradias a que estamos acostumados a ver nos grandes centros urbanos estão se tornando cada vez mais freqüentes em cidades menores, onde a palavra sem-teto tinha um significado que fugia da compreensão popular. Em Reginópolis, a triste realidade que essa palavra representa já faz parte do cotidiano dos seus moradores. Prédios públicos foram invadidos nos últimos anos por famílias que não tem aonde morar.

Os locais escolhidos pelos sem-teto são os mais variados possíveis. Seja nos fundos de um velório ou de uma oficina mecânica, ou mesmo em um matadouro desativado, a serventia do local parece não importar aos atuais ocupantes. Um ginásio de esportes abandonado também seria uma boa opção de moradia.

José Batista Ferreira, 68 anos, passou a morar nos fundos do velório municipal há quatro anos. Solteiro e sem trabalho, José Batista passa o dia todo sozinho e se comunica com dificuldade. A compreensão de suas palavras exige um esforço muito grande por parte daquele que o ouve. É impossível obter dele a informação de como chegou ou quem o levou para lá.

Mais grave é a situação de João Leme, 48 anos, que levou toda a família para as dependências do ginásio de esportes municipal. Inaugurado em 1996, o local encontra-se completamente abandonado pelo poder público que teria, em tese, o dever de zelar pela sua conservação. João Leme trabalha na capinagem de terrenos e usa seu magro salário para sustentar a mulher e seus sete filhos. Estão há um ano no ginásio de esportes, onde utilizam os vestiários como dependências de um lar que não possuem. Sem condições de pagar o aluguel de uma casa, João Leme e família foram despejados, segundo sua própria definição, por falta de pagamento. Hoje, dividem o amplo espaço do ginásio com dezenas de pombos, os quais dão sua valorosa contribuição para deixar o local com um aspecto de repugnância cada vez maior.

Nem mesmo a oficina mecânica da Prefeitura escapou da ação de famílias que não têm para aonde ir. Em meio a veículos novos, semi-novos e sucatas, vive um casal de idosos em companhia do filho. Elias Dias, 40 anos, trabalhou durante nove anos nas lavouras de café e hoje sobrevive colhendo laranjas, de onde tira o sustento dele e dos pais setuagenários. Elias afirma que foram levados para lá, sem dizer por quem.

Embora não esteja ocupado por sem-tetos, a Casa do Trabalhador -outrora utilizada para reunir trabalhadores e mais tarde o Clube da Terceira Idade - transformou-se em alojamento para empregados de uma empresa particular contratada para construir as moradias de um núcleo habitacional.

Para resolver o problema dessas famílias, a prefeita Carolina Veríssimo (PMDB) pensa, inicialmente, em providenciar um local mais adequado para transferi-las; de preferência um local desvinculado dos prédios municipais. Carola, como é mais conhecida, planeja reativar o ginásio de esportes e a Casa do Trabalhador. O único prédio que deverá permanecer ocupado é o matadouro, cujas atividades não serão retomadas pela atual administração.

De acordo com o vice-prefeito Alceu Trizzi (PL), Reginópolis não possui déficit habitacional. O grande responsável pelo problema com os sem-teto, segundo ele, é a falta de empregos. Sem ter de onde tirar seu sustento, Trizzi acredita que muitas famílias ficam impossibilitadas de pagarem aluguel e acabam gerando esse problema social vivido pelo município.

Falta de emprego afasta moradores

De acordo com os dados preliminares do Censo 2000 divulgados recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Reginópolis apresentou uma taxa anual negativa de crescimento de sua população, nos últimos quatro anos, da ordem de 0,99%. Na região de Bauru, Reginópolis perde apenas para a minúscula Balbinos que diminuiu 5,52% em quatro anos.

Na opinião do vice-prefeito Alceu Trizzi (PL), a explicação mais provável para esse decréscimo na população (de 4.923 para 4.730) passa necessariamente pela falta de empregos na cidade. Segundo Trizzi, que praticamente nasceu junto com a cidade, Reginópolis nunca teve indústrias e que o forte da economia sempre foi a agropecuária, com ênfase ao cultivo de laranja.

Para tentar amenizar essa carência, o vice-prefeito revela que está sendo feito contato com uma empresa frigorífica, que trabalha com o abate de carne bovina, para que a mesma se estabeleça no município.

Outra providência que deve ser tomada, em breve, pela Prefeitura é a compra de um terreno para a instalação de um distrito industrial. Porém, antes de inaugurá-lo, os atuais administradores querem dar todas as condições estruturais, como rede de água, esgoto e energia elétrica, para as possíveis futuras indústrias.

Enquanto certas providências não são tomadas no sentido de se criar novas oportunidades profissionais e educacionais para trabalhadores e estudantes, respectivamente, Reginópolis, segundo seu vice-prefeito, é bem provável, continuará apresentando novos índices de evasão populacional.