Esta é a odisséia de um velho conhecido, narrada por ele. Quando voltei aos estudos, que abandonei, na minha adolescência, após grave acidente ferroviário, encontrei-me, naquela escola de ensino noturno, com um estudante que comigo trabalhou, nos idos tempos, como marceneiro.
Eram novas amizades, e aos sábados íamos aos bailes das vilas, na periferia da cidade. Nas noites de domingo assistíamos aos filmes da primeira sessão, no então Cine Bauru. Na saída, passávamos no bar Cinelândia tomar aquele cafezinho e, em seguida, dirigíamo-nos até à rua Batista aporrinhar as dengosas menininhas. Tudo era muito divertido!
Numa daquelas noites domingueiras, ali na rua Batista, aquele estudante e companheiro de profissão dos velhos tempos, confidenciou-me:
- Diorindo, não me pergunte de quem se trata! Estou gostando de uma menina, é uma deusa. Não aquela deusa cantada em prosa e em verso, pelo cancioneiro popular. É a deusa do meu mundo e a causa desta minha angústia.
Eu lhe respondi: - Ela, pelo menos corresponde aos teus olhares apaixonados? Em correspondendo ou não, aproxime-se, educadamente, peça-lhe licença e exponha teus sentimentos de afeto por ela. Em sendo educada, dar-te-á um caloroso sim, ou um solene e doloroso, não. A conversa terminou ali.
Dias depois ele me falou: - Diorindo, vou-me embora tentar melhor sorte noutra cidade. Faço-o em silêncio porque não tenho coragem para me despedir. Adeus!
Por casual coincidência, eu ficara sabendo quem era a sua deusa.
Depois de algumas décadas, eis que, encontro-me com ele, no Calçadão, já com os poucos cabelos que lhe sobram, grisalhos. Sentamo-nos num dos bancos próximos ao serpentário político e ele foi soltando sua apaixonada fala: sua luta tenaz para enriquecer; seu feliz casamento; seus filhos. Parou de conversar... e, reiniciou: - Se eu tivesse te revelado quem era a minha deusa, falaríamos sobre ela. - Ô rapaz! Saiba, que fortuitamente fiquei sabendo quem é ela e, em respeito à tua dor guardei silêncio.
- Veja bem. Desses amores não consumados, que nem tentaram subir ao altar de Deus, o mundo está cheio. Esqueça-a. Ela casou-se com aquele moço que você viu, acompanhando-a. Constituíram uma bela família e vivem felizes. - É, meu grande amigo Diorindo. Eu a amo e quando a vejo não consigo me controlar. - Pois, refreie esse teu instinto bestial e doentio sentimento e desapareça para sempre. Se, realmente, você a ama, siga a minha recomendação. Eis que, numa dessas tuas inesperadas aparições, não venha acontecer se dê com ela acompanhada do seu feliz esposo e ele terrivelmente venha a desconfiar da existência daquilo que se não ocorreu e os infelicite.
- Preste bem a atenção. Neste mundo de Deus, com raras exceções, todos passamos por esses desconsertos amorosos; mas, é imperioso de o homem e a mulher terem juízo e muito, porque, o matrimônio sublime é sagrado e deve ser respeitado. O resto deve ser enterrado na vala dos amores frustrados; e, que se não pudermos ser luz, que não sejamos trevas! Esta mensagem é para todos os pacientes de frustrados amores. Portanto, tenham muito cuidado para não causarem danos irreparáveis. (Diorindo Lopes - RG: 3.765.094)