08 de julho de 2026
Geral

Tese defende interação contra a aids

André Tomazela
| Tempo de leitura: 6 min

Trabalho proprõe a transferência dos conceitos referentes à Gestão da Qualidade aplicados às ações de prevenção da aids

O trabalho desenvolvido como tese de doutorado pela professora do curso de Relações Públicas da Universidade do Sagrado Coração de Jesus (USC), Sonia Aparecida Cabestré, busca contribuir para uma nova visão no que se refere ao processo de prevenção à aids.

Pesquisando o modo como é trabalhada a disseminação de informações sobre saúde na literatura norte-americana, a professora comparou o modelo tradicional de prevenção à aids, baseado em campanhas esporádicas e atividades isoladas com o modelo originário da transferência dos princípios da Gestão da Qualidade às ações preventivas e educativas a serem utilizadas na disseminação de informações sobre a síndrome. Baseada na formação de grupos de discussão nas mais diversas comunidades, trabalhando em parceria com outros setores da sociedade, como o governo e universidade, e dando ênfase na interação entre público alvo e os educadores, a nova proposta demonstra formas de se atingir a eficácia nas atividades de prevenção, de acordo com a Filosofia Deming.

No trabalho intitulado A disseminação de informações preventivas e educativas sob o enfoque da Gestão da Qualidade: a aids em questão, a professora construiu um quadro que explicita, ponto a ponto, o enfoque tradicional de prevenção à aids, comparado ao enfoque da Gestão da Qualidade.

Trata-se de seis estágios do processo de prevenção: planejando, selecionando, desenvolvendo, implementando, avaliando e feed-back.

De acordo com o enfoque tradicional, que é adotado atualmente como modelo de prevenção, as atividades educativas e preventivas são de responsabilidade dos diferentes setores da sociedade, cada qual com objetivos, métodos e estratégias próprias. A estrutura das atividades é linear, contínua e seqüencial. Já para a Gestão da Qualidade, a missão de cada setor envolvido nas ações de prevenção é contribuir decisivamente para o alcance dos objetivos em sua totalidade. A estrutura das atividades é interativa.

Para, realmente, trabalhar de uma maneira eficaz com relação às ações de prevenção à aids, o profissional, independente de ser comunicador, educador, sociólogo ou psicólogo, tem que estar interagindo com o público, para realmente saber como é a realidade, qual a visão de mundo e, afinal, quem é esse público, afirma Sonia. A estrutura é interativa porque está embasada na questão do profissional estar percebendo e vivenciando a realidade.

A Gestão da Qualidade traz, também, a noção de longo prazo, de processo, quando se trata de ações de prevenção à aids.

Para o enfoque tradicional, a quantidade de preservativos distribuídos numa ação preventiva esporádica como o Carnaval, por exemplo, já é considerada a própria prevenção. Enquanto que, para a Gestão da Qualidade, a prevenção só será efetiva com o envolvimento das pessoas, os receptores, que serão beneficiados com alterações de posturas, estrutura, capacitação, motivação e relações de reciprocidade.

No estágio da avaliação das atividades de prevenção, o enfoque tradicional avalia os resultados com base nas estratégias desenvolvidas, enquanto que, o enfoque da Gestão da Qualidade avalia os benefícios diretos que o público alvo obteve com as ações educativas e se o conjunto de necessidades referentes aos segmentos específicos desse público ou da comunidade foi assegurado.

De acordo com Sônia, os paradigmas que sustentam o enfoque tradicional são embasados no programa de prevenção propriamente dito. Ao contrário, no enfoque da Gestão da Qualidade, o paradigma de sustentação é o beneficiário das ações, suas necessidades e preferências.

Em suma, é isso que eu estou chamando de contribuição: é traçar um paralelo entre o enfoque tradicional e o enfoque da Gestão da Qualidade que, longe de ser a solução para todos os problemas, pode tornar-se o ponto de partida para a melhoria nos programas de prevenção à aids, afirma.

A professora acredita que a escola, através dos seus profissionais, fazendo parcerias com o setor produtivo, poderá desenvolver ótimos trabalhos de prevenção. Isso porque a mídia, que poderia ser responsável por promover um discussão contínua sobre prevenção, não o faz em função da necessidade de abordar somente temas que são comercialmente atrativos em determinado momento.

A universidade, assim como os profissionais, sozinhos, não fazem nada. Nós temos que, realmente, trabalhar com parcerias, completa. Nós temos que discutir ações de prevenção, não importa se elas são geradas pelas Organizações Não-Governamentais (ONGs), pelo ministério da Saúde, pelas empresas, pelas universidades ou qualquer outro setor da sociedade.

Levantamento de dados

A tese de Sonia, defendida na Unesp, Campus de Marília, no dia 11 de dezembro de 2000, levantou um série de informações, não apenas da literatura que aborda o tema, mas também, através do material produzido na Imprensa, nos jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Jornal da Cidade, nos anos de 1995, 1996 e primeiro trimestre de 1997.

O período pesquisado possui uma peculiaridade: foi em 1996, na Conferência Mundial sobre a Aids, em Vancouver (Canadá), que foi apresentado o coquetel de drogas como tratamento da aids. A imprensa, a partir deste momento começou a dar ênfase nos avanços da ciência, ao mesmo tempo em que deixou de ser prioridade falar sobre prevenção. Divulgavam-se os avanços da ciência, as descobertas dos cientistas que apresentavam seus estudos em Vancouver, como algo já certo e concluído. Na verdade, não passavam de estudos, afirma Sonia.

De acordo com ela, o tratamento dado pela Imprensa pode ter causado, nos já possuidores do vírus, uma esperança desenfreada e nas demais pessoas, que achavam que aids era um problema alheio, uma certa euforia. O comportamento adotado pode ter sido o de deixar de lado a prevenção, em função da divulgação do coquetel.

A pesquisa iniciou-se com a coleta de dados sobre a doença, primeiramente no SUS da cidade de Bauru e, depois, através de contatos com profissionais da área Epidemiológica da Faculdade de Saúde Pública da USP e com os que atuam nos Centros de Referência da aids (sociólogos, psicólogos e assistentes sociais). Procedeu, ainda, a leitura de materiais produzidos pela Secretaria Estadual da Saúde e Ministério da Saúde; identificação, tiragem de cópia e análise de fitas de vídeo, contendo diferentes abordagens sobre o trabalho realizado pelas ONGs.

Durante o processo de desenvolvimento da pesquisa, já em fase de finalização das atividades, a Imprensa divulgou que o número de jovens infectados com o vírus da aids estava aumentando. Frente à notícia, a professora decidiu realizar uma pesquisa de opinião com jovens de 14 a 17 anos, estudantes de duas escolas de Bauru: uma pública e outra privada.

Jovens estão em formação

A pesquisa foi realizada em cima do público jovem, por estar na faixa etária em que se apresenta o início da vida sexual. A professora acredita que esse público, por estar em formação, não possui, ainda, hábitos e vícios sedimentados no que diz respeito às práticas sexuais.

É possível trabalhar com esse público, através de dinâmica, na qual os jovens não sejam vistos apenas como receptores de informação. Eu acredito, como é previsto na Gestão da Qualidade, que só é possível que as pessoas assimilem e apreendam o conteúdo daquilo que se quer passar, quando existem as condições favoráveis para que haja a interatividade, entre o possuidor da mensagem e o receptor, comenta.

Quanto aos adultos, de acordo com Sonia, há uma maior dificuldade na mudança de comportamentos no que diz respeito à vida sexual, mesmo sabendo da existência dos riscos.

As pessoas continuam fumando, dirigindo em alta velocidade e bebendo demasiadamente. O ser humano tem uma série de vícios, ligados a diferentes fatores, que ele só muda em situação de risco, afirma Sonia.