11 de julho de 2026
Geral

Lalai (à dir.) posa em frente a uma pintura que retrata a famosa confeitaria que levou seu nome, nas décadas de 40, 50 e 60. Ela é a do meio, na gravura.

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Falar em Lalai não é só falar em um restaurante ou uma confeitaria, é falar de toda uma era. Um período romântico e cheio de estilo e sofisticação que não à toa se tornou conhecido como anos dourados. Nessa época, a confeitaria Lalai era uma referência na cidade e um dos points mais elegantes do Interior paulista, com o seu visual inovador, pratos requintados e atendimento impecável. Uma das responsáveis por esse mito local é a mulher cujo apelido (dado pelo avô ainda na infância) batizou a confeitaria, Maria de Lourdes Pompeo. Aos 81 anos, hoje Lalai é responsável pelo setor de compras e cobrança do laboratório farmacêutico da Santa Casa, Santisa. No cargo há 11 anos, ela não trabalha mais na área onde se tornou conhecida, mas se lembra com carinho e saudade do glamour do estabelecimento que um dia dirigiu junto com a irmã e o pai e que se tornou um marco na vida de Bauru.

Jornal da Cidade - A senhora é natural de Bauru?Maria de Lourdes Pompeo, Lalai - Não, sou campineira. Depois de Campinas fui para São Paulo, para estudar e fazer faculdade. Estudei quatro anos lá e quando prestei engenharia, no Mackenzie, não passei. Vim para Bauru, onde meu pai tinha os carro-restaurantes da Noroeste. Como não havia faculdade aqui, fui trabalhar com ele. Isso foi em 1942. Acabei ficando nos negócios, junto com a minha irmã.

JC - Quando a confeitaria foi aberta?Lalai - Primeiro, meu pai comprou a padaria América, que ficava na rua Bandeirantes, era uma loja pequena. Depois decidimos abrir a confeitaria, na Batista de Carvalho 7-18. Foi em 16 de abril de 1946. Ficamos lá até a década de 60. Quando fechamos, ficamos só com a padaria Central e a minha irmã ficou com o restaurante do Tênis.

JC - Como o seu apelido se tornou o nome da confeitaria?Lalai - Quando o meu pai montou a confeitaria foi conversar com o senhor João Maringoni, um dos advogados da Noroeste, que era seu amigo, e ele sugeriu o meu apelido. Eu não gostei, achei que as pessoas fossem começar com brincadeiras. Ele então propôs um concurso no jornal para que as pessoas votassem em um nome para a confeitaria. Não sei se essa eleição foi normal, mas no final o Lalai foi mesmo o nome escolhido.

JC - A Lalai foi o principal ponto de encontro da juventude nos anos 50 e 60?Lalai - Foi, até porque não tinha mais lugar algum em Bauru. Quando nós viemos para cá, ninguém conhecia o que era um sundae, um milk-shake. Nós fazíamos tudo na Lalai. É claro que havia outras sorveteiras, com produtos bons, mas eram menores.

JC - Um dos pontos marcantes da Lalai era o visual...Lalai - É, papai montou um lugar muito bonito, todo em aço inoxidável. Nossos pratos eram bons, vinham com o nome da confeitaria, os talheres eram de prata, os copos de cristal, tínhamos uma bomboniére de cristal importado oval... Tivemos que tirar os nomes dos objetos porque tudo o que levava o nome da confeitaria acabava virando souvenir. Era um padrão que não havia em Bauru. A gente tinha um conjunto que tocava lá também.

JC - Que lembranças a senhora tem daquela época? Lalai - Era uma época bonita. Os jovens transitavam de um lado para o outro, faziam o footing. Antes, eles andavam na rua 1º de Agosto, quando abrimos a Lalai, eles passaram a andar na Batista. Era uma época boa, diferente de hoje. Hoje existem muitos lugares, naquele tempo não havia nada como a Lalai.

JC - A senhora tem saudade daquela época?Lalai - Eu tenho sim, era uma época boa, eu era moça... era diferente. Eu sempre gostei muito de automóveis e fui uma das primeiras mulheres a dirigir em Bauru. Eu fazia sucesso passeando de carro pela cidade com as minhas amigas para baixo e para cima. Eu trocava o carro todos os anos, sempre tinha um novo.

JC - Além dos pratos da casa e do visual, o atendimento era um deferencial também, não?Lalai - Era, nós sabíamos escolher os garçons, porque o atendimento é muito importante em qualquer estabelecimento comercial até hoje. O garçom precisa conversar com o cliente, saber atender, estar sempre atento.

JC - A Lalai também recebeu visitas ilustres...Lalai - Todas as pessoas famosas que vinham à Bauru passavam por lá. Menoti Del Picchia, Paulo Francis... A confeitaria era freqüentada por todo mundo que vinha de fora, dos estudantes que começaram a vir por causa da faculdade aos artistas que passavam pela cidade. O Paulo Francis até citou a Lalai em um dos seus livros (Cabeça de Negro).

JC - Então, não era um lugar só freqüentado por jovens?Lalai - Não. A Lalai era uma lanchonete e também um restaurante, servíamos pratos famosos, nossos. Também tínhamos um serviço de buffet, fazíamos festas até fora da cidade. Mas a confeitaria era freqüentada pelos jovens e pela sociedade em geral. As pessoas que queriam ser bem atendidas iam à Lalai.

JC - A senhora tomava conta de que área da confeitaria?Lalai - A minha irmã tomava conta da parte da cozinha, dos pratos, do que a gente servia. Eu ficava com a parte administrativa.

JC - Por que vocês fecharam a Lalai?Lalai - Nós estávamos também com a padaria Central, o restaurante do Tênis, da Hípica, do Automóvel Clube, do Aeroporto... A confeitaria estava precisando ser modificada. O tempo foi passando e as coisas envelhecendo. Depois do fechamento tive um posto de gasolina.

JC - Hoje em dia o restaurante Lalai pertence a quem? Lalai - Ao Renato e a Elaine, meu filho e minha nora. Não tenho mais nada a ver com o restaurante. Eles entendem muito do que fazem, gostam. Quando viajam eles procuram aprender mais coisas para trazer para o restaurante, inovando sempre. Acho formidável o jeito como eles trabalham.

JC - Há quanto tempo eles têm o restaurante? Lalai - Eles têm a Lalai há uns seis anos, de quando nós fechamos no anos 60 até então o nome Lalai tinha sumido. Quando ele resolveu abrir um restaurante ficou pensando em um nome e os amigos indicaram Lalai, que já era um nome conhecido. Acabou ficando.

JC - O texto de apresentação no cardápio da Lalai hoje em dia faz um retrospecto da história da confeitaria, que é colocada como um ambiente que revolucionou a vida social, política e cultural da cidade. A senhora acha que houve mesmo essa revolução? Lalai - Acho que sim. Justamente por ter sido um lugar pioneiro, que se tornou um ponto de encontro para a cidade inteira, uma referência em todos os aspectos por mais de uma década. Havia também o bar Cristal aqui, mas era um lugar mais para homens. A Lalai era para todo mundo, a sociedade bauruense se reunia lá.