08 de julho de 2026
Geral

Que preguiça

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

A semana nem começou e você já está sonhando com a sexta-feira, quando vai poder tomar a sua cervejinha no final da tarde ou dar aquela esticadinha à noite? E quando surge um trabalho pesado, você sempre se esquiva ou deixa para depois? Se respondeu sim para as duas perguntas ou se está lendo esse jornal com dois dias de atraso porque não teve vontade de ler na data, você pode se considerar uma pessoa preguiçosa. Segundo o dicionário Aurélio, ter preguiça significa ter aversão ao trabalho, ser negligente, indolente ou lento, mas nem sempre o pessoa preguiçosa é assim por má vontade. Diversos fatores estão envolvidos na definição desse comportamento que, quase sempre é confundido injustamente com vagabundagem.

É difícil encontrar uma pessoa que afirme não sentir preguiça em momento algum do dia ou quando está diante de uma certa situação, mas elas existem. O brasileiro é preguiçoso por natureza, diz o supervisor pessoal José Carlos Batista. Mas ele garante que não se sente indisposto nunca por conta do seu trabalho, que exige atenção. As professoras Argélia Fialho e Tamara Gonçalves também afirmam não sentir preguiça em momento algum do dia. Comigo não tem tempo ruim, qualquer hora é hora, diz Argélia. Mas os três são exceções. A grande maioria das pessoas admite não se sentir disposta diante de algumas situações e atividades e confessam que muitas vezes se entregam à preguiça, transferindo as responsabilidades para o dia seguinte ou para a data mais longínqua possível. Eu tenho muita preguiça, confessa a estudante Eliana Carmona, de 19 anos, principalmente se for de manhã ou logo depois do almoço. O vendedor Elias Santos Ortiz diz se sentir mais lento e com menos vontade de trabalhar às segundas-feiras, É a preguiça do Garfield, brinca, se referindo ao gato das histórias em quadrinho que tem uma preguiça constante e que odeia as segundas-feiras.

Hibernação

Ter preguiça, na realidade, não é exatamente uma falta de vontade proposital, pelo menos não em 100% dos casos. Ela pode ser causada por diversos fatores alheios à vontade de pessoa, que passa então por preguiçosa sem ter culpa. Não existe preguiça, decreta a psicóloga e psicoterapeuta Telma Regina Toniol. O que existem são componentes físicos, orgânicos e (ou) emocionais, que levam a pessoa a ter um comportamento de inércia, quase um estado de hibernação, diz.

A também psicóloga e psicoterapeuta Maria Regina Corrêa Lopes Vanin concorda. Para ela a origem da preguiça está na maneira com que as pessoas lidam com a sua energia vital.

A psicóloga explica que algumas pessoas possuem bloqueios corporais e por isso ficam mais tensas do que o normal, não conseguindo relaxar. O resultado é cansaço, porque a energia não flui normalmente. Uma pessoa cansada não vai ter disposição para certas atividades e por isso vai passar por preguiçosa, o que não é verdade, diz Maria Regina Vanin. Existem ainda outras possíveis causas para a preguiça, como a falta de atividade física, a falta de motivação ou até uma leve depressão. Uma pessoa que se exercita pouco fica com o corpo desaquecido, sem estímulos para realizar qualquer atividade, explica a psicóloga. No caso da falta de motivação, o problema é se executar uma tarefa que não motiva. Daí a importância da criatividade no dia-a-dia para que não haja monotonia e, conseqüentemente, desmotivação e preguiça.

Além disso, existe a questão orgânica. Em alguns casos, o problema está em uma leve depressão, que faz com que a pessoa se sinta pouco entusiasmada para as coisas, diz Maria Regina Vanin.

Questão de idade

A opinião popular aponta a adolescência e a terceira idade como os períodos nos quais a preguiça se manifesta com mais intensidade. Eu mesmo era muito preguiçoso quando era mais novo, diz o comerciante Rubem da Rocha Hano, de 50 anos. Ele conta que mesmo querendo fazer as coisas, sentia que o seu corpo não ajudava na juventude, o que não acontece hoje. Existe uma explicação para isso. Na adolescência os jovens passam por uma grande mudança orgânica, que envolve hormônios e tudo mais. Essa mudança faz com que o cérebro deles desvie sua atenção para outra atividades internas, por isso os jovens dormem mais e são menos dispostos a fazer exercícios, explica Telma Toniol. Com o passar dessa fase, as coisas voltam ao normal. Por isso a psicóloga acredita que os pais devem ter mais paciência com os filhos nessa idade. É preciso haver menos críticas porque nem sempre é uma questão de preguiça. É a fase de hibernação para se trabalhar com um conteúdo interno, afirma.

No caso dos idosos, a questão está mais ligada à desmotivação que geralmente vem com a aposentadoria ou com a perda da capacidade motora que provoca uma lentidão natural. As pessoas nessa fase podem se sentir inúteis de uma hora para outra por não terem mais um trabalho ou uma atividade diária e por isso se sentirem desmotivadas, o que facilmente pode se confundir com preguiça.

Espante a preguiça

Procure praticar atividades físicas que lhe dêem prazer. Quando mais se exercita o corpo, melhor.

Preencha os seus períodos de folga da melhor maneira possível, com atividades agradáveis e divertidas, que motivam. A falta de motivação conduz ao tédio e, conseqüentemente à preguiça.

Busque a realização em tudo o que faz, seja na profissão, em casa ou com as pessoas. Quem se sente realizado não fica indisposto.

Sua mente também precisa de atividade. Por isso é bom estar sempre em busca de novas informações e conhecimentos com os quais se use a criatividade.

Uma postura otimista também é importante. Quem acha que vai conseguir realizar uma tarefa realmente o faz com mais facilidade do que as pessoas que ficam inventando obstáculos e empecilho.

As pessoas que se aposentam devem ter um cuidado especial com a preguiça, porque de uma hora para outra passam a não ter mais uma atividade diária e podem entrar em depressão por isso. O ideal é encontrar uma atividade, mesmo que seja um hobby, o mais rápido possível.