10 de julho de 2026
Geral

Filhos especiais exigem pais especiais

Rita de C. Cornélio
| Tempo de leitura: 7 min

Aceitação dos pais é importante para evolução dos filhos especiais. Vencer o preconceito é o primeiro desafio

O nascimento de uma criança é quase sempre uma alegria para uma família. Porém, quando o recém-nascido é especial, tem alguma deficiência física ou mental ou doença crônica, a família demora um tempo para aceitar o fato. Após o período de aceitação, a criança especial se torna o eixo das atenções e ajuda a família a evoluir. Vencer a barreira do preconceito é um desafio para os pais especiais, dizem os especialistas.

O comerciante Levi Momesso e sua mulher Cristiane valorizam a vida para compensar a deficiência visual de sua filha mais velha, Amanda Vitória Momesso. Ela nasceu de seis meses e meio e sobreviveu. A sobrevivência da Amanda já foi uma vitória para nós, disse ele.

A deficiência visual da menina foi descoberta quatro meses depois do nascimento. Ela ficou dois meses na incubadora e, por não ter o pulmão totalmente formado, teve problemas de saúde durante mais dois meses. Passado o período mais crítico, os pais notaram que a menina não acompanhava os movimentos e só então descobriram que ela não enxergava.

Na opinião da psicóloga Lúcia Pereira Leite, a rejeição da sociedade já foi muito maior. Hoje, é menor do que era antes. Dependendo do grau de deficiência, a aceitação é maior. A sociedade acaba fazendo um julgamento errôneo, disse.

O pai confessa que mesmo depois de ter enfrentado tantos problemas de saúde com a menina ficou surpreso quando os especialistas garantiram que ela nunca poderia enxergar. Somos evangélicos e quando o primeiro médico nos deu a notícia, não acreditamos. Achamos que deveríamos ter esperanças. Consultamos outros médicos, que nos convenceram que o caso era irreversível, contou o pai.

Amanda Vitória, segundo os pais, teve um deslocamento de retina ainda na incubadora. Os médicos fizeram o máximo para salvá-la. Salvaram, porém ela ficou cega, disse. Aos poucos, os pais foram se conformando com a situação e procurando formas de ajudar a menina a vencer as barreiras.

Vilma Leonel Carvalho, 59 anos, sofreu um impacto quando ficou sabendo que a sua caçulinha era uma criança especial. Há 26 anos atrás o diagnóstico era mais demorado. Eu percebi que a Renata estava com um mês de vida e não chorava. Procurei um médico e ele, grosseiramente, disse: Se o bebê chora, a mãe reclama; se não chora, a mãe reclama. Então não tem jeito, relembra a mãe.

Inconformada com a resposta, ela levou sua filha para outro pediatra. Ele me disse com todas as letras que minha filha não era normal, que tinha síndrome de down. Confesso que naquele momento pensei em me jogar embaixo de um ônibus. Meu marido me ajudou a superar o trauma causado por aquela notícia, contou.

Vilma disse que aos 3 anos sua filha teve que se submeter a uma cirurgia do coração. Ela tinha deficiência no coração. Passou por uma cirurgia e vive bem até hoje, contou. Aos três anos, Renata Leonel Carvalho mostrou aos pais porque veio ao mundo. Ela veio para trazer alegria e felicidade. Internada no hospital para a cirurgia do coração, ela conquistou toda a equipe de enfermagem. Todos gostavam dela e queriam tratá-la. Na nossa família, não há uma só pessoa que a Renata não tenha conquistado. Todos gostam dela, contou a mãe.

A síndrome de down não impede que Renata se relacione com as outras pessoas, garante a mãe. Ela nunca teve problemas de relacionamento. Mesmo quando criança, sempre brincou com as outras crianças e vive uma vida normal, dentro do possível, disse Vilma.

Amanda Vitória Momesso é uma menina muito esperta, ressalta o pai, orgulhoso. Ela canta como ninguém. Tem uma memória muito boa, grava nomes e números com muita facilidade, disse. Dentro da casa onde mora a menina não encontra obstáculos. Ela anda sozinha pela casa. Não cai e nem se machuca, disse.

As dificuldades aparecem quando Amanda deixa seu ambiente usual. Quando ela sai de casa para um local estranho, exige mais cuidado. Pode sofrer quedas e até se machucar, alerta o pai. Outro desafio enfrentado pela menina é quando tenta brincar com outras crianças, explica o pai. As outras crianças não estão acostumadas a conviver com uma deficiente visual. Isso dificulta a brincadeira porque ela não enxerga e reclama que as outras crianças não brincam com ela, disse.

Até para estudar a menina teve que enfrentar barreiras. No ano passado tentamos encontrar uma escola que aceitasse deficientes visuais. Como não tem uma escola especializada, ela foi para a escola normal. A professora teve que se adaptar a uma nova realidade. Ela sai uma hora e meia antes das outras crianças porque requer muita atenção e a professora não tem como dedicar-se só a ela, contou.

Os pais dizem que farão um esforço maior para que a menina estude. Ela vai para uma escola particular. Ela já aprende braile e promete ser médica ou dentista, disse.

Embora a sociedade tenha evoluído bastante, o preconceito ainda existe, garante os pais de Amanda. Quando ela era menor, era muito pior. Minha mulher saía para dar uma volta e voltava chorando. As pessoas achavam que ela estava dormindo, relembra.

No caso de Renata, a mãe lembra que, quando criança, as pessoas se aproximavam para fazer revista. Queriam ver a mãozinha dela. Questionavam porque ela tinha nascido assim, disse. Tanto Amanda quanto Renata, garantem os pais, levam uma vida normal, dentro dos limites colocados pela vida.

Ajuda profissional

Aceitar o nascimento de uma filho especial não é tarefa fácil, enfatiza a psicóloga Lúcia Pereira Leite, professora da Unesp do câmpus de Marília. Ela aconselha o acompanhamento de profissionais para minimizar o impacto. O casal precisa de um acompanhamento de profissionais. É muito importante que o médico converse com os pais e sugira algum outro tipo de atendimento, o psicológico, por exemplo, disse.

A explicação do pediatra, segundo ela, também é importante. O pediatra, estando apto para falar o que é essa deficiência, como essa criança pode ser tratada, ameniza a aflição dos pais, explicou. Na opinião da psicóloga, o diagnóstico e o prognóstico precoce são primordiais para a evolução do deficiente.

Fazer um diagnóstico e um prognóstico rápido pode ajudar muito a melhorar a vida do portador de deficiência. Hoje, uma intervenção precoce é muito favorável. O tratamento é muito favorável, afirmou. A deficiência física visível, como a falta de um braço ou de uma perna, causa um impacto maior nos pais, lembra a psicóloga.

Ocorre um impacto maior porque os pais olham para o bebê e enxergam que falta alguma coisa. Os pais projetaram, durante toda a gravidez, uma criança perfeita. Se eles não têm, no pré-natal, informação da deficiência, o susto é grande, ressaltou.

O pai, normalmente é o mais resistente, na aceitação da deficiência. O homem é mais resistente. Algumas vezes, ele cobra da mulher que gerou o filho que não é perfeito. Para que esse casal tenha sobrevivência, a psicóloga indica o acompanhamento psicológico. Ele precisa entender que essa criança pode gerar muita alegria. Não é porque ela não tem um braço ou uma perna que ela não pode gerar alegria. Hoje, com todo o avanço que a gente tem na área de tratamento, o prognóstico é favorável, disse.

O desespero é ainda maior quando a criança especial é o primeiro filho do casal. O primeiro filho gera uma expectativa maior do casal. O nascimento de uma criança portadora de deficiência não exige a dedicação exclusiva da mãe. A mãe não tem que se dedicar 100% à criança e abandonar toda a vida dela.

Ela tem que ter a vida dela e também cuidar de seu bebê, orienta a psicóloga. Para muitas mães que resistem aceitar a situação, o trauma é ainda maior. O aconselhamento desde a hora do nascimento, além de minimizar o problema, preserva o casamento. A psicóloga acha que a mãe deve saber porque o bebê tem problemas. A mãe tem o direito de saber porque o bebê não nasceu perfeito. O médico tem que falar porque essa criança nasceu sem um braço ou com qualquer deficiência. O médico deve indicar outros profissionais que podem auxiliar no desenvolvimento da criança, disse.