09 de julho de 2026
Geral

Bauru, capital nacional do vôo a vela

David Cintra
| Tempo de leitura: 4 min

Em posição geográfica privilegiada e contando com histórico invejável, a Cidade Sem Limites é um centro de excelência na modalidade

Para os moradores de Bauru já se tornou comum, nas tardes dos dias quentes, ver nos céus pequenos aparelhos sobrevoando suas casas. No entanto, nem todos os bauruenses sabem que naqueles engenhos voam campeões e uma parte da história da cidade.

São os planadores, que se aproveitam das excepcionais condições meteorológicas que Bauru proporciona para a prática deste esporte e deslizam sobre as ondas térmicas, geradas pelo forte calor da região. O incomum esporte, praticado nas alturas, é denominado vôo a vela e Bauru se tornou conhecida como a Capital Nacional da modalidade. Não só pelas condições meteorológicas, mas também devido a fatores geográficos e históricos.

O vôo a vela é praticado em Bauru desde 1942, introduzido pelo imigrante alemão Hendrich Kurt, um dos fundadores do Aeroclube de Bauru. Kurt, pacifista convicto, veio para o Brasil fugindo do nazismo, no final dos anos de 1930 e se estabeleceu em Bauru, juntamente com o engenheiro Hans Widmer. Kurt, construiu os primeiros planadores usados na cidade, entre eles o curioso "canguru", que está em vias de ser recuperado pelo Aeroclube de Bauru. "No início, os planadores eram rebocados por guinchos. Primeiro, eles só arrastavam até aprender a equlibrar a asa, depois aumentavam um pouco a velocidade e aí o planador só saía do chão e voltava, ia aos saltos, daí o nome canguru", conta Luiz Carlos Cortez César, presidente do Aeroclube.

Este modelo, na verdade um planador Zoeling, de projeto alemão foi totalmente construído por Kurt nas oficinas do Aeroclube. Em 1949, o Aeroclube de Bauru participou do I Campeonato Brasileiro de Vôo a Vela e desde então tornou-se um centro de excelência nesta prática esportiva. O pioneiro Kurt faleceu em 6 de junho de 1993 e enquanto esteve vivo jamais deixou de voar e ensinar.

Hoje o Aeroclube de Bauru, que possui 13 planadores em atividade, está em primeiro lugar no ranking brasileiro há anos, com três pilotos entre os cinco primeiros colocados no ranking individual: Luis Fernando Improta, o número 1; Claúdio Affonso Junqueira e Henrique Azevedo Navarro Vieira. Além deles outros 9 bauruenses estão entre os 100 melhores do Brasil.

Uma competição de vôo a vela consiste em provas de velocidade, nas quais define-se previamente um percurso e o piloto que o completar em menor tempo é declarado vencedor. Atualmente vêm se tornando comuns as provas com tempo definido, às quais vence o piloto que conseguir percorrer a maior distância dentro do tempo pré-estabelecido. Um planador pode voar a mais de 500 km e atingir velocidades maiores que 250 km/h. É claro que cada equipamento tem características próprias.

No Brasil, as competições dividem-se em duas categorias, Aberta e Olímpica. A primeira, reúne planadores de melhor performance, enquanto que na Olímpica, também chamada Classe Mundial, são utilizados os planadores PW5. É nesta categoria que Luis Fernando Improta estará representando o Brasil nos World Air Games, na Espanha.

Em termos mundiais, a Alemanha, berço do vôo a vela, é considerado o país mais desenvolvido neste esporte. O Brasil não tem muita tradição dentro de um contexto global, justamente pelo alto custo da modalidade.

Ao contrário do que muitos imaginam, o vôo a vela é uma modalidade segura. "É uma aeronave sem motor, assim, não tem o que quebrar nele. Os poucos acidentes que acontecem são decorrentes de falhas do piloto, não do equipamento", afirma Edson Mitsuya, administrador do Aeroclube de Bauru. Antigamente os planadores eram feitos de madeira, hoje, no entanto, são consrtruídos em fibra de carbono, o que aumentou ainda mais a segurança, além de ter otimizado a performance (mais velocidade e autonomia). Um planador pode pesar entre 180 kg, como os de competição da classe olímpica, e 370 kg como um Puchacz, de instrução.

Mas a grande vantagem para quem voa em um planador, é a paz encontrada nas alturas e a sensação de um vôo original, sem a necessidade de motores, ainda que dependa de um rebocador motorizado para atingir altitude. O vôo a vela é fundamentado no conhecimento e domínio da natureza e aí está sua beleza, seu maior atrativo, transformando em pura realidade o louco sonho de Ícaro.