08 de julho de 2026
Geral

Caio/Botucatu retoma a produção

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 6 min

A previsão dos novos investidores é de que a partir da próxima terça-feira todos funcionários estejam trabalhando

Botucatu - Viemos para ficar e crescer. Com esta frase, o diretor industrial da Induscar, Maurício Lourenço da Cunha, resumiu a disposição dos empresários que assumiram a massa falida da Caio de Botucatu. Desde a última quinta-feira, cerca de cem funcionários retomaram a produção em algumas sessões de trabalho e deram início a uma nova fase dentro da empresa, onde, agora, passa a vigorar o sistema de cooperativa.

Maurício acredita que a partir da próxima terça-feira, dia 30, a empresa deverá retomar sua capacidade máxima de produção, que chega a dez ônibus por dia. Para tanto, os cerca de 600 funcionários, que trabalhavam na Caio antes da falência, foram recontratados. Até mesmo a equipe de engenheiros foi mantida. A retomada total da produção somente será alcançada, segundo Maurício, desde que os fornecedores entreguem o material dentro do prazo combinado.

Empolgado com o desafio de dar nova vida à empresa, Maurício revela que a pretensão é dobrar a produção de ônibus dentro de um prazo de nove meses. Nós acreditamos que o mercado consumidor comporta esse aumento, comentou o diretor. De acordo com compromisso assumido pelos novos proprietários da Caio, a produção inicial deverá servir para atender pedidos novos e antigos, os quais foram pagos parcial ou integralmente e que não foram entregues pela empresa falida.

O investimento inicial feito pela Induscar, segundo seu diretor industrial, chegou próximo aos R$ 2 milhões. De acordo com Maurício, dentro dos próximos três ou quatro meses, a empresa deverá consumir outros R$ 10 milhões, em investimentos.

Segundo Maurício, o contrato de locação da marca e das dependências da Caio em Botucatu é de duração de cinco anos com direito a uma prorrogação de mais cinco. Dentro desse prazo, a Induscar pretende lançar no mercado novos modelos de ônibus, além de manter a produção dos atuais.

Empresa familiar

O grupo de empresários, todos de uma mesma família, que passa a administrar a Caio a partir desta semana, é o mesmo que controla, há 35 anos, 12 empresas de ônibus circular, na cidade de São Paulo. De acordo com Maurício, a frota dessas empresa está em torno de 3.200 ônibus e 95% dela é composta por ônibus produzidos pela Caio. Daí a confiança do grupo na viabilidade dos investimentos na massa falida. Nesta semana, o grupo que controla a Induscar deverá convocar uma coletiva para esclarecer, com detalhes, à imprensa, seu plano de trabalho para seguir com a produção de ônibus, em Botucatu.

Metalúrgicos comemoram

Para o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Botucatu, José Carlos Lourenção, a iniciativa da Induscar representou um alívio para as 600 famílias que dependiam do salário da Caio para manter uma certa estabilidade financeira. E, segundo ele, não apenas estas famílias sentiram-se aliviadas mas também o próprio sindicato, que recebia, diariamente, dezenas de ex-funcionários da empresa falida em busca de informações quanto ao recebimento de seus direitos trabalhistas que deixaram de ser pagos com a falência da Caio. Mais que isso, Lourenção conta que os ex-funcionários buscavam desesperada e principalmente uma nova colocação dentro do mercado de trabalho.

Nosso objetivo, nesses últimos dias, era um só, disse o presidente do sindicato, que concluiu logo em seguida. O objetivo era recuperar a mão-de-obra que ficou ociosa com o fechamento da empresa. Agora que essa meta foi alcançada, Lourenção começa a pensar na viabilidade da nova empresa que surge e na possibilidade de que a mesma retome, e se possível aumente, o ritmo de produção empreendido, no passado, pela Caio. Com isso, não apenas todos os ex-funcionários voltariam à ativa, mas poderia surgir também a possibilidade de abrirem-se novas vagas. Caso isso aconteça, outros funcionários que foram demitidos em épocas passadas ganham, na opinião do presidente do sindicato dos metalúrgicos, nova esperança de voltarem a produzir ônibus, como faziam há alguns anos.

A questão salarial, em princípio, não deverá causar atritos. Embora, alguns setores produtivos da nova empresa deva sofrer uma redução salarial, em comparação ao salário pago antes da falência, outros, segundo Lourenção, ganharão um aumento real. No entanto, ele garantiu que a maior parte dos funcionários voltarão a receber o mesmo salário de antigamente. A nossa preocupação era manter o poder aquisitivo dos trabalhadores, revelou o presidente. Segundo ele, a média salarial proposta pelos novos controladores da Caio é equivalente ao que se paga nas outras grande empresas da cidade.

Com a reabertura da produção de ônibus pela Caio, empresas menores, de Botucatu e de cidades vizinhas, que lhe forneciam peças, ganham um novo fôlego e preservam assim o perfil industrial da região.

Da liderança à falência

Desde sua instalação, no fim de 1981, a Caio ganhou status de maior empregadora de mão-de-obra, em Botucatu. Graças a isso, a cidade passou a ter um perfil industrial parecido com os de localidades onde a produção metalúrgica prevalece.

Por muitos anos, a Caio ocupou a liderança no ranking nacional de fabricantes de ônibus, disputando essa posição privilegiada com outras empresas de grosso calibre como Marcopolo, Ciferal, Busscar e Comil. Há oito anos, aproximadamente, os acionistas da empresa decidiram profissionalizar sua administração, até então mantida num nível apenas familiar.

Em decorrência de problemas internos envolvendo os mesmos acionistas e os administradores contratados para profissionalizar a gestão da empresa, a Caio começou a perder mercado. Durante uma entrevista coletiva, realizada no ano passado, representantes da Caio revelaram que os acionistas entregaram, aos novos administradores, uma empresa com quase R$ 60 milhões em caixa, mas receberam de volta uma dívida de valor equivalente.

Desde sua fundação há 55 anos, a Caio inovou na produção de ônibus. Foi a primeira empresa a substituir a madeira das carrocerias por alumínio e a trabalhar junto com o governo e com os fabricantes de chassis para desenvolver um produto que facilitasse o acesso dos passageiros e tivesse uma suspensão mais suave.

Das pranchas dos engenheiros da Caio saíram janelas que diminuíam a concentração de ar poluído dentro do ônibus, portas de acessos mais largas para facilitar o acesso de pessoas mais gordas e vidros panorâmicos. A empresa chegou a ter unidades industriais no nordeste e no Rio de Janeiro, mas aos poucos foi fechando suas filiais de linha de montagem e concentrou tudo em Botucatu. Na época de ouro, a empresa chegou a ter mais de 2 mil trabalhadores.

Nos anos 80, a empresa montou uma parceria com a Mercedes Benz e iniciou a produção de ônibus no México. O projeto parou quando houve o famoso crash financeiro que prejudicou por mais de dez anos a economia daquele país. Há quase 4 anos, a empresa montou uma nova parceria. Desta vez com a Cooperativa Mondragon, da região Basca da Espanha, e criou a Irizar-Caio, para produção de ônibus de luxo. A parceria, que projetava um investimento de US$ 20 milhões, divididos pela metade entre os investidores foi desfeita quando o problema financeiro da empresa começou a ganhar proporções preocupantes e acabou por resultar na decretação de falência da empresa.