08 de julho de 2026
Geral

Tomé: vida de fé e paz de consciência

(*) Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

Nos meses passados, algumas pessoas expressaram seu desejo de mais um artigo sobre o tema fé. Desta vez, quero pedir licença àqueles que não pertencem a uma religião cristã, e utilizar de um ícone cristão para exemplificar melhor o fenômeno da fé. Eu sou como São Tomé, eu quero ver para crer.

Infelizmente a incredulidade vem sempre relacionada ao discípulo de Jesus chamado Tomé, por este não ter acreditado na aparição do Mestre. Porém, quem observa a prática de Tomé no grupo de Jesus redescobre o verdadeiro significado da fé e começa a ver Tomé como um exemplo que deve ser seguido por todos aqueles que querem ter um relacionamento vivo e profundo com este ser superior que chamamos de Deus.

Tomé aparece no Evangelho por três vezes. Na primeira vez, Jesus e seus discípulos encontram-se fora da região da Judéia por estarem nesta ameaçados de morte. Porém, ao receber a notícia da morte do amigo Lázaro, Jesus resolve voltar à Judéia. Os discípulos ficam tomados pelo medo: Rabi, a pouco os judeus procuraram apedrejar-te e vais outra vez para lá?. Apesar do medo dos companheiros, Tomé toma a palavra e diz: Vamos também nós, para morrermos com ele!(Jo 11, 1-43).

Na segunda participação, o discípulo provoca uma das frases mais comoventes de Jesus. Ao fazer referência sobre sua morte, Jesus diz aos discípulos: E para onde vou, conheceis o caminho. Os discípulos ficam todos em silêncio, apesar de não terem compreendido o que o mestre quis dizer.

Tomé, porém, toma a palavra e questiona: Senhor, não sabemos para onde vais.

Como podemos conhecer o caminho? Então, o Cristo responde: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.(Jo 14, 1-6). A terceira participação de Tomé ocorre depois da morte de Jesus. Os discípulos estão fechados em uma casa, com medo de terem o mesmo fim que o mestre. Jesus então aparece para o grupo. Como Tomé não estava presente, os discípulos relatam a ele todo o acontecido. Tomé, porém, diz com sinceridade que não acredita.

Esta postura de Tomé provoca uma nova aparição do mestre, diante da qual o discípulo pronuncia a profissão de fé mais simples e bonita que o mundo cristão conhece: Meu senhor e meu Deus! (Jo 20, 19-29). Nestas participações de Tomé percebemos duas características que mostram uma profunda e viva relação com Deus. A primeira característica é a autenticidade. Tomé não é de forma alguma hipócrita. Ele é puro, transparente, diz o que sente. Tomé não quer representar diante dos outros um papel de crédulo. A autenticidade, a franqueza, é base de qualquer relacionamento e base obrigatória para o relacionamento com Deus. Tomé procura ser ele mesmo diante de seu Mestre.

A segunda característica de Tomé é a coragem. Nas três passagens acima podemos perceber duas posturas radicalmente opostas. De um lado o medo dos discípulos: o grupo tem medo de questionar o mestre, de mostrar suas dúvidas, o grupo possui o medo da perda da própria vida. Tomé representa a antítese do medo.

Ele tem coragem de morrer pelo mestre, mas tem a coragem também de questioná-lo e de duvidar de suas ações. Se a autenticidade é a base do relacionamento com Deus, a coragem é a sua própria expressão. Ter fé é viver como Tomé, ser autêntico diante de Deus e diante dos homens, ter a coragem de dizer o que pensa, não ter medo de duvidar, de discutir e até mesmo de brigar com Deus. É ter a coragem de fazer de Deus uma presença viva no dia-a-dia.

Muitas pessoas cumprem os preceitos religiosos (missa, culto,...), mas são, na verdade, indiferentes a Deus. Deus não participa de seu cotidiano e a religião constitui-se em uma tradição. Outras pessoas vivem um verdadeiro paradoxo: pelo medo diante da vida se refugiam na sacristia. São pessoas que não conseguem admitir suas dúvidas e incertezas, mostram-se carregadas de verdades sobre Deus e as realidades da vida pós-morte, mas no fundo são possuidoras de uma grande insegurança, possuem medo diante da vida e de si mesmas.

Fé significa justamente o contrário: coragem de viver na autenticidade. Ter a coragem suficiente de dizer sim para a vida e para Deus, jogando-se em suas mãos. E quem vive na fé possui paz. Esta paz não é aquela que encontramos no cemitério: silenciosa, estática, muda, porque, na verdade, todos ali estão mortos. A paz que nasce da verdadeira fé é uma paz de vivos. É a paz que é acompanhada de conflitos, de crises, dúvidas, mas apesar de tudo, uma paz de consciência por não representarmos um papel mas sermos verdadeiros, autênticos e humanos diante de Deus e dos homens.

Somente em uma relação viva com Deus é que provocamos, como Tomé, manifestações verdadeiramente divinas e encontramos a paz criativa e dinâmica que nos movimenta para a mudança, para a vida nova, para a luz.

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

(*) Especial para o JC Cultura