Levar uma união por 15, 20, 30 anos requer uma grande dose de amor e paciência, além de um diálogo aberto. É uma tarefa difícil, mas não impossível. Segundo o psicólogo americano John Gottman, autor do livro Casamentos: Por Que Alguns Dão Certo e Outros Não (Editora Objetiva), não há uma fórmula mágica para salvar um casamento. No seu livro, ele afirma que casais podem tomar atitudes para melhorar a convivência e que o casamento tem mais chance de dar certo quando os cônjuges sabem lidar com as suas emoções.
Para chegar a essas conclusões, Gottman, que é professor da Universidade de Washington, pesquisou cerca de 2 mil casais em 20 anos. Ele desenvolveu uma teoria para ajudar a identificar, através de testes e exercícios, os fatores que levam ao divórcio e ensina como é possível fortalecer a união. Na opinião do psicólogo, o casamento duradouro resulta da capacidade de o casal solucionar os conflitos que são inevitáveis em qualquer relação.
Para o autor, há três estilos diferentes de solução de problemas que são praticados em casamentos saudáveis e duradouros. Num casamento de validação, os casais costumam chegar a um acordo e solucionam com calma os conflitos que vão surgindo, de modo a alcançar a satisfação mútua. Num casamento de evitação, os casais concordam em discordar, raramente mergulhando de cabeça em suas diferenças. E no casamento volátil, o conflito surge com freqüência, produzindo discussões.
A prática de um desses três estilos não é garantia de um casamento feliz. Essas adaptações só funcionam na medida em que permitam alcançar o equilíbrio entre as interações positivas e negativas com seu par.
O estudo de Gottman com os casais mostrou que tudo pode se resumir a uma fórmula matemática. Qualquer que seja o estilo do seu casamento, o que é preciso é ter cinco vezes mais momentos positivos do que negativos juntos para que a união seja estável.
A importância do humor
Gottman explica que os conflitos aumentam quando o riso desaparece e a crítica e o sofrimento aumentam. A crise conjugal piora se as tentativas de aliviar os sentimentos feridos do parceiro e de restabelecer a comunicação parecem inúteis. Para evitar o fim do casamento, não se deve deixar que a crítica, o desrespeito, o comportamento defensivo e o retraimento tomem conta da relação.
Criticar e se queixar talvez não tenha muita diferença para alguns casais, mas a primeira implica atingir a personalidade ou o caráter do outro.
O psicólogo diz que expressar raiva e discordância ou fazer uma reclamação, embora raramente seja agradável, fortalece o casamento a longo prazo. O problema começa quando o cônjuge sente que suas queixas são ignoradas e seu parceiro simplesmente não muda de comportamento. Com o tempo, as queixas se agravam e podem destruir rapidamente a relação. O que separa o desrespeito da crítica é a intenção de insultar e agredir psicologicamente o parceiro.
Para manter um relacionamento saudável, ele deve ser alimentado de amor e respeito. O desrespeito é a força mais corrosiva do casamento.
A importância do diálogo
Solucionar problemas num relacionamento requer, de modo geral, um diálogo sobre os sentimentos negativos. Mas isso será difícil se ambos costumam encobrir ou ignorar suas emoções. É preciso que as pessoas se abram, muitas vezes só isso é o necessário. Na opinião de outro psicólogo americano, Frank Dattilo, autor do livro Terapia Cognitiva com Casais (Editora Artes Médicas), os casamentos terminam não por falta de amor e sim por dificuldade de comunicação. Além desse fator ele acredita que muitos casais criam expectativas erradas em relação ao casamento e quando se decepcionam, terminam o relacionamento. Segundo Dattilo, com o passar do tempo as pessoa param de se comunicar como faziam na época do namoro. É até fácil constatar como diminuem os números de beijos, abraços, bilhetes, declarações de amor, tudo. A razão disso, para o psicólogo é que as pessoa passam a achar que que o outro tem que saber o que elas estão pensando. Não se expressam e acabam se decepcionando quando as coisas não acontecem como elas queriam. É culpa dele, dizem.
De acordo com Dattilo, essa falta de comunicação, normalmente acontece quando acaba a paixão, o que pode acontecer depois de três, cinco, ou sete anos. Mas nada impede que ela venha antes, por isso é preciso se expressar.
O segredo do sucesso
Amor, paciência e doação. Essas são as três palavras mágicas para que um casamento dure, na opinião de advogado Aloísio Garmes e de sua esposa, Maria do Carmo Alonso Garmes. Casados há 36 anos e meio, pais de três filhos e avós de quatro netos, eles admitem que levar uma relação estável por muito tempo não é uma tarefa fácil, mas garantem que é possível. É preciso que os dois saibam ceder quando for preciso e que haja muita paciência de ambas as partes porque as brigas vão surgir, diz Aloísio. Maria do Carmo, lembra que, nessa fórmula de sucesso, também existe uma grande parte de doação por parte da mulher, que, segundo ela, acaba sempre pensando mais no bem estar da família.
O casal credita o sucesso do seu casamento não apenas à maneira como eles lidam com a relação e a família, mas também ao modo como eles encaram a instituição do casamento desde o princípio. Maria do Carmo explica: Hoje em dia, os jovens se casam já pensando que se não der certo, podem se separar. Nós aprendemos que casamento é uma coisa para sempre... Foi um ensinamento transmitido pelos nossos pais, diz.
A dona de casa Marta Silveira pensa da mesma maneira. Quando eu casei, decidi que era aquilo que eu queria para a vida inteira, conta. Viúva há dois anos, ela ficou casada por 45 anos e garante que foi feliz cada dia. Não vou dizer que não existiam brigas ou contrariações, explica. Mas nós sabíamos como conversar e deixar tudo bem de novo. Quando perguntada sobre quantas vezes teve que ceder para que a relação não acabasse ela sorri. Perdi a conta de quantas vezes deixei de fazer o que eu queria. Mas não fez mal, faz parte, meu marido também deixou alguns costumes para trás quando se casou comigo e depois também. Se você ama, até faz um sacrifício, ensina.
O que não pode é deixar acumular a mágoa, diz o aposentado Anselmo Perini. Casado há 43 anos com Maria Cecília Perini, ele diz que quando o casal briga muito é porque conversa pouco. A esposa concorda. Casamento é uma coisa muito boa, mas não é fácil, não, é uma brincadeira como fazem hoje em dia. Em primeiro lugar é preciso gostar muito, ter muito amor, depois saber respeitar os outro. Esse é o segredo, afirma.
Para continuar casado
John Gottman mostra alguns sinais de alerta no casamento, preste atenção neles para não acabar ficando só:
Afeto: Demonstre afeto pelo seu par. Este tipo de comportamento traz sensação de alegria e fortalece o casamento.
Consideração: Sempre que seu (sua) parceiro (a) contar um episódio dramático ou difícil, expresse consideração. Apóie-o (a) sempre que estiver triste e preocupado. Ignorá-lo (a) ou deixá-lo (a) para depois pode ser o começo do fim.
Empatia: Demonstre que realmente compreende o que seu (sua) parceiro (a) está sentindo.
Aceitação: mesmo se o seu (sua) parceiro (a) estiver dizendo algo com que você não concorda, mostre-lhe que o que está sendo dito faz sentido e é importante. Nunca o (a) ridicularize.
Brincadeiras: Brincadeiras e momentos divertidos juntos são estimulantes. É afirmação de um vínculo íntimo.
Alegria: Quando você estiver satisfeita, empolgada ou simplesmente divertindo-se de verdade, mostre ao (a) seu (sua) parceiro (a).
Olhe a boca
Algumas frases podem ter um efeito bombástico quando ditas para a cara-metade. São colocações cheias de subentendidos que repetidas dia após dia podem revelar muito sobre a nossa personalidade e, em alguns casos, o quanto somos egoístas, autoritários ou agressivos, sem perceber. Antes que o seu marido (ou sua mulher) consiga perceber algumas dessas características pelas suas frases, veja o que não deve sair dizendo por aí:
É hora daquele jornal chato, ligue o rádio
Apague a luz, meu olho está doendo
Abaixe o som, odeio essa música
Não consigo pensar antes do café da manhã. Depois a gente conversa
Não sei onde está, procure!
Quem deixou a pia suja de novo?
Você já acabou? Preciso usar o banheiro
Não gostou? Faça você mesmo
Esqueci de pegar um para você
Cuidado, isso quebra, sabia?
É meu!
Posso tomar um pouco do seu suco?
É por isso que você sempre se atrasa
Você me leva
Pára, assim você me despenteia
Dá para esperar um pouco, aqui não é lugar para isso
Você pode me ligar depois?
Vou levar minha mãe junto
Quero sair sozinho (a)
Somos apenas amigos
Onde você esteve esse tempo todo?
Quando você vai fazer alguma coisa, hein?
O que você tem?
O que você está pensando?
De novo, hoje eu quero outra coisa!
Dá para fazer menos barulho?
Estou morrendo de calor, dá licença!
Cuidado com o carro na sua frente!
Se você não sabe estacionar deixa que eu estaciono
Odeio esse tipo de filme
O que aconteceu no começo do filme mesmo?
Você engordou
Deixe as crianças fazerem o que quiserem
Desculpa, esqueci completamente o que você tinha falado
Acorda, você está roncando
Você gostou?
Como assim, está cansada (o)?
Agora chega, vamos dormir
Que sujeira que você fez, hein?
Simpatia
Mas se o seu auto-policiamento não funcionar, você pode tentar salvar o seu relacionamento de outra forma, recorrendo ao mundo à magia. Levante bem cedo num domingo, vá até uma igreja e reze um terço inteiro, oferecendo as preces ao seu amor e a você, pedindo que o seu casamento receba toda a proteção divina. Faça isso com muita fé. Reze ainda 1 Salve-Rainha e, ao sair da igreja, benza-se com água benta, fazendo o Sinal-da-Cruz. Dizem que é infalível!