Medo e insegurança. Esses são os sentimentos mais constantes entre os moradores e comerciantes fixados na quadra 1 da rua Júlio Prestes. Vizinhos do galpão e da antiga estação da Ferrovia Paulista S/A (Fepasa), pontos anunciados como a identidade cultural do município, eles têm motivos de sobra para sentir saudades do tempo em que os imóveis eram ocupados. O abandono que silencia o local desde a privatização da ferrovia tornou-se abrigo de moradores de rua, usuários de drogas e ladrões que cometem pequenos furtos e assaltos na região central.
A obscuridade do local chega a causar mal estar. Numa pequena visita ao interior do galpão, é possível flagrar pessoas assustadas que se escondem entre os madeiramentos, lixo não orgânico de todo o tipo (de centenas de tocos de cigarros a garrafas e papéis), sem falar do clima nada hospitaleiro. Numa área antes usada como depósito de ferramentas e peças, uma pessoa é vista recolhendo um pouco do que ainda tem valor. O material que tá (sic) aqui deve valer uns cinco mil, mas precisa procurar bem, estimou, demonstrando desconfiança e proibindo ser fotografado.
No prédio da estação desativada, a situação não é muito diferente: portas e paredes arrebentadas, vidros estilhaçados, pichações e o mesmo ar sombrio. De repente, percebe-se a presença de um freqüentador, que, aparentemente perturbado, segue rumo a um cômodo utilizado como banheiro. Os vagões abandonados no meio da linha também têm a mesma serventia. Coisa de arrancar indignação até mesmo de quem nunca andou de trem.
Essa é a situação experimentada, ainda que não tão de perto, cotidianamente pelos moradores do local, em sua maioria composta por ex-funcionários da ferrovia que se instalaram há mais de quatro décadas às margens da linha. Todos são unânimes em suas reclamações e no receio de se indentificarem em razão de futuras represálias.
O presidente da Associação dos Aposentados e Pensionistas de Bauru, Mário Pereira, no entanto, resolveu assumir o risco e expor os problemas. Alguém tem que pôr a cara para bater e cobrar providências. Aqui, todo mundo vive aterrorizado, com medo de sair na rua quando a noite começa. Temo pelos aposentados que freqüentam diariamente a Associação. Outro dia mesmo, um senhor quase foi assaltado aqui em frente por uma dessas pessoas que vivem aí na frente (galpão). A tentativa só foi frustrada porque outros viram a ação e começaram a gritar, contou, lembrando que ladrões tentaram arrombar o próprio prédio da entidade.
Um advogado que mantém escritório defronte ao galpão disse que também já tentaram arrombar sua porta e, por essa razão, prefere não expor mais o assunto para não assustar os clientes.
Mas não são só os freqüentadores do prédio abandonado que motivam as reclamações. A Feira do Rolo, realizada todos os domingos, traria ainda mais transtornos. Essa gente que fica aí (no galpão) é estranha e causa medo, mas até que nos respeita. O problema maior ocorre por causa da feira. Eles começam a montar as barracas no sábado à noite, por volta das 9 horas, e fazem o maior barulho. É difícil conseguir dormir. Mas se fosse só isso estava bom. No domingo, não há quem consiga sair de casa porque as barracas fecham os nossos portões. Quando eu vou almoçar na casa da minha filha, tenho que implorar para eles darem uma passagem, o que nem sempre acontece, reclama uma senhora que reside há mais de 40 anos na quadra.
Outra moradora, além de endossar as palavras da vizinha, lamenta a situação geral do lugar. Do local nobre de décadas atrás, passamos a viver num ponto depreciado. Isso é um descaso do poder público com a gente, porque a culpa não é de quem freqüenta ou deixa de freqüentar, mas de quem permite o acesso. Em relação à feira, sequer estamos sendo beneficiados com aquela lei que dá descontos aos moradores que têm feiras em frente suas casas. A Prefeitura alega que a feira é na rua Gustavo Maciel e não aqui, mas Bauru inteira sabe que na Gustavo tem a feira livre e que a feira do rolo é aqui na Júlio Prestes, disparou.
Uma das moradoras mais antigas da quadra, que, por medo, também preferiu não ser identificada, enfrenta os mesmos inconvenientes aos fins-de-semana. De sábado à noite até o começo da tarde de domingo não se sai de casa. Se alguém tiver (sic) morrendo, só se salva se conseguir um helicóptero. Os carros e barracas tomam conta de tudo; é realmente triste. O que acontece aí no galpão também é triste, principalmente para quem viveu na época em que essa praça era uma beleza. Já ouvi brigas feias, vi gente usando drogas e movimentações estranhas. Graças a Deus, nunca entraram aqui, mas porque sabem que a Polícia vem depressa quando chamada, disse.
Realmente, o patrulhamento no local é constante, mas nem mesmo a polícia se arrisca a coibir a freqüência ao galpão. Na opinião dos moradores, o que falta não é mais policiamento e sim uma providência que impeça o acesso ao interior do imóvel abandonado. Uma saída seria fechar as portas com tijolo, porque não adianta pôr cadeado. Da última vez que tentaram trancar, o pessoal ateou fogo e furaram as portas, que são de madeira, recordou Mário Pereira.