10 de julho de 2026
Geral

Boxe de Bauru luta contra a falta de estrutura

Rodrigo Figueiredo
| Tempo de leitura: 4 min

Apesar das dificuldades nos treinamentos, pugilistas tentam esgatar época de glória

O boxe de Bauru, que já rendeu tantas glórias à história esportiva da cidade, trava hoje uma luta desigual contra um de seus maiores adversários: a falta de estrutura.

Para não ser nocauteado por este colosso, uma máquina demolidora que derruba sem dó todos os seus oponentes, o boxe bauruense esquiva-se como pode e tenta se recompor a cada novo golpe recebido. Com o rosto castigado e as pernas trêmulas, a força para continuar em pé vem do fôlego de poucos abnegados, que tentam, sofregamente, evitar que a nobre arte tome o golpe final e caia, sem poder se levantar.

A falta de materiais esportivos e um local adequado para os treinamentos, além é claro da quase inexistente ajuda financeira, seja do Poder Público ou de patrocinadores, chega a desanimar os pugilistas em Bauru, mas não os tiram do ringue. Com experiência e criatividade, eles conseguem manter o esporte vivo na cidade, numa luta que, se depender dos boxeadores, ainda promete muitos rounds. Se me derem um ringue para treinar essa garotada, posso realizar um grande projeto social, garante José Stocco, 59 anos, professor de boxe da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel).

Enquanto não são adotadas medidas definitivas, que dêem uma estrutura adequada ao boxe na cidade, medidas paliativas têm salvado o esporte ao soar do gongo. Um exemplo disso tem sido a forma improvisada que os boxeadores têm encontrado para realizar os seus treinos. Não importa o local, a garagem ou quintal da própria casa, o importante para os que tentam praticar boxe em Bauru é manter viva a tradição deste esporte, que já trouxe para a cidade tantas medalhas nos Jogos Abertos do Interior.

Hoje, há em Bauru pelo menos dois grupos de boxeadores. Um deles, comandado pelo veterano Stocco, treinador de boxe pela Semel há 15 anos, conta com pouco mais de 10 lutadores. O outro, treinado por Marcos Pantaleão - ex-aluno de Stocco -, tem apenas quatro lutadores. No ano passado só tinha eu e mais um, agora já somos em quatro, avalia o otimista Pantaleão. Os dois grupos, no entanto, convivem com os mesmos problemas. O primeiro, que conta com apoio da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel), treina normalmente no ginásio distrital da Bela Vista, mas em condições precárias. Não temos muitos materiais, mas o que mais faz falta é o ringue, lamenta Stocco. O grupo de Pantaleão treina em um local ainda mais acanhado, na garagem da casa de um dos lutadores. Não temos ringue, mas isso nos dá mais força para lutar nos campeonatos, diz.

Acostumados a levar socos no dia-a-dia de treinamentos, os lutadores não se entregam ao desânimo. A falta de condições adequadas para os treinamentos entristece, mas é encarada apenas como mais um desafio. Não importa a dificuldade que a gente encontra, pois o boxe me ensinou muitas coisas boas na vida, relata José Marques, 23, que treina com Stocco e já disputou os Jogos Abertos de Araraquara, em 1998.

São poucos, porém, que conseguem alcançar um nível de competição. Nos últimos anos, tirando Pantaleão, que em 2000 disputou a Forja dos Campeões, em São Paulo, nenhum outro lutador disputou torneios importantes ou conseguiu algum destaque nos Jogos Abertos.

PASSADO GLORIOSO - Mas quem pensa que Bauru sempre esteve em desvantagem neste combate contra a gigantesca falta de estrutura, engana-se. De 1986 a 1995, quando havia um ringue de treinamento no Palácio dos Esportes, onde hoje fica o Teatro Municipal, o esporte viveu o seu auge. A cidade ganhou em cultura, mas perdeu em esporte, lamenta Stocco, lembrando que depois que a academia foi desativada, o boxe não ganhou outro local igual para realizar os seus treinos.

Nos Jogos Abertos de Presidente Prudente, em 1988, Bauru viveu o seu auge no boxe, com a conquista de José Aparecido Silva Júnior, que trouxe a medalha de ouro. Na história dos Jogos, os bauruenses têm tradição, trazendo várias outras medalhas de prata e bronze. Hoje, com a preparação que temos, não podemos competir no mesmo nível das principais cidades, já que qualquer boxeador, mesmo que tenha disputado uma Olimpíada, pode disputar os Jogos, ressalta Stocco.

DAVI X GOLIAS - Os lutadores de boxe de Bauru, apesar de todas as adversidades, prometem jamais jogar a toalha e lutar, com todas as forças, até o último pingo de suor. Nesta luta de Davi contra Golias, eles esperam repetir o feito do bravo Davi, que nunca se deu por vencido na briga contra o gigante Golias e soube aproveitar o melhor momento para conquistar a sua vitória. Uma lição milenar, mas seguida à risca por aqueles que sabem que nunca se pode baixar a guarda para o adversário, do contrário, o golpe pode ser fatal.