08 de julho de 2026
Geral

Bauru quer ampliar Fórum Social

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 6 min

Participantes do Fórum Social Mundial dizem que a continuidade do processo depende de uma grande adesão popular

O Fórum Social Mundial , que aconteceu de 25 a 30 de janeiro em Porto Alegre, recebeu cerca de 16 mil pessoas, de acordo com dados da organização do evento, e contou com a participação de um grupo bastante representativo de Bauru, que pretende organizar reuniões e debater propostas para a aplicação de alternativas, discutidas no evento, aqui na cidade.

Estiveram participando das oficinas, conferências e mesas redondas do Fórum, em meio a representantes de 126 países, a vereadora Majô Jandreice (PC do B) - que esteve representando a Câmara Municipal, sindicalistas da cidade e um grupo de 44 pessoas da Unesp, entre alunos e professores.

A preocupação inicial do evento era de que sua marca não fossem os protestos, mas o debate e a proposição de alternativas às políticas liberais, simbolizadas pelo Fórum Econômico Mundial, que aconteceu no mesmo período, em Davos.

A vereadora Majô acredita que um dos méritos do Fórum foi reunir diversas formas de organização com um objetivo comum, em um momento conturbado do mundo - sociedade excludente e injusta, em que a maioria das pessoas passam dificuldades. Conseguimos colocar, num mesmo espaço, diversas formas de organizações discutindo e tentando buscar propostas alternativas em que todos possam viver com justiça e em que cada um resgate sua identidade e soberania para resolver seus problemas, destaca.

O professor de Ética e Filosofia da Unesp - Bauru, Clodoaldo Meneguello, enfatiza, baseado em suas impressões pessoais, a importância do significado histórico do Fórum. Pela primeira vez na história houve um evento desse tipo. Reuniu representantes de diversas organizações, grupos, segmentos sociais; não governantes. É a humanidade tendo a capacidade de se pensar como um todo.

E afirma que a continuidade do processo depende de uma adesão grande da população às alternativas discutidas. Temos, agora, que envolver a população numa ação organizada e coletiva; desencadear processos de ações coletivas nas escolas, nos bairros, nos sindicatos.

O grupo da Unesp ressaltou o fato de não haver, por enquanto, uma avaliação conjunta da experiência vivenciada em Porto Alegre, ainda que alguns de seus integrantes tenham exteriorizado suas impressões pessoais. O professor da Faculdade de Ciências da Unesp - Bauru, Geraldo Bérgamo, falou sobre a idéia de continuidade dos trabalhos. É um processo que não terminou. Está apenas começando.

Os unespianos apresentaram, no último dia de atividades do Fórum, a oficina Universidade Pública e Participação Popular, em que foram questionados aspectos relativos à universidade pública. De acordo com os oficinantes, o trabalho teve adesão de cerca de 120 pessoas de diversas nacionalidades, extrapolando o horário previsto para seu término. Grande parte das discussões, que abarcaram temas como a defesa da universidade pública gratuita, de qualidade e contra a privatização, tiveram início durante a greve dos docentes e funcionários de universidades públicas, em 2000. Os trabalhos, que foram aprofundados durante o ano passado, visam articular camadas da população, numa reunião de idéias e forças para um processo de debate, no qual há um apelo para o papel político da universidade.

O estudante de Jornalismo da Unesp - Bauru, Marcelo Spaolonse, destaca a importância da diversidade no encontro, representada por pessoas de diferentes países e ideologias. Mas faz ressalvas. Houve manifestações isoladas, mas não conjuntas. Ficou um pouco fragmentado. Teve vários documentos, mas não teve um único documento, coloca.

Spaolonse ainda questiona determinado posicionamento do Fórum. Não sei até que ponto representou um contraponto ao imperialismo norte-americano. Em alguns momentos, o Fórum acabou reproduzindo a lógica capitalista. Ficou concentrado nas mãos de poucos, da classe média.

A vereadora Majô não nega a importância política que o Fórum pode representar nas próximas eleições presidenciais. Quanto a Lula, pondera. Não é só a presença dele que pode interferir, de forma direta e decisiva, nas eleições presidenciais. Temos que dar um basta às regras impostas de fora para dentro. O Lula, neste momento, é uma pessoa que representa esse basta, afirma.

Para muitos participantes, a presença de partidos de esquerda não comprometeu o principal objetivo do Fórum. É o caso do estudante Spaolonse. O PT se utilizou, de alguma forma, do Fórum. Mas não se resumiu a isso, interpreta.

O presidente Fernando Henrique Cardoso, ainda que não tenha participado do encontro, motivou depoimentos de protesto por seu posicionamento contra os fóruns realizados em Porto Alegre e Davos. Nem Davos, nem Porto Alegre, mas ele submete-se a Davos. Quem disse que ele faz uma política independente? Alguém ele está seguindo. E, com certeza, é Davos, porque Davos é a economia, é o consenso de Washington, expõe Majô.

Ainda que não haja conclusões acabadas e avaliações prontas, as impressões, nesse primeiro momento, são boas. O Fórum de Porto Alegre me passou uma unidade e uma diversidade muito grande. Há um ponto comum que une a todos, que é a resistência e o enfrentamento ao neoliberalismo. A dimensão da diversidade está na discussão de problemas diversos, com estratégias distintas, disse Meneguello.

Quanto a Bauru, foi bem representada na opinião dos participantes, como Majô. Bauru foi bastante contemplada em participação. Encontrei sindicalistas e uma grande caravana de professores e alunos da Unesp. Agora, é reunirmos novamente para discutir de que forma nós poderemos contribuir com o nosso município; verificar de que forma podemos aplicar isso aqui.

Spaolonse concorda com a vereadora quanto à representatividade da cidade. Bauru foi bem representada porque o grupo estava a todo momento refletindo sobre a sua participação.

O professor Meneguello faz uma pequena ressalva. O grupo foi bem representado e consciente. Mas eu acho que muitos outros setores de Bauru poderiam estar lá.

Ainda assim, as expectativas para a cidade e para o mundo são das melhores. Isso tem que ser repetido, multiplicado. Está claro que essa idéia tem que crescer. É preciso contagiar as pessoas de que um mundo novo é possível, finaliza Clodoaldo.

Propostas de prefeitos

Em um dos debates do Fórum Social Mundial, 250 prefeitos e representantes de municípios brasileiros e de cidades da Argentina, Espanha, França, Itália, Portugal, São Tomé e Príncipe, Suíça e Uruguai apresentaram, além de um panorama dos problemas de suas localidades, propostas de programas destinados a valorizar a cidadania e reduzir os índices de exclusão social.

Elas decorrem do fato de estar a cargo do município determinadas providências como a criação de vagas nas escolas e a melhora dos postos de saúde.

A seguir, um resumo das propostas apresentadas para os municípios:

- Criação, nos espaços públicos surgidos com a urbanização, de condições para o exercício da cidadania da população menos integrada socialmente.

- Combate à crise da moradia, à precariedade dos serviços urbanos, à pobreza e à exclusão social por meio da redistribuição dos recursos públicos de forma que as cidades possam oferecer a infra-estrutura e serviços necessários à população.

- Promoção de políticas sociais visando à proteção dos direitos humanos.

- Desenvolvimento de programas para geração de empregos.

- Construção de redes cidadãs no mundo que permitam a intervenção das cidades em programas de cooperação descentralizada e solidária.

- Promoção de políticas agrícolas e agrárias para proporcionar o desenvolvimento sustentável das cidades.

- Fortalecimento de alianças e colaborações entre cidades para promover o reconhecimento do direito das cidades e de seus governos em atuar na política internacional.

- Defesa da voz própria para as cidades em organismos internacionais.

- Colaboração com organizações não-governamentais para reforçar iniciativas internacionais que visem a garantir os direitos de cidadania.

- Promoção de ações públicas e defesa da justiça social a partir das cidades para alcançar um desenvolvimento econômico nacional sem submissões e dependências unilaterais. Discussão da criação de uma taxa sobre as transações financeiras internacionais cujos recursos serviriam para combater a pobreza e a exclusão social.