Aparecida Turolo Garcia, a irmã Jacinta, é uma das mais importantes religiosas da cidade. Natural de São Paulo, criada em Lins e há 13 anos em Bauru (fora as curtas estadas anteriores), ela é reitora da Universidade do Sagrado do Coração (USC), uma instituição que vem crescendo em todos os aspectos a cada ano e se tornando um verdadeiro orgulho para a comunidade. Encontrando um espaço na sua apertada agenda de compromissos, irmã Jacinta falou ao JC sobre sua história, a USC e a importância da vocação para os jovens que aspiram a difícil e gratificante vida religiosa.
Jornal da Cidade - Quando a senhora optou pela vida religiosa?Irmã Jacinta Turolo Garcia - Eu tinha 15 anos e estava no primeiro normal no Colégio Salesiano, em Lins. Nessa época, fui participar da celebração de votos perpétuos de uma irmã salesiana, era dia 5 de agosto, o dia de Nossa Senhora das Neves e dos Instituto das Salesianas. Assisti à missa e fiquei com vontade de entrar para a vida religiosa. Eu já tinha o costume de conversar com as irmãs que trabalhavam na Santa Casa de Lins, que eram as irmãs que são da minha congregação, hoje. Elas davam catequese e eu as ajudava. Um dia, fui falar com a irmã na Santa Casa dizendo que queria ser irmã e ela me recomendou estudar mais. Foi assim que começou. Com 15 anos eu já sabia o que queria para mim, também já dava aula de religião nessa época. Mesmo assim, quando eu disse que queria ser freira ninguém acreditou muito.
JC - A sua família resistiu?Irmã Jacinta - No começo não, depois sim. Quando tinha 15 anos disseram que era para que terminar o colegial primeiro, depois aos 18, depois que terminei, minha mãe queria que eu fizesse faculdade. Ela não queria deixar mais eu entrar. No colégio também as irmãs não queriam que eu entrasse para a outra congregação e fosse estudar em São Paulo, com as irmãs da Santa Casa. Elas fizeram bastante esforço para eu fazer a faculdade lá antes de entrar. Mas eu fui persistente. Na verdade elas não acreditavam que eu fosse ficar. Eu era muito mandona, participativa, fazia parte do movimento estudantil, que em Lins era muito forte. Eu era bem xereta em tudo o que não era normal para uma freira, por isso elas achavam que eu iria e não ficaria. Minha mãe acabou deixando, mas acreditando que eu não fosse de verdade. Fui para o postulado em São Paulo em janeiro de 66, todo mundo acreditava que em um mês eu estaria de volta. Meu pai ia todo mês me visitar para ver se eu voltava. Quando foi em abril ele falou para a madre mestra que todo mês ia lá e chorava querendo que eu voltasse e que naquele momento tinha visto que eu estava feliz e por isso ele não iria mais voltar. O que ninguém esperava aconteceu. Não voltei mais.
Fiquei em São Paulo no fim da década de 60, de 66 a 68. Nem sei como fiquei lá sem saber nada sobre toda a movimentação dos estudantes que acontecia. Antes não era como hoje, a gente vivia estudando, rezando, se preparando, tudo dentro do colégio, sem contato com o exterior, especialmente nos dois primeiros anos.
JC - Hoje em dia é a mesma coisa?Irmã Jacinta - Não, hoje as meninas entram, fazem experiências. Antes você entrava para valer. Eu entrei com consciência, já sabia o que queria. Em Lins eu trabalhava com projetos sociais, alfabetização de alunos e eu entrei para fazer isso. Hoje eu entendo que a vida religiosa é uma consagração a Deus e que em qualquer serviço a gente pode ser chamado, mas quando eu entrei, queria me dedicar às crianças, aos órfãos, aos pobres. Eu decidi entrar para essa congregação e não para a outra por um fato que aconteceu em Bauru. Quando tinha 15 anos, nós viemos com um grupo do colégio para Bauru a convite do deputado Nicola Avalone que nos deu a viagem de presente de formatura da 8ª série. Ele havia sido nosso paraninfo. Fomos ao Country Clube, à ITE, às Lojas Americanas, à Fafil. De todos os lugares gostei muito da ITE, muito mais do que a Fafil. Mas sobrou um tempo nessa viagem e fomos ao Patronato Anita Costa, onde hoje é a Creche Madre Clélia. Fomos a esse educandário e fiquei muito impressionada, as crianças cantavam para as pessoas que visitavam quase que como pedindo esmola, fiquei muito triste. No fim da visita fui agradecer e perguntei se a gente poderia colaborar com o educandário, imaginando que ela iria falar sobre algo material. Ela olhou para mim e disse que o que precisava mesmo era de jovens que pudessem se dedicar. Desse dia em diante voltei para casa certa de que queria entrar para essa congregação para trabalhar com essas crianças. No final do meu noviciado eu escrevi para a madre mestra explicando que queria dar aula para essas crianças. Eu já havia lecionado antes, tinha a minha escola na Zona Rural, porque tinha ido muito bem no normal. A madre me chamou e disse que estavam abrindo um colégio em Brasília, achei que era longe de tudo, mas como fiz voto de obediência, fui.
JC - Quando voltou? Irmã Jacinta - Só voltei em 1973, para o Colégio São José. Depois, voltei para São Paulo, morei em Roma, voltei para o Brasil, fui para Roma de novo, etc. Mas sempre trabalhei com as educandas quando pude. Hoje elas não estão mais aqui, estão em Adamantina, mas muitas delas têm trabalhado com a gente aqui na USC ou em Bauru.
JC - Desde quando a senhora está aqui em Bauru, depois de todas essas viagens?Irmã Jacinta - Estou desde 1987. Voltei de Roma em 85, terminei a tese de doutorado e voltei para defendê-la. Em 87 voltei para cá.
JC - A senhora estudou o quê?Irmã Jacinta - Fiz Filosofia, mas não a que existe hoje nos cursos, algo equivalente à filosofia dos padres hoje, a filosofia do seminário. Fiz também Letras, começando em São Paulo e terminando aqui e depois fiz Pedagogia aqui. A minha tese de mestrado e doutorado fiz em Roma e validei os trabalhos que fiz na Itália na PUC do Rio de Janeiro, então meu diploma é de lá.
JC - E a reitoria da USC?Irmã Jacinta - Estou na reitoria desde 1988. Antes, de 1980 a 83, dei aula aqui, de Filosofia, Latim, Literatura Latina. Quando voltei definitivamente de Roma, vim para cá como vice-reitora, em 88 assumi o cargo e estou até hoje, em 2000 fui reconfirmada no posto para mais quatro anos, mas para uma irmã nunca há nada garantido. Se precisarem de mim em Moçambique, eu vou. As irmãs que estão lá hoje passaram todas por aqui. A gente têm de servir onde é mais necessário. É claro que para a universidade é preciso de uma titulação diferente e ainda não existem muita irmãs que terminaram o mestrado e o doutorado. Mas elas estão estudando.
JC - A procura pela vida religiosa ainda é muito grande?Irmã Jacinta - É. Por incrível que pareça, na nossa congregação nunca diminuiu. O que agora a gente percebe é que de uns anos para cá entram muitas, mas saem muitas também, porque o processo até os votos perpétuos é muito longo. Porque nunca é uma coisa obrigatória. A pessoa precisa estar feliz. A gente percebe que ela tem vocação mesmo quando vê que ela está feliz.
JC - Por isso desse período até os votos perpétuos ser tão longo?Irmã Jacinta - É, serve para a menina saber se é o que ela quer mesmo e para a congregação também poder observá-la e ver se ela tem o dom. O processo todo leva quase dez anos, mas hoje existe mais formação, mais ânimo. Elas têm atuação prática, estudam bastante, mudam bastante de lugar para fazer experiência. Hoje em dia, quase não se convidam os jovens, se houver um apelo vocacional, o número pode ser maior. Entre os rapazes têm havido um grande número vocações de sacerdotais, entre as moças, apenas em algumas congregações. O que a gente percebe é que não são muitos os que realmente têm vocação e é preciso ter. Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos. A pessoa que entra faz uma opção que parece fácil, mas é difícil.
JC - Por que?Irmã Jacinta - A gente tem de fazer voto de pobreza, de obediência, de castidade. Esse último as pessoas até entendem, é uma renúncia a constituir uma nova família para estar mais livre para ter um coração possível de amar uma causa e de trabalhar por ela. Levar o coração de Jesus. O voto de pobreza às vezes é difícil de entender. Dizem: elas moram em um lugar tão chique, têm tudo. A gente mora, mas não vê. Não temos tempo para aproveitar e sabemos que tudo o que está a nossa volta não é nosso. Hoje eu estou aqui, amanhã posso ser transferida, pego minha malinha e vou sem levar nada. A irmã que construiu tudo aqui, a irmã Saula, está na África, em Chimoio. Nada aqui é meu, nenhuma de nós tem uma morada definitiva. A minha função é não deixar a coisa cair, porque depois de mim virão outras, principalmente uma universidade que é para todos, não para a gente. Nós não temos salário aqui na USC, é por isso que tudo é bonito e organizado. Se tivesse que pagar para cada uma o salário que estariam recebendo em outra universidade...
JC - As pessoas reclamam do valor das prestações da USC...Irmã Jacinta - As pessoas reclamam, mas é caro manter uma universidade. É preciso ver o que se faz aqui. Se o governo desse uma parte para podermos ter o equipamento que temos ou para pagarmos os professores o que a gente quer pagar, ficaria mais barato, mais até do que fazer uma nova universidade, mas não é assim. O que a gente pode fazer honestamente, sem gastar muito, é criar mais coisas. Se a gente, não tivesse esse sistema de trabalho, não poderíamos estar ampliando hoje os estúdios para o curso de Jornalismo e para a TV da USC.
JC - Como funciona esse voto de pobreza?Irmã Jacinta - Se eu tiver que gastar alguma coisa, preciso pedir licença e dizer para que vou usar o dinheiro. Não tenho nada. Eu gosto de ter livros, mas não compro para mim, compro para a universidade. Se for transferida não vou levar meus livros. Sempre tenho que pedir licença para gastar e não pode ser muito, existe um controle. Geralmente, gastamos com a comunidade das irmãs em alimentação, viagens e cursos. Tudo pensando no comum. Se precisarmos renunciar a alguma coisa, renunciamos. Quando esses primeiros blocos da USC foram erguidos as irmãs fizeram um sacrifício muito grande. Às vezes até de comida para continuar a construção. Naquela época, não havia empréstimo nos bancos para a gente. Cada comunidade vive de acordo com a sua estrutura.
JC - E a obediência?Irmã Jacinta - Mais difícil do que a pobreza é a obediência. Você querer algumas coisas e não poder porque para o todo não interessa. Às vezes você acha que é melhor tomar uma decisão e as outras pessoas, não. É preciso respeitar a decisão do todo. Conseguir respeitar os três votos não é fácil por essas coisas. Temos umas 20 moças entrando por ano na congregação. Daqui a dez anos, na hora de fazer os votos perpétuos, o grupo vai ser de mais ou menos de oito moças. As que não ficam, pelo menos passaram por um caminho e o que aprendem foi bom, ela tem liberdade de sair quando quiser.
JC - Muito se fala sobre o celibato para os padres, porque quase não se fala sobre isso entre as freiras? A senhora acha fundamental mesmo?Irmã Jacinta - É fundamental sim por uma questão de manter o coração livre mesmo. Quando o jovem decide ser religioso, deve escolher os três votos e isso significa deixar de lado a idéia de se casar, isso serve para os homens e as mulheres, é por isso que é preciso ter vocação.
JC - A tentação que sofrem os padres é maior do que a das freiras? É comum ouvir falar sobre padres que não resistiram ao assédio feminino. Irmã Jacinta - A gente vê os padres que vêm estudar aqui sofrendo isso, e não pense que as irmãs novinhas também não são cantadas. O que acontece é que a formação no convento é mais guardada. Mas isso não importa, porque se as pessoas têm vocação elas enfrentam isso, passam por cima do assédio. Agora, toda vida vai haver gente atrapalhando, dando em cima. Mas a vocação é um dom espiritual sobrenatural, quem a tem resiste a tudo. Quem não tem vocação, não agüenta. Quando trabalhava com vocações via moças que no domingo ficavam aflitas, olhando pela janela porque antes era o dia em que elas saíam para passear. Não tinham vocação, as que tinham estavam tranqüilas, felizes por estarem ali. Quem está feliz é sereno, quem não está fica agitada, está sempre com algum problema. Um dos sinais da vocação é estar realizada humanamente. As pessoas que não tem vocação, a gente encaminha para sair, mas sem mágoas ou traumas, e sim para o bem delas. No final, elas sempre vão ter aprendido algo de bom aqui.
JC - Se algum momento de sua vida religiosa a pessoa decide sair, ela pode?Irmã Jacinta - Sim, ela será ajudada a sair da melhor maneira possível. Nunca deixamos ninguém aqui contra a vontade. Ela não pode ser forçada a nada. É claro que pode ser uma depressão passageira ou uma tentação, mas aí a comunidade vai ajudá-la em tudo. A gente vive muito bem em comunidade e nenhuma congregação deve ter um peso de uma pessoa que não está feliz, ela é ajudada a sair.
JC - Ou seja, quem permanece é porque realmente têm uma missão divina?Irmã Jacinta - Ninguém pode dizer que é melhor que outra pessoa que desistiu ou que está livre de alguma coisa, alguma tentação. Nós apenas devemos estar conscientes de que, naquele momento, estamos respondendo ao plano de Deus sobre nós.