08 de julho de 2026
Geral

Solução definitiva nunca saiu do papel

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 5 min

Inércia das administrações municipais aliada à falta de vontade política vêm agravando a situação a cada ano

A história se repete todo ano, como se fosse um filme que já foi visto muitas e muitas vezes. Nos últimos anos, a população de Bauru tem que contar com um forte aliado para se proteger das chuvas torrenciais de verão: a sorte. E mais nada. Não há projetos a longo prazo e muito menos vontade política para se resolver o problema das enchentes, que a cada ano engrossam a lista de vítimas fatais. A desculpa é sempre a mesma: falta verba.

É perfeitamente compreensível que obras de porte têm custo elevado e por isso mesmo demandam tempo para ficar prontas. O problema é que nenhuma administração dos últimos 20 anos decidiu planejar uma solução, a longo prazo, para pôr fim às catástrofes registradas anualmente nas avenidas Nações Unidas e Alfredo Maia, entre dezenas de outras vias esparramadas pela cidade e que são vítimas das enchentes.

Provavelmente, se algum prefeito do passado tivesse iniciado uma série de obras corretivas, hoje a situação seria outra. Mas, esse tipo de benfeitoria fica enterrado, some aos olhos da população e, por esse motivo, não rende dividendos políticos aos administradores.

Aniversário

Em abril próximo, a Delegacia Regional de Bauru do Sindicato dos Engenheiros Profissionais no Estado de São Paulo (Seesp) não terá muito o que comemorar no quinto aniversário do seminário Enchentes: Bauru em busca de soluções, promovido pela entidade, em 1996, com o objetivo de apresentar soluções para o grave problema.

Passaram-se cinco anos e nenhuma das propostas apresentadas e discutidas no evento foram aplicadas pelas administrações municipais que se seguiram. O vice-presidente regional do Seesp, engenheiro Marcos Vanderlei Ferreira, lembrou ontem que, naquela oportunidade, foram discutidas duas sugestões para pôr fim aos problemas das enchentes na cidade, principalmente na região da avenida Nações Unidas.

Piscinão

A construção de um piscinão na altura do anfiteatro Vitória Régia foi uma das propostas apresentadas e defendida no evento pelo geólogo paulistano Fernando Facciola Kertzman. Ele propôs que a administração municipal, com o apoio dos segmentos técnicos representados na cidade, pensasse globalmente os rios e as bacias da zona urbana, para estabelecer um plano de obras a médio e longo prazos.

Outra proposta: a criação de um efetivo sistema de monitoramento das fortes chuvas, através da Defesa Civil e do Radar do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (Ipmet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Entre as propostas corretivas, Kertzman sugeriu a aprovação de leis rígidas para normatizar a ocupação do solo. Também propôs a criação de uma carta geotécnica da cidade, para balizar obras, e um plano de macrodrenagem.

Ocupação do solo

O geólogo Nariaqui Cavaguti, que também participou do seminário realizado há cinco anos, provou, com números e levantamentos, que as enchentes têm se tornado muito mais freqüentes, notadamente a partir dos anos 90, sem que, necessariamente, a incidência de chuvas tenha aumentado. Isso demonstra que o crescimento da cidade se deu sem a preocupação com a ocupação do solo urbano, fazendo com que aumentasse sensivelmente o drama dos alagamentos e enchentes.

Essa constatação pôde ser verificada após a construção do núcleo habitacional Joaquim Guilherme de Oliveira, o Joaquim Pernambuco, e o residencial Sabiás. Os dois empreendimentos estão localizados na nascente do córrego Água do Sobrado, cujo leito está assoreado e provoca as enchentes na baixada da avenida Alfredo Maia, onde, anteontem à noite, uma mulher desapareceu em suas águas.

Ainda na época da realização do seminário, Cavaguti fez severas críticas em relação à atual situação enfrentada por Bauru: os seguidos erros técnicos de dimensionamento de galerias na construção de grandes avenidas, como a Nações Unidas, por exemplo. O geólogo, que era professor da Unesp, comentou que um trabalho feito por ele e seus alunos mostrou que 82% da bacia (rio mais área adjacente) da avenida Nações Unidas estão totalmente impermeabilizados, ou seja, cobertos por asfalto e calçamentos.

A sugestão de construção de um piscinão não ficou restrito, apenas, à avenida Nações Unidas. O vice-presidente do Seesp lembrou, ainda, que também foi proposto um piscinão na nascente do córrego Água da Forquilha, nas proximidades do Trevo da Eni. Segundo ele, uma obra de baixíssimo custo.

A bacia do córrego, que é um dos formadores do rio Bauru, capta água desde a região da Unesp, passando pelos condomínios residenciais Samambaia, Paineiras e Jardim América. A construção de cisternas em grandes áreas impermeabilizadas por prédios (como supermercados, escolas, prédios públicos) foi outra proposta apresentada na época.

Essas cisternas abrigariam as águas colhidas pelas calhas e depois seriam reutilizadas para limpeza ou, se preferirem, liberadas aos poucos para as galerias.

Ferreira afirma que a administração municipal também pode utilizar o know-how da Faculdade de Engenharia da Unesp, que oferece estudos e conhecimento técnico gratuito.

Nilson diz que prevenção evitou estragos maiores

O prefeito Nilson Costa (PPS) afirmou ontem que o trabalho de prevenção que a Prefeitura vem desempenhando nos últimos meses nas áreas de enchentes evitou estragos de maiores proporções. Se essa tromba dágua tivesse caído sem as prevenções, a situação estaria pior, acredita.

Segundo ele, uma draga trabalha há 18 meses no desassoreamento do leito do córrego Água do Sobrado, nas imediações da avenida Alfredo Maia. O prefeito acha que administrações passadas não puderam fazer muito para evitar a atual situação. São obras caras. E fiscalizar atentados ao meio ambiente é comparar Bauru a um país de primeiro mundo, avalia.

Nilson acredita que a natureza quando se manifesta intempestivamente, não tem quem a segure. Vemos países como a Espanha, Alemanha, França, Inglaterra também sofrendo com enchentes.

Ele diz que a Prefeitura não abandonou os estudos para a construção de um piscinão na avenida Nações Unidas. Mas isso demanda verba e tempo. Os estudos estão avançados, avisa.