Para uns é como um esporte. Alguns procuram vingança. Outros, amor, atenção, fama. Há aqueles que querem superar os complexos e se sentirem poderosos e atraentes por alguns minutos. Outros o fazem para sair fora do casamento, para esquentá-lo ou para esquecer com quem estão casados. Alguns se sentem culpados, mas gostam. Outros não sentem culpa e gostam mais ainda. Existem ainda os que têm necessidade de provar que podem ter um mulher. As justificativas para a infidelidade masculina podem ser muitas, mas nenhuma é maior do que o simples prazer, de acordo com cientistas da psicobiologia evolutiva. Mais antiga do que se pode mensurar (Moisés já determinava que o homem não deveria cobiçar a mulher do próximo), a infidelidade masculina tem sido amparada nos últimos anos por várias teses e explicações científicas que a colocam como um comportamento "natural", cuja informação está nos genes masculinos ao invés de mera "falta de vergonha na cara" dos homens.
"Trair é um imperativo genético", afirma a antropóloga americana Helen Fischer, autora do livro "Anatomia do Amor". O professor da Universidade de São Paulo Aílton Amélio Silva, que estuda o comportamento humano, em especial o amor, confirma: a infidelidade é a necessidade humana de procriar. Em entrevista à revista Veja, o professor foi mais fundo e afirmou que a poligamia, ou seja, um homem com várias mulheres, do ponto de vista biológico, seria o ideal para a espécie humana.
Segundo os cálculos do psicólogo americano Michael Corey, autor do livro "Adultério: Por Que os Homens Traem", sete em cada 10 homens no mundo ocidental praticam (ou já praticaram), pelo menos uma vez, o pulo de cerca. A constatação se confirma em Bauru, onde 13 de 15 homens entre 17 e 63 anos, entrevistados pelo Caderno Ser, nas ruas e por telefone, afirmaram ter, algum momento da sua vida, ter traído a namorada ou esposa com outra mulher. "A carne é fraca", justificou o promotor de vendas Daniel Domiciano, 25 anos, que disse ter pulado a cerca no passado. Para o manobrista Roger Planelli de Oliveira, 17 anos, traição é uma coisa que "todo mundo faz", homem e mulher. "Se a esposa não estiver dando um trato no marido, é lógico que ele vai procurar outra. O mesmo acontece se ele não estiver dando um trato na esposa", acredita.
Entre os que nunca traíram está o estudante João Carlos Novelli, 18 anos. Segundo ele, traição não é recomendável porque fere a confiança da pessoa. "Você não pode falhar com uma pessoa que gosta de você", diz.
Genes
Não pense, porém, que as desculpas dos "infiéis" são "esfarrapadas". De acordo com o professor de fisiologia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, Jared Diamond, na região montanhesa da Nova Guiné, onde ele desenvolve estudos, a poligamia é tolerada e os chefes podem ter até meia dúzia de esposas, mas mesmo esses chefes polígamos enganam as seis mulheres e cometem adultério. Quando lhes perguntam o motivo, eles dão a mesma resposta que os homens da sociedade ocidental: "que o sexo sempre com as mesmas seis mulheres é chato".
Como podem homens que vivem no meio da selva no Pacífico dar a mesma "explicação" para o adultério do que qualquer homem ocidental. A resposta está nos genes humanos. Segundo Diamond, que escreveu o livro "Por Que o Sexo É Divertido? A Evolução da Sexualidade Humana", lançado no final do ano no Brasil, as pessoas carregam a propensão a ignorar os riscos das relações extraconjugais ou da promiscuidade, em seus genes. De acordo com o professor, por mais que a vida se torne mais rica tecnologicamente e as sociedades mudem com o passar dos anos, as pessoas tendem a se comportar no campo sexual com base nas experiências evolutivas acumuladas pela espécie humana no decorrer de sua existência no planeta. Diamond sustenta que, por isso, mesmo pessoas inteligentes e intelectualmente preparadas acabam fazendo besteiras aparentemente inexplicáveis como se fossem homens das cavernas.
O autor de "A paixão perigosa", David Buss, explica que, no passado, quanto mais mulheres tinha o homem, maiores eram suas chances de garantir sua linhagem genética, ou seja, continuar a espécie. Esse instinto de sobrevivência é que faz com que grande parte dos homens até hoje se interessem por fazer sexo com mais de uma mulher.
Diferenças entre sexos
Segundo Jared Diamond, os homens tendem a se interessar mais por sexo, encontros sexuais casuais e pela variedade de parceiras, além de se queixarem com mais freqüência do tédio sexual com as companheiras. As mulheres que buscam o sexo extraconjugal, para o professor, muito provavelmente estão procurando uma relação de longo prazo e não uma aventura. A diferença entre o comportamento dos dois sexos está na base evolutiva de ambos. As mulheres (e fêmeas em geral) fazem um investimento inevitável muito maior no seu embrião fertilizado do que os homens. Num casal que acaba de ter uma relação sexual que gera uma fertilização, por exemplo, a mulher está comprometida pelos próximos 9 meses de gravidez, sexo com outro homem não vai lhe render um bebê. Ao mesmo tempo, o homem que acabou de fertilizar a garota em questão pode sair e fazer o mesmo com qualquer outra. Conseqüentemente, os homens podem gerar muito mais filhos que as mulheres, e múltiplas parceiras ou acessos de sexo extraconjugal são geneticamente mais lucrativos para o homem. A mulher recordista em filhos, para se ter uma idéia, é uma russa do século XIX, que teve 69 filhos porque tinha capacidade para engravidar de trigêmeos. No caso do homem, os números são bem maiores. O imperador marroquino Ismail, o Sanguinário, teve 888 filhos registrados (isso, fora as filhas). Nessa corrida para se propagar os genes e continuar a espécie, os homens podem até dar-se ao luxo de serem menos exigentes pois vão "espalhar" seu sêmem muito mais vezes do que a mulher vai ser fecundar. Em outras palavras, podem dormir com "qualquer uma", enquanto a mulher fica escolhendo o seu candidato a príncipe encantado.
Apesar das explicações científicas, Jared Diamond afirma que nenhum homem deve exagerar no cinismo e colocar a culpa da sua pulada de cerca na herança animal da humanidade. "Ainda resta às pessoas a consciência e a capacidade de falar mais alto do que seus genes e instintos", explica.