08 de julho de 2026
Geral

Avacalhemos a vaca louca

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Era uma vez um Mountie, como são carinhosamente apelidados os integrantes da Real Polícia Montada do Canadá. Tornou-se famoso no mundo inteiro pelas suas aparições em filmes de ação de Hollywood, ambientados nas florestas e rios que um dia foram o hábitat de índios, castores e ursos. A Disney Productions comprou, da própria Polícia Montada, os direitos de exploração da figura do policial com seu casaco vermelho e chapéu de abas largas. Houve comoção no Canadá. De nada adiantaram as explicações de que o dinheiro dos royalties com a venda das camisetas, capas de caderno, chaveiros e todas as quinquilharias vendidas como souvenir com a figura do policial, seria destinado às obras assistenciais mantidas pela própria corporação. A figura mítica do policial montado em seu cavalo, jamais poderia ser objeto de uma disneyficação.

Essa história me veio à lembrança com a crise da vaca louca provocada pelo Canadá, como vingancinha contra o Brasil, por ter atrapalhado negócios da Bombardier, justamente a empresa que emprega o genro do primeiro-ministro Jean Chretien.

Os países de economia adiantada querem impor ao mundo, o livre comércio global, mas somente em benefício próprio. O Canadá, que tem acesso a crédito pagando a metade dos juros que o Brasil é obrigado a sustentar, por causa da taxa de risco, faz concessões à sua indústria e agricultura, muito maiores que as nossas. O açúcar de cana não consegue entrar em nenhum mercado do Hemisfério Norte, porque a cultura da beterraba é altamente subsidiada para produzir um adoçante caro e ruim.

A Canbrás, que explora TV a Cabo no ABC paulista e outras cidades, reclama a desregulamentação da teledifusão no Brasil, a fim de permitir uma participação acionária maior de grupos estrangeiros, hoje limitada a 49%. No Canadá, onde as ações da Canbrás são negociadas, essa participação estrangeira é limitada a 25%. Outras barreiras também são impostas para proteção da identidade nacional, como limite a exibição de filmes e de outros enlatados da indústria cultural alienígena. Se fazemos o mesmo aqui, somos chamados de xenófobos.

Nos Estados Unidos, o aço, os sapatos e o suco de laranja do Brasil são sobretaxados como forma de proteção dos interesses dos industriais de lá. No entanto, Clinton jogou pesado para impor sua vontade de antecipar para 2003 a vigência da Área de Livre Comércio Americano (ALCA). Quer o Brasil escancarado, com seu apetitoso mercado de milhões de consumidores, mas sem prometer eliminar as barreiras comerciais do lado de lá.

Nem bem assumiu, o presidente Bush fala em adotar a política do big stick criada por Roosevelt durante a Segunda Guerra Mundial, para convencer os governos da sua área de influência a aderir aos Estados Unidos. A neo-política do porrete quer que todos digam amém ao processo de mundialização de mão única.

A Organização Mundial do Comércio (OMC), criada para exercer as funções de uma espécie de tribunal para julgar as querelas comerciais, na verdade trabalha em função dos mais ricos. Só enxerga os subsídios brasileiros. As equipes do FMI que vêm ao Brasil para a auditoria da nossa política econômica, quando voltam para Washington reúnem-se primeiro com as autoridades norte-americanas, e só depois com o comitê representativo de todas as nações participantes do Fundo Monetário Internacional, ao qual foi reservado o papel de avaliar o monitoramento das contas.

O presidente FHC deu uma de macho depois da gripe, ao exigir uma solução em 15 dias. Não disse o que pretende fazer terminado o prazo. O ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, é executivo da Klabin, principal distribuidor brasileiro do papel de imprensa canadense. Confio muito mais no espírito do povo brasileiro para acabar com a pendenga. Foi ótima a piada da vaca Bombardeira, levada de presente para o embaixador canadense. As fotos tiveram destaque em todos os jornais da Europa e do próprio Canadá. No Carnaval, serão incontáveis os foliões fantasiados de vache folle, como dizem os francofônios. O governo deveria encomendar urgente um carro alegórico ao Joãosinho Trinta. A repercussão mundial da gozação bastaria para avacalhar de vez com essa guerrinha. Como disse o canadense McLuhan, nada corrói mais, na galáxia de Gutenberg, do que a crítica bem-humorada.