07 de julho de 2026
Geral

Jovens abusam da cirurgia plástica

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

A cirurgia para redução de mamas é uma das mais procuradas; os especialistas advertem sobre as limitações

A cirurgia plástica é um procedimento cada vez mais procurado por adolescentes. No entanto, nem sempre é recomendada a jovens que apresentam, simplesmente, queixas relacionadas à estética, já que envolve riscos muitas vezes desnecessários.

Na opinião da cirurgiã plástica Carla Cardia, o grande problema dos adolescentes, e um dos motivos das freqüentes solicitações por cirurgias plásticas, são as preocupações passageiras. Um problema que ele tem agora, pode não ser mais um problema daqui a dois ou três anos. Ele pode achar que o nariz dele é grande, quando ele não é grande. O adolescente tem a auto-imagem prejudicada pela idade.

A cirurgiã acredita que a alimentação dos dias atuais e a vida sedentária, sem prática de esportes, provoca acúmulo de gordura localizada. Conseqüentemente, adolescentes procurariam cirurgias plásticas, como a lipoaspiração, para remoção da gordura localizada. As garotas procuram o médico cada vez mais cedo. Pacientes com cerca de 16 anos são presença cada vez mais freqüente nos consultórios dos cirurgiões, expõe Carla.

O cirurgião plástico Eudes de Sá acredita que os modelos de beleza pregados nas sociedades atuais são fatores de forte influência para os adolescentes. Cada vez aumenta mais o número de jovens que se interessa por modificações no corpo, porque o mundo está cada vez mais ligado à forma das pessoas e das coisas.

Os especialistas concordam sobre a afirmação de que, ainda que rapazes procurem as cirurgias plásticas, as garotas representam uma demanda muito mais significativa. Entre as cirurgias procuradas pelas adolescentes, aquelas relativas às mamas e à gordura localizada são as mais pedidas. Operação de redução de mamas ou colocação de prótese (silicone), assim como a lipoaspiração, são as mais procuradas pelas adolescentes, afirma Carla.

Entre os rapazes, as cirurgias mais freqüentes são as de ginecomastia (diminuição de mamas, quando elas crescem excessivamente), as correções de orelha de abano e a rinoplastia, que é a cirurgia de nariz.

Um garoto que apresenta mamas semelhante às das mulheres torna-se uma pessoa retraída e não participa de atividades sociais, coloca o cirurgião Eudes de Sá.

O adolescente D.C., de 14 anos, conta que passou por uma cirurgia para reparar as orelhas. Ele tinha apenas 13 anos quando operou. Na escola, me apelidavam de dumbo, de orelhudo, porque eu tinha orelha de abano. Eu não falava nada, mas isso me incomodava. Eu achava que sempre as pessoas estavam olhando para as minhas orelhas. Foi um dos motivos que me levou a querer operar. D.C. conta que sua vida mudou bastante após a cirurgia. Agora, eu me sinto muito melhor. Não tenho mais vergonha.

Vale lembrar que muitas das cirurgias realizadas em adolescentes são reparadoras, ou seja, não apresentam somente causas estéticas. É o caso de cirurgia de ginecomastia, em homens, e determinadas cirurgias para redução de mamas, em mulheres.

Glayce Mara Cortegoso, de 16 anos, recentemente passou por uma cirurgia para redução das mamas. Ela afirma que tinha muitas dores nas costas e problema de postura, que eram agravados pelo peso das mamas. Eu não gostava de tomar sol, de ir à praia, nem de usar blusinhas. Queria ser como as outras pessoas para poder fazer essas coisas sem problemas, conta.

De acordo com a mãe dela, Mara Aparecida Cortegoso, a cirurgia de Glayce foi considerada reparadora, já que comprometia sua saúde. Por esse motivo, o convênio médico teria pago os gastos. Não adiantava comprar roupa nova para ela, nem arrumar o cabelo, porque sempre tinha alguma coisa incomodando-a. Agora, ela mudou completamente. Além disso, as dores nas costas diminuíram e ela melhorou a postura, anima-se Mara.

Outros casos de cirurgias plásticas reparadoras em adolescentes são aquelas provocadas por acidentes, de acordo com o cirurgião Bashir Mussa Gazi. O índice de acidentes de automóvel com jovens é muito maior. O índice de traumas por ferimentos com armas também é muito maior em adolescentes. Acidentes com motocicletas também são freqüentes. Eles comprometem, principalmente, as pernas, a face e os membros superiores, agrava.

Os cirurgiões esclarecem que nem sempre é possível realizar a vontade dos adolescentes que chegam aos seus consultórios. Principalmente em casos de redução de mamas, há a necessidade de avaliar, paralelamente, com médicos de outras especialidades, se a formação do paciente já está completa. Habitualmente, fazemos um estudo em conjunto com um endocrinologista, com o objetivo de observar a idade óssea do paciente. Ou seja, temos que checar se a idade cronológica dele está compatível com a idade óssea. O ginecologista também trabalha paralelamente. Se ele disser que a mulher tem possibilidade de continuar desenvolvendo a mama, a cirurgia está contra-indicada, adverte Gazi.

No entanto, nem sempre os adolescentes aceitam as recomendações do cirurgião. Eu já perdi vários pacientes por não recomendar a cirurgia plástica a pessoas muito novas, em casos em que não há indicação ou quando não vale a pena ganhar uma cicatriz. Às vezes, a pessoa não se conforma e procura outro cirurgião, explica Carla.

Para que um adolescente possa realizar uma cirurgia plástica, ele necessita da autorização dos pais, que devem estar presentes quando o profissional esclarece o que pode ser feito em cada caso e, principalmente, como ficará a cicatriz. Cirurgia plástica não é mágica. Ela deixa cicatriz. Isso tem que ficar muito claro para o adolescente, afirma Gazi.