08 de julho de 2026
Geral

Atitude intempestiva

Miguel Ignatios
| Tempo de leitura: 3 min

Diz a sabedoria popular que, na eterna briga entre o rochedo e o mar, é sempre o marisco que sai perdendo. Essa é a versão menos conhecida de outro provérbio: a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. No caso da intempestiva atitude do governo canadense, suspendendo as importações brasileiras de carne bovina, tudo leva a crer que, na briga entre a Bombardier e a Embraer, o pobre boi acabou pagando o pato.

De outra forma, fica difícil entender o boicote às exportações de carne bovina. Até mesmo os Estados Unidos, sempre muito zelosos em questões que dizem respeito a eventuais risos à saúde pública, classificaram, extra-oficialmente, a atitude canadense de exagerada.

A questão, na verdade, é apenas política. O Canadá precisava de um dado novo para tentar reverter, junto à opinião pública interna, a tendência da guerra comercial entre a Bombardier e a Embraer, atualmente em julgamento, na Organização Mundial do Comércio (OMC). Aproveitou-se do pânico gerado pelo fenômeno conhecido como vaca louca, em toda a Europa, e apelou para o blefe.

A jogada foi ousada porque, na visão dos negociadores canadenses, ela atingiria o Brasil justamente no momento em que nossas exportações de carne bovina estavam em alta, em decorrência da proibição do intercâmbio desse produto entre os países da União Européia.

Como já havia dito, em artigos anteriores, caso as divergências entre a Embraer e a Bombardier não se resolverem de forma satisfatória para ambas as partes, e a questão evoluir para retaliações comerciais bilaterais, as exportações canadenses para cá, basicamente trigo e papel, poderão ser drasticamente reduzidas.

Em outras palavras, na hipótese da ocorrência de retaliações comerciais bilaterais, os canadenses teriam mais a perder do que os brasileiros. É relativamente fácil trocar as fontes fornecedoras desses produtos: trigo argentino e papel sueco, finlandês ou norueguês são as opções disponíveis de imediato.

Daí a necessidade, sempre na visão das autoridades canadenses, de se criar um fato novo para equilibrar o potencial de perdas.

Uma questão adicional, que pode se constituir em precedente perigoso para os países em desenvolvimento, que vivem defendendo a antecipação do cronograma de implantação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), é a obrigatoriedade do que vamos aqui chamar de boicote solidário.

Explico melhor: a atitude tomada pelo Canadá, embora apressada e sem qualquer respaldo na realidade, já que até hoje não se registrou qualquer caso da doença conhecida como vaca louca, no rebanho bovino brasileiro, obrigou os Estados Unidos e o México, parceiros do Canadá, Associação de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, a sigla em inglês), a tomarem a mesma posição.

Imaginemos, por exemplo, o potencial desestabilizador de uma atitude semelhante à do Canadá que vier a ser tomada, no futuro, contra qualquer membro da Alca, que, segundo estimativas, deverá englobar nada menos do que 36 nações soberanas do continente!

É por isso, e também pela diversidade dos estágios das economias nacionais do continente americano, que a criação de uma entidade de tamanha importância, como a Alca, deve ser precedida de meticulosos acordos e de salvaguardas setoriais, de forma que a conta não seja paga, como de costume, pelas nações menos desenvolvidas e mais pobres.

E isso leva tempo. Quando analistas do comércio exterior defendem a imediata criação da Alca, eles só exalta as reais possibilidades de acesso aos ricos mercados americano e canadense, mas subestimam, para dizer o mínimo, os riscos de eventuais perdas em conseqüência de barreiras sanitárias reais ou fictícias.

Mas, voltando ao tema central, vamos aguardar que o bom senso fale mais alto e as exportações de carne bovina brasileira sejam reiniciadas para Canadá, Estados Unidos e México. E que as divergências entre Embraer e Bombardier sejam resolvidas no âmbito da OMC. Afinal, é para isso que servem organizações desse tipo.

Miguel Ignatios é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM). e-mail: presidencia@advbfbm.org.br