07 de julho de 2026
Geral

O universo eceano

(*) Isolina Bresolin Vianna
| Tempo de leitura: 3 min

A professora Isolina Bresolin Vianna publica hoje, no JC Cultura, análise sobre a obra do escritor Eça de Queirós que será apresentada amanhã na Academia Bauruense de Letras

O grande Eça de Queirós retratou em seu livro Os Maias a sociedade lisboeta decadente que era, na época, não só de Lisboa mas de quase toda a Europa que vivia os últimos esplendores do século XVIII, há muito acabado e entrava na decadência dos fins do século XIX, querendo ainda ressuscitar o seu requinte monárquico. Restavam bolsões desses requintes, de bom gosto, de cultura, de honradez, de ética e de rigidez moral, em locais privilegiados como o Ramalhete. Contudo, é ali mesmo, no Ramalhete, apesar de toda a honra e toda a glória, que a decadência vem bater. Essa decadência de moral, de cultura, de bom gosto, vem por meio da ascensão de camadas mais baixas da população, trazida, no caso, pela filha de um novo rico mercador de escravos, isto é, a decadência é também ética e moral. E a condenação só não é total porque a sociedade já então começava a conhecer os valores novos vindos do romantismo, nos quais o coração sobrepujava a razão. É por isso que o poeta romântico, o Alencar, apaixonado platônico pela Maria Monforte, justifica o procedimento totalmente reprovável da sua musa. E o filho dela, com toda a carga de nobreza de sangue e de caráter, acaba também sendo arrastado para a decadência moral, e de forma ainda mais grave, apaixonando-se pela própria irmã. Ele também é levado pelo coração, mas também por desconhecer a origem de sua amada, o que demonstra o predomínio do coração sobre a razão, como preconiza o romantismo.

Eça, bem colocado na perspectiva do tempo, pôde se posicionar e criar tipos característicos do tempo e do lugar, mostrando o ambiente eceano que é o próprio retrato, de corpo inteiro, da Lisboa de então, como síntese de todas as Lisboas ao longo da Europa. Os Gouvarinhos eram como todos os outros nobres decadentes que só se mantinham no status de nobres graças a conchavos econômicos e familiares e a priva privada deles era muito diferente daquela que aparentavam socialmente. Entre os ricos mas não nobres, embora aparentemente éticos, temos como exemplo os Cohen, cuja Raquel era a musa do mais pândego dos rapazes, o João da Ega, embora fosse a virtuosa esposa do banqueiro Cohen. Tudo é falso numa sociedade que vive de aparências e sem uma estrutura moral que justifique procedimentos mais nobres. Não é como em Ilustre Casa de Ramires, livro no qual o Fidalgo da Torre, Gonçalo Mendes Ramires, sente a carga de toda a sua genealogia a apoiá-lo e ao mesmo tempo a exigir dele que esteja à altura dos seus ancestrais.

Em A Relíquia, que os novelistas da Globo resolveram misturar com Os Maias, o universo eceano é mais perverso e exagera na sua crítica à beatice da tia Patrocínio e na cafajestice do Teodorico. Não é dos que mais façam honra a tão ilustre autor. Há uma certa maldade na apresentação dos padres ambiciosos e interesseiros que cercam Dona Patrocínio, resultante do anti-clericalismo das elites intelectuais portuguesas, desde os tempos de Pombal.

O mau caratismo de Teodorico também não deveria ser tão endêmico que contagiasse a todos os rapazes que viviam naquele tempo, naquele lugar, a ponto de não haver quem se salvasse de ser tão reles, mentiroso e aproveitador da beatice de uma pobre e solitária tia rica e ignorante.

Concluindo, gostaríamos de convidar as pessoas para relerem o seu Eça e assim poderão constatar que o universo eceano está muito bem recriado na novela Os Maias, da Globo, quanto aos ambientes, trajes, tipos humanos bem caracterizados, embora fiquem a dever para o autor original, na apresentação e confecção da trama, do enredo.

Enfim compreende-se, o verdadeiro criador do romance é nada mais, nada menos que o Divino Eça.

(*) Isolina Bresolin Vianna, doutora em Literatura Portuguesa, ocupa a cadeira n.º 12 da Academia Bauruense de Letras.