07 de julho de 2026
Geral

O consumidor e a utopia do possível

(*) Silvio Orti
| Tempo de leitura: 3 min

O mercado mundial sinaliza incertezas. De um lado, economistas falam em recessão nos EUA, indicando um pouso brusco, ou seja, produtor de conseqüências danosas na economia. Outros admitem pouso ameno, mas o que é certo de um ou outro lado fala-se em pouso da economia norte-americana.

Estamos fartos de saber que a política adotada pelo Governo Federal é extremamente receptiva a qualquer tropeço no cenário mundial, principalmente quando este tropeço ocorre na maior economia mundial. Sabemos, ou deveríamos saber, que as perspectivas são incertas, nebulosas. Especialistas em aplicações financeiras estão fartos de indicar diversificações nas aplicações, induzindo cenário de incertezas.

Outro dado apontado como certo é que as lojas estão cada vez mais dependentes da venda a prazo, sendo comum no noticiário da imprensa nacional e regional, fornecedores colocando à disposição dos consumidores ofertas encantadoras, facilitadoras de aquisição de novos produtos e serviços. Os consumidores, por outro lado, estão ignorando este cenário obscuro e incerto, mergulhando, de corpo e alma, no crediário.

A Folha de S. Paulo, em seu Caderno Dinheiro de 28/01, fls. 3-6, diz: A participação do crediário no faturamento deu um salto de 40% no final de 2000 sobre igual período de 1999. Ainda segundo a Folha, cálculo feito pela consultoria Tendências mostra que a participação dos créditos a receber de um grupo de empresas subiu de 25%, em média, no terceiro bimestre/99 para 35%, em média, em igual período de 2000.

Nesta linha de raciocínio, seguem os analistas afirmando que a inadimplência pode voltar a assustar, pois os fornecedores, animados com a queda de juros, expandiram, sem medo, a venda a prazo que chega a representar até 90% da receita de determinadas redes.

Fala-se em aumento da oferta de empregos (mostra-se real), degustamos a baixa de juros, e estes fatores conduzem os consumidores a aumentar o consumo, ficando presas fáceis das novas tendências do mercado.

Esquecem, estes consumidores, que embora caminhemos para um cenário otimista, não devemos ignorar que há chances para o pessimismo, pelas razões indicadas acima, as quais não foram criadas por nós, mas sim fornecidas por especialistas da área financeira.

Desta forma, entendo salutar a indicação para que os consumidores analisem, detidamente, no momento de mergulhar no crediário, pois os fornecedores, cobrando juros próximos de 4% ao mês, sinalizam com preocupações com a inadimplência. É importante ressaltar que os bancos captam dinheiro a 1,22%, portanto estão triplicando o capital, cobrando três vezes mais, imbutindo, aí, os quase 30% de inadimplência. O risco do negócio está sendo cobrado daqueles que pagam pontualmente seus débitos. Na atualidade nada existe de tão promissor no mercado que demonstre 300% de lucro. Quem está pagando este lucro é o consumidor, e, por ironia do destino, o consumidor mais frágil, menos informado, que trabalha com uma receita apertadíssima, que ao menor infortúnio de uma despesa extra imprevisível e indispensável (médico, medicamentos, etc.) mergulham na inadimplência, têm seus nomes lançados no SPC e/ou Serasa, e abarrotam o nível de negociações via Procon, ou aguardam as ofertas de final de ano para recuperar o crediário.

O ditado popular indica que se conselho fosse bom ninguém dava, mas sim vendia, entretanto, o Procon, através desta Coordenadoria, ousa dizer para os consumidores, principalmente os mais carentes de informações, para ignorar essas ofertas brilhantes de crediário, buscando comprar somente o necessário, evitando o supérfluo, usando do mecanismo da pechincha, através de pagamento à vista. E o pagamento à vista é possível com o adiamento de determinadas pretensões de compras de novos produtos ou serviços, com uma administração conservadora dos produtos existentes, com uma economia forçada e um planejamento de compras. Parece utopia, mas na atualidade há utopia do possível.

(*) Silvio Orti É Ten Cel Res da PM, Bel em Direito/ITE/Bauru e Coordenador do Procon/Bauru