08 de julho de 2026
Geral

"A gente tem que ser surdo e mudo?"

André Tomazela
| Tempo de leitura: 6 min

A profissão é de extrema confiança. Transportar políticos, autoridades e diretores de empresas requer do motorista um comportamento discreto e sigiloso, uma vez que a convivência leva a revelações por parte dos transportados que não podem chegar aos ouvidos da maioria

Confiança, experiência e responsabilidade. Essas palavras definem algumas qualidades que são comuns aos motoristas que transportam autoridades, políticos, artistas, diretores e outras pessoas componentes do chamado alto escalão das empresas públicas e privadas. O AutoMercado & Cia foi até as repartições públicas de Bauru para saber como é o dia-a-dia de um motorista oficial. E também entrevistou um motorista que transporta pessoas da diretoria de uma empresa pública.

Transportando no legislativo

A equipe tem seis pessoas. Todos exercem a atividade de agente de segurança legislativo, na qual uma das atribuições é ser motorista. Antonio Carlos Aires Bucovic é um deles. Começou na profissão de motorista por acaso e acabou entrando para a Câmara Municipal, onde está há três anos e meio.

Eu, toda vida, trabalhei com contabilidade. Depois, eu entrei numa construtora com a intenção de exercer a minha profissão de contabilista. Como estavam precisando de motorista, eu pedi para trabalhar, pelo menos, por trinta dias com o caminhão e acabei ficando sete anos, comenta.

Com toda essa experiência, Bucovic resolveu prestar o concurso para ser motorista da Câmara Municipal. Uma das atribuições é dirigir. As outras atribuições da função são fornecer proteção aos vereadores, principalmente quando tem sessão na Câmara Municipal, por isso o nome de agente de segurança, comenta.

Nas viagens com os vereadores, os motoristas acabam ouvindo informações que poderiam ser classificadas de sigilosas e, algumas outras, impublicáveis. Como são pessoas de confiança, precisam fingir que não ouviram nada. A gente ouve. Mas morre tudo ali dentro do carro. Para mim isso é normal. Quando eu trabalhava na construtora, onde eu transportava a família dos meus patrões, também guardava para mim tudo o que eu ouvia. Já estou acostumado, comenta. A gente tem que ser surdo e mudo.

Motorista de empresa pública

Vinte e quatro horas à disposição. Esta é a condição essencial para ser um motorista da diretoria de uma empresa, de acordo com Sidnei Fimenes, que transporta o superintendente de uma empresa pública em Bauru.

Atuando há 18 anos como motorista e conhecendo bem cinco Estados brasileiros, Fimenes começou a trabalhar numa companhia de força e luz estadual, onde permaneceu por cerca de 15 anos, atendendo ao setor administrativo da empresa. Depois disso, atuou como motorista de uma empresa especializada em promover shows de cantores e outras pessoas famosas em Bauru. Eu já transportei o Falcão, Mamonas Assassinas, Marisa Monte, entre outros, comenta.

A atividade, segundo ele, exige uma certa discrição, ou seja, o motorista precisa ter o cuidado de não falar nada sobre aquilo que escutou durante a viagem.

A pessoa que transporta artistas e outras autoridades continua sendo um motorista. A diferença é a qualificação, de acordo com Fimenes. Essa qualificação implica em certos requisitos básicos como ser preciso nos horários. Nós temos que calcular o tempo que leva para chegar ao local que a pessoa marcou. Nosso dever é chegar sempre sem qualquer atraso, afirma Fimenes.

Outros itens importantes que devem constar no currículo de um motorista profissional são os cursos sobre a área de trânsito e transportes em geral, como de direção defensiva, por exemplo.

Ter cuidado com o veículo também é de extrema necessidade. Fimenes revelou que ele lava e limpa o carro, na empresa onde trabalha, cerca de três vezes ao dia, dependendo da necessidade.

O próprio motorista também deve cuidar de sua aparência pessoal. Não deve utilizar bebidas alcoólicas e nem fumar. Isso prejudica a imagem do profissional, comenta. A rotina fora do trabalho também muda um pouco. Não dá para sair com a finalidade de diversão e se esquecer da vida, por exemplo. Isso porque, a qualquer hora o usuário pode vir a solicitar o serviço. Nós temos sempre que estar à disposição, completa.

Com relação ao trajeto, mesmo que o motorista conheça o melhor caminho para se chegar ao destino, faz-se necessário questionar o transportado para que o mesmo indique o trajeto. Se o trajeto indicado for problemático, o usuário não poderá culpar o motorista, comenta.

Confiança

Quando se transporta pessoas de cargos elevados, cria-se uma espécie de vínculo entre o motorista e o transportado. Esse vínculo é baseado na confiança. Por isso fala-se que ser motorista particular é ter um cargo de confiança. A pessoa deposita em você toda a confiança. Ele tem uma reunião e ele depende de você. Se você atrasa uma só vez, perde completamente a confiança, comenta.

Em função disso, segundo Fimenes, algumas vezes a empresa pode não querer o serviço de determinado motorista, mas a pessoa que é usuária, por ter criado confiança, impede que a empresa demita o funcionário.

Conduzindo mister Nilson

Não é por acaso que Jovelino Caldeira transporta ninguém menos que o prefeito municipal. Ele é o exemplo do motorista com experiência, responsabilidade e confiança, qualidades adquiridas em aproximadamente 30 anos de carreira.

Natural de Santo André (SP), Caldeira, como é conhecido em Bauru, já transportou diversos políticos na Grande São Paulo. Eu já transportei o Franco Montoro, José Serra, entre tantos outros. Eu trabalhei, também, com o assessor do Arnaldo Jardim, que na época era secretário da habitação de São Paulo, conta Caldeira.

Na ocasião de sua vinda para Bauru, Caldeira foi indicado por um parente bauruense que trabalhava como motorista da Câmara Municipal, que era o Joaquim Carabina. Ele teve a gentileza e a boa vontade de me trazer para esta cidade. Meus pais já moravam em Bauru e, aqui, eu entrei para a Prefeitura como servidor concursado. Após uns dois anos eu fui cedido para a Cohab, onde fui motorista da diretoria da instituição, conta Caldeira.

No ano de 1999, Caldeira voltou para a Prefeitura, assumindo a função de motorista de gabinete, do prefeito Nilson Costa. Eu tenho o maior prazer de trabalhar com ele. É uma honra para mim. Quem não combinar com o seu Nilson trabalhando, não combina com ninguém, afirma.

De acordo com Caldeira, o prefeito municipal é uma pessoa de grande personalidade, um intelectual. É uma pessoa muito calma, que sabe dividir as coisas.

Uma história na estrada

Essa foi demais! Eu não me lembro o dia. Faz um tempo, já. Eu estava indo para São Paulo à noite com o vereador Batata. Era pista dupla e eu estava ultrapassando um caminhão, quando eu vi um obstáculo na pista. Pensei que fosse madeira. Não dava para voltar, pois entraria embaixo do caminhão. Então, eu freei. A frente do carro passou. Já na traseira, estouraram os dois pneus. O carro continuou cambaleando. Na beira da pista havia um travesti que fazia ponto. Quando ele viu o carro desgovernado, saiu correndo, e perdeu até a peruca!, conta Bucovic.

Uma história inusitada

Foi bastante difícil! Eu estava transportando para São Paulo a Dercy Gonçalves que, depois de um show, não quis dormir em Bauru. No início da viagem ela solicitou que um segurança dela fosse no banco da frente enquanto ela viajava no banco traseiro do carro. A exigência dela era que o segurança ficasse controlando a velocidade do veículo. Ela não queria que eu passasse de 60 km/h! Como é que eu posso viajar numa rodovia a 60 km/h? Eu não deixei de escutá-la, mas tentei aos poucos convencê-la de que aquela velocidade seria um absurdo, conta Fimenes.