08 de julho de 2026
Geral

Convite de amigos é porta para drogas

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 7 min

Pesquisa realizada por estudantes da USC mostra que maioria dos jovens experimenta álcool e inalantes após oferta de colegas

O primeiro contato com as drogas é realizado, na grande maioria dos casos, a convite de amigos. É o que aponta a pesquisa Consumo de Drogas entre Universitários de Bauru, realizada no segundo semestre do ano passado por um grupo de estudantes da Universidade do Sagrado Coração (USC).

No total, o grupo aplicou cerca de 1.700 questionários em um universo formado por estudantes da USC, Universidade de São Paulo (USP), Universidade Paulista (Unip) e Instituição Toledo de Ensino (ITE), com idades entre 17 e 30 anos. Os entrevistados responderam 26 perguntas de múltipla escolha, que versavam sobre uso e freqüência de consumo de cigarro, álcool, cocaína ou crack e inalantes (cola de sapateiro, benzina, entre outros).

Os dados revelam que 69% dos homens e 62% das mulheres já ficaram de porre (embriagados). Entre os entrevistados, cerca de 39% experimentaram bebidas alcoólicas em bares ou boates. Em 41% dos casos, a primeira dose foi oferecida por amigos.

Em relação a inalantes, como cola de sapateiro e lança-perfume, o quadro não é diferente. Entre 39% dos universitários que afirmaram ter experimentado a droga, 41% a consumiram após tê-la ganho de amigos. Rogério (nome fictício), 24 anos, voluntário da Comunidade Bom Pastor, é exemplo de como a dependência pode se instalar por intermédio de amizades.

Meu primeiro contato foi com o álcool, aos 13 anos de idade. Logo na primeira vez, me embriaguei. Estava com amigos de infância, em um aniversário. Depois, tive contato com a maconha, logo em seguida com a cocaína. Nos dois casos, foram colegas que me ofereceram, relembra Rogério (leia depoimento completo nesta página).

Pesquisas realizadas pelo Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes de Drogas (Proad) da Escola Paulista de Medicina, em São Paulo, apontam que casos como o de Rogério não são isolados. Entre jovens que experimentam drogas ilegais, a maioria entra em contato com o produto por meio de amigos, afirma o site do órgão, considerado centro de referência em entorpecentes pelo Conselho Nacional Antidrogas (Conad), vinculado à Casa Militar da Presidência da República.

Idade

Segundo dados do Proad, de maneira geral, a experimentação de substância ilegais costuma ocorrer na metade ou no final da adolescência. A informação é confirmada pela pesquisa realizada pelos estudantes da USC: entre aqueles que disseram ter experimentado maconha, 17% dos homens o fizeram quando tinham entre 16 e 21 anos e 49% das mulheres, entre 10 e 15 anos.

Em relação à cocaína ou ao crack, a maioria dos entrevistados que já consumiu o produto disse que o primeiro contato foi entre 16 e 21 anos. No caso de bebida alcoólica, da média de 84% que já afirmou tê-la consumido, 64% o fizeram quando tinham entre 11 e 18 anos de idade e 11% estavam com menos de 10 anos.

A prevenção aos entorpecentes começa na infância. A criança aprende com o comportamento dos pais. Na maioria das casas há barzinho e farmacinha e, a qualquer problema, a criança vê os pais recorrerem a um tipo de droga. Então, a criança vai formando a idéia de que há droga para tudo, para engordar, emagrecer, para ficar alegre. Tudo se resolve com droga, com uma situação artificial, denuncia o psicólogo Luiz Carlos de Oliveira, que realiza pesquisa sobre prevenção a entorpecentes na Unesp de Araraquara, como doutorando.

A importância do alarde de Oliveira se confirma na pesquisa Consumo de Drogas entre Universitários de Bauru, a qual foi orientada pelo psicólogo. De acordo com o levantamento, seguido dos amigos, os familiares são quem primeiro oferecem bebida alcoólica ao jovem. E a experiência, em grande parte dos casos, é realizada na própria casa - a maioria dos contatos acontece nos bares e boates -.

Por isso, o Proad sugere que a atitude exemplar dos pais em relação às drogas é a forma mais certa de ajudar os jovens sobre o assunto. A maneira como os pais lidam com a questão tem muito mais efeito sobre o jovem do que as informações que são dadas. Ou seja, o que se faz é muito mais importante do que o que se diz, assinala o site do órgão.

Para pesquisador, o problema exige envolvimento da sociedade

Na opinião de Fernando Tozze Alves Neves, a incidência da dependência de drogas entre a população exige o envolvimento da comunidade como um todo nas atividades de prevenção e combate aos entorpecentes.

Fernando é um dos nove estudantes da USC que realizaram a pesquisa Consumo de Drogas entre Universitários de Bauru. Além dele, participaram do grupo os universitários Ana Paula Bassetto, Susana Farias Novaes, Christiane Ozaka, Ronaldo Torquato da Cunha, Eduardo Simioli Neto, Gustavo Lara Achôa, Maíra de Almeida Rocha e Fabiana Silva Meirelles.

De cursos distintos, eles se conheceram na disciplina Programas de Cidadania, que deve ser cursada obrigatoriamente por todos os estudantes da instituição. O programa da matéria prevê a realização de atividade de extensão à comunidade, como um programa educativo ou pesquisas de campo.

Incluídos no mesmo grupo, por sugestão de Fernando, resolveram realizar uma pesquisa de campo sobre o consumo de drogas entre universitários de Bauru. Após elaborar o questionário, composto por 26 perguntas, com a ajuda do psicólogo Luiz Carlos de Oliveira, foram a campo.

No total, ouviram cerca de 1.700 estudantes de quatro instituições universitárias da cidade. O resultado os surpreendeu. Consideramos alarmante o consumo de álcool entre os jovens, afirma Fernando Neves.

Com base nos dados obtidos, elaboraram cartilhas de prevenção e voltaram às universidades. A recepção foi melhor do que esperavam. Partindo de pessoas da mesma idade, a iniciativa tem melhor acolhida, acredita.

Para Fernando, a experiência foi importante. Entendi o valor da solidariedade. Uma cidade melhor depende de cada um e, para solucionar a questão das drogas, é necessário um conjunto de iniciativas realizada pela sociedade como um todo, aponta. Hoje, o farmacêutico se aprimora no assunto participando de curso oferecido pelo Laboratório de Toxicologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto.

Campanha da Fraternidade fala sobre drogas a partir do dia 28

A partir do próximo dia 28, a comunidade católica bauruense começa a debater o tema Vida Sim, Drogas Não!, tema da Campanha da Fraternidade de 2001. Na mesma semana, milhares de católicos do Brasil farão o mesmo.

A dependência química é um problema muito sério e trabalharemos para envolver ao máximo a comunidade. É preciso refletir sobre o assunto, que têm afetado muitas famílias brasileiras, afirma Francisco Nunes, o Xiko, coordenador da Campanha da Fraternidade em Bauru.

A abertura diocesana da CF deste ano será realizada com uma missa no dia 4 de março, às 19 horas, na Catedral da Diocese de Bauru. O evento terá a participação de representantes paroquiais locais. Depois, no dia 10 do mesmo mês, o convite para debater o tema é destinado aos pais.

Nesse dia, estaremos realizando uma palestra com o doutor Luiz Ossamu Sanda, que abordará a questão das drogas sob o ponto de vista familiar. Os pais terão muito o que ouvir, garante Xiko. A palestra, com entrada gratuita, será realizada no Anfiteatro da Universidade do Sagrado Coração (USC) e será aberta a toda a comunidade.

Paralelo a esses eventos sociais, a coordenação da campanha, em conjunto com a Pastoral da Sobriedade, estará realizando estudos sobre o tema em todos os setores da Diocese de Bauru, de grupos de crianças a casais. Palestras de apoio e atividades litúrgicas compõem o trabalho, que deverá continuar ao longo do ano, se assim o desejarem e considerarem necessário as comunidades católicas bauruenses.

Queremos que os cristãos de conscientizem sobre os trabalhos que já existem em relação à drogadição e criem, se possível, grupos de apoio a dependentes, usuários e familiares dentro da Igreja, salienta Celenita de Oliveira Coelho, coordenadora da Pastoral da Sobriedade.Mais informações sobre o assunto podem ser obtidas nas próprias paróquias ou no site na Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), pelo endereço http://www.cnbb.org.br.