10 de julho de 2026
Geral

Para embaixador, Walesa "está morto"

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 6 min

Boguslaw Zakrzewski e sua mulher Olga estiveram em Bauru para entregar a patente de tenente-coronel a um polonês

O embaixador da Polônia no Brasil, Boguslaw Zakrzewski, afirmou ontem, em rápida passagem por Bauru, que a era Lech Walesa acabou. Para ele, o criador do Movimento Solidariedade, nos famosos estaleiros de Gdansk, foi um bom sindicalista e líder político, mas falava coisas que o povo não gostava de ouvir. Há quatro anos no Brasil, Boguslaw encerrará, nos próximos meses, sua carreira diplomática, depois de representar seu país na China, Tailândia e Portugal. Em Bauru, o embaixador entregou pessoalmente ao polonês naturalizado brasileiro, Alekjander Gniewosz, a patente de tenente-coronel, concedida pelo seu exército de seu país a esse veterano da 2ª Guerra Mundial. A seguir, a entrevista com Boguslaw:

Jornal da Cidade - No final da década de 80, a Polônia foi um dos primeiros países do chamado Leste Europeu a iniciar a derruba do regime comunista. Valeu a pena inserir novamente o país no regime capitalista?

Boguslaw Zakrzewski - Trabalhamos muito para nos redemocratizarmos. Essa palavra é conhecida no Brasil porque vocês também, desde a metade dos anos 80, estão se redemocratizando. Temos uma idéia positiva de que trabalhamos muito, na década passada, para nos inserirmos, mais uma vez, no mundo democrático.

JC - Vou insistir na pergunta: se o senhor fizer uma comparação entre o comunismo e o capitalismo, em qual regime a Polônia se enquadra melhor hoje?

Boguslaw - Certamente no capitalismo. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu muito. Está crescendo a uma taxa de 4% ao ano. Pesquisas feitas com a população mostram que a maioria do povo aceita essa redemocratização e tem recordações negativas do socialismo.

JC - O senhor pode apontar quais são essas recordações negativas?

Boguslaw - O socialismo tem uma definição muito bonita, teoricamente tem bom conteúdo, mas a prática passou longe. E por isso surgiu o movimento Solidariedade, que abalou todo o sistema. E passados dez anos, desde seu nascimento, em 1980, o socialismo acabou. Dentro de todo o sistema existia muita força negativa, de cansaço, de rejeição, de desencanto. Mas também o capitalismo não é aceito com muita graça, com muita alegria. Também têm coisas também negativas. Já vivemos com desemprego, que era uma coisa desconhecida antigamente.

JC - Embora não tenha havido derramamento de sangue, como ocorreu em outros países do Leste Europeu, a redemocratização da Polônia não fazia parte dos planos do então presidente Jaruzelski.

Boguslaw - Na época, o general Jaruzelski acreditava que o socialismo poderia ser reformado, melhorado. Mas ele se enganou, como muitos outros. Ele proibiu o Movimento Solidariedade. E passados alguns anos, Jaruzelski decidiu que o tempo amadureceu para uma mesa redonda. O resultado dessa mesa redonda foi o fim do socialismo. Sem metralhadoras, sem derrame de sangue. O Partido Comunista assumiu que errou. Mas hoje as forças de esquerda estão se unindo novamente. Nesse momento, temos um governo de direita, que acaba em setembro próximo. Todas as previsões são de que a esquerda vai ganhar mais uma vez. Em 93, tivemos uma aliança de um parlamento de esquerda, com Lech Walesa, com um representante de direita.

JC - Lech Walesa é considerado o grande líder polonês, um dos responsáveis pela derrubada do regime comunista. Assumiu o comando do país no início dos anos 90 e não foi bem sucedido. Hoje, qual é a avaliação que os poloneses fazem de Walesa?

Boguslaw - Ele foi um bom líder sindicalista e até político. Tem instintos para coisas políticas, até porque o Solidariedade, além de ter sido um movimento sindicalista, também tinha algo muito político. Nesse momento, o Solidariedade está muito fragmentado; surgiram muitos partidos de centro esquerda e de extrema direita. E todos eles dizem: nós somos Solidariedade. Walesa ganhou só 1% dos votos nas últimas eleições. Isso indica que, depois de sua presidência, ele perdeu apoio da sociedade.

JC - Na opinião do senhor, qual foi ou quais foram as principais falhas de Walesa enquanto presidente da Polônia?

Boguslaw - O governo tinha muitas dificuldades. Eu creio que, sobretudo, Walesa, como pessoa, foi muito sincero. Fez declarações que o povo não gosta. Ele falava: eu não gosto de pessoas cultas; eu nunca li um livro e não vou ler; eu até tenho deconfianças de pessoas que têm educação; para mim, lugar de mulher é na cozinha. Ele não foi suficiente à altura, como um líder político. Cada povo gosta de sentir orgulho de seu presidente. De ter um presidente culto, presidente falando línguas, presidente que sabe se comportar, nas situações difíceis, com graça, com dignidade, com sabedoria. Esse líder sindicalista, que se recusou a crescer, infelizmente perdeu o apoio do povo. Eu fui seu intérprete durante encontros internacionais porque ele não fala nada, além da língua polonesa. Walesa é um homem com cabeça muito boa. Seu pensamento movimenta-se, reage, e até mesmo impressiona a gente com sua agilidade mental e com sua posição política, de jogo político. Mas isso não foi suficiente.

JC - O senhor acha que, politicamente, Lech Walesa está morto?

Boguslaw - Quase. Ele tem o seu partido, é ativo, é convidado como palestrante. Ele viaja o mundo inteiro para se encontrar com outros políticos aposentados de altíssimo nível. Walesa ainda está em andamento, mas a última eleição mostrou que ele tem apenas 1% dos votos.

JC - Em 1978, o cardeal Karol Wojtyla - hoje João Paulo II - foi escolhido Papa pelo Vaticano. Na sua opinião, a escolha de um Papa polonês ajudou a derrubar o regime comunista?

Boguslaw - Em grande parte. Quando ele pregava, dizia: não tenham medo, não tenham trepidação, tenham confiança no espírito; não abafem o espírito. Foram coisas religiosas com muito conteúdo político. E desde então o governo, o partido, aceitaram visitas do Papa. Foi um jogo político por parte dos comunistas, mas da maneira como aconteceu foi um jogo perigoso. Porque o contato do Papa com o povo criou mobilização, criou muita coragem.

JC - O senhor acha que a escolha de um cardeal polonês para dirigir a Igreja Católica foi uma escolha estratégica por parte do Vaticano, já que a grande maioria do povo polonês é católico e, de certa forma, o regime comunista abominava a religião?

Boguslaw - Eu penso que, em parte, foi uma política de ordenamento, da Igreja se juntar aos novos tempos. E também acho que foi o reconhecimento da Igreja para com os países comunistas, que viviam uma vida difícil.

JC - A Polônia foi um país muito visado durante a 2ª Guerra Mundial. De um lado, Hitler, de outro, Stalin. Na semana passada, um escritor americano acusou a IBM de colaborar com os nazistas na identificação de famílilas judias. Os nazistas criaram, no seu país, a máquina mortífera de Auschwitz. O senhor acredita no envolvimento da IBM na concretização do Holocausto?

Boguslaw - Na Polônia, surgiram opiniões de estudiosos, inclusive de pessoas ligadas ao Museu de Auschwitz, que afirmam que nada consta nos arquivos, no corpo de pesquisa do Holocausto, sobre isso. O museu pesquisa com detalhes como os nazistas trabalhavam, digamos, a destruição do judeus. Mas não dá para dizer que a IBM existia no funcionamento de Auschwitz. Do lado polonês, os estudiosos rejeitam essa possibilidade.