Associação de cigarro com anticoncepcional deixa a mulher 20 vezes mais vulnerável ao infarto. Estresse também influencia
Se já não bastassem os problemas exclusivamente femininos, como os relativos a útero, ovários e mamas, incluindo a menstruação e gravidez, as estatísticas mostram que algumas doenças estão cada vez mais freqüentes em mulheres que em homens. É o caso das doenças cardíacas - hoje, a principal causa de morte feminina nos países desenvolvidos. Mas nesta lista também entram a osteoporose, o Mal de Alzheimer, os distúrbios de tireóide, a incontinência urinária e vários transtornos psíquicos, com destaque para a depressão.
Nas últimas décadas, notamos um aumento considerável na incidência da doença coronariana entre as mulheres, afirma a cardiologista Sandra Rodrigues. Segundo ela, isso aconteceu, principalmente, por três motivos: o aumento da participação da mulher na vida econômica e no mercado de trabalho, com conseqüente aumento do nível de estresse; a obesidade, aliada ao sedentarismo; e a adoção de hábitos antes exclusivos dos homens, como o tabagismo e a ingestão de bebidas alcoólicas.
A mulher de hoje tem participação ativa na vida econômica da família. Muitas vezes, ela é o sustento da casa. Além disso, ela ainda é responsável pela educação dos filhos, tem que cuidar do marido, coordenar a casa e se cuidar. Tudo isso gera estresse, lembra a médica.
Por conta dessa agitação, as mulheres acabam não conseguindo respeitar os horários de refeição e atividade física, ficando cada vez mais obesas e sedentárias, que são outros sabidos fatores de risco para as doenças do coração.
Mistura letal
De acordo com a cardiologista, em 1970, menos de 10% das mulheres adultas fumavam. Nesta época, fumar era feio para mulheres. Na década de 80, esse índice subiu para 25%, sendo 33% nas mulheres em idade fértil.
Hoje, provavelmente, esse número é muito maior e, principalmente na faixa etária da vida reprodutiva da mulher. Atualmente, o método contraceptivo de primeira escolha ainda é a pílula anticoncepcional. O que acontece é que a pílula, por si só, já causa um engrossamento do sangue, aumentando o risco de doença coronariana. Somado com o cigarro, esse risco aumenta muito.
Aumenta 20 vezes, segundo a psiquiatra Analice Giglioti (www.bolsademulher.com.br), tornando a mulher fortemente mais vulnerável a infartos, derrames, gangrenas e tromboses que os homens. Isso, além dos prejuízos que o cigarro pode causar ao feto e à aparência da mulher, já que contribui para o envelhecimento da pele.
Ainda assim, a doença coronariana aparece mais ou menos uns dez anos mais tarde que nos homens, ressalta a cardiologista. Apesar dos fatores de risco e da maior incidência dos problemas cardíacos na mulher, ela tem a proteção dos hormônios. Por isso, as doenças aparecem, geralmente, a partir da menopausa, quando a produção hormonal cai. Aí, aquelas fumantes que fazem reposição hormonal - como as que tomam anticoncepcionais -, ao invés de se proteger, podem estar aumentando seus riscos cardíacos.
Osteoporose
No organismo, o osso está constantemente sendo produzido e reabsorvido. Uma célula chamada osteoblasto produz e o osteoclasto gasta. A osteoporose é um desequilíbrio entre essa produção e a reabsorção do osso, tornando-o enfraquecido, explica a ginecologista Carla Lambertini Bonjorno.
Segundo ela, a doença é subdividida em dois tipos. A osteoporose primária é aquela que decorre da idade avançada, manifestando-se a partir da menopausa; nestes casos, geralmente existe um componente genético determinando o desenvolvimento da patologia.
Já a osteoporose secundária é aquela causada por fatores externos, como a pouca ingestão de cálcio, o hábito do tabagismo, consumo exagerado de álcool, excesso de consumo de cafeína, doenças endócrinas, falta de tomar sol, reumatismo, uso de medicamentos, etc. Cerca de 60% a 70% das mulheres têm a primária, enquanto que 65% dos homens têm a secundária.
De acordo com o geriatra Luciano Camargo, a maior freqüência da osteoporose nas mulheres deve-se às alterações hormonais porque elas passam no decorrer da vida. O homem também apresenta uma queda na produção hormonal conforme a idade avança, mas é uma queda mais lenta e que raramente ultrapassa o limite da normalidade. Já a mulher, quando entra no climatério (menopausa), os hormônios praticamente deixam de ser produzidos.
Ele lembra que a importância da osteoporose na terceira idade (a doença costuma ser identificada a partir dos 50 anos) são as complicações que ela pode causar: O idoso tem maior risco de queda, em função das alterações de marcha, de postura e pela fraqueza muscular. E as chances de haver uma fratura de fêmur ou de quadril são grandes. No paciente com osteoporose, o tratamento dessas fraturas é muito mais difícil, porque ele não tem uma massa óssea boa e o osso enfraquecido demora muito para se remodelar e se consolidar.
O geriatra ressalta que quanto mais tempo esse paciente fica imobilizado e acamado, maiores os riscos de acometimento por outras patologias, como as complicações pulmonares, a atrofia muscular e a própria incontinência urinária.
Incontinência
O geriatra comenta que este á outro problema muito comum na terceira idade, atingindo mais comumente as mulheres. Pela própria alteração hormonal. A deficiência estrogênica do climatério leva a importantes alterações na mucosa vaginal, resultando em atrofia da musculatura pélvica, que diminui a funcionalidade dos esfíncteres (músculo que controla o fluxo de secreções pelo organismo) e leva à perda urinária.
Segundo o médico, a incontinência é ainda mais comum entre as mulheres que tiveram vários filhos, pois a multiparidade (vários partos) acaba levando a alterações anatômicas na pelve, predispondo também à perda urinária. Há um enfraquecimento da musculatura, dos esfíncteres que ajudam a conter a urina.
Doenças da tireóide
De acordo com o geriatra, as doenças da tireóide na terceira idade são três a quatro vezes mais comuns na mulher que no homem, mas as causas disso ainda não foram cientificamente determinadas.
A tireóide é uma glândula que produz um hormônio regulador do metabolismo orgânico. Diz-se que o paciente tem hipertireoidismo quando a produção hormonal é superior ao normal; e que tem hipotireoidismo quando esta produção é insuficiente.
O hipertireoidismo acelera o metabolismo do corpo, causando alterações cardiovasculares (palpitação e taquicardia) e perda acelerada de peso. O tratamento pode ser clínico ou cirúrgico. Já o hipotireoidismo retarda o metabolismo orgânico, tornando o indivíduo cansado, apático, sonolento. Ele apresenta-se sempre constipado, com a pele ressecada, uma diminuição da freqüência cardíaca. Nesse caso, o tratamento é a reposição hormonal. O paciente vai tomar hormônio por toda a vida para manter os níveis normais deste hormônio no sangue.
Segundo o geriatra, o hipotireoidismo é mais freqüente na terceira idade e, muitas vezes, o quadro é subclínico, ou seja, o paciente não apresenta sintomas. Quase sempre é um achado, uma alteração descoberta por acaso em exames de rotina. Até há pouco tempo, nós não tratávamos o subclínico, pois ele não acarretava problemas. Hoje sabemos que ele tende a evoluir para um caso clínico, então iniciamos logo o tratamento.
Alzheimer
O Mal de Alzheimer é uma doença degenerativa do Sistema Nervoso Central que pode levar a diversos níveis de alterações do comportamento, desde esquecimentos súbitos (memória recente) até a demência. A ginecologista Carla Lambertini Bonjorno afirma que a patologia é muito mais incidente em mulheres, aparecendo geralmente por volta dos 70 anos.
Estudos comprovam que a doença é estrogênio-dependente e que o uso do estrogênio (hormônio feminino) nestas pacientes altera a evolução da doença, porque protege o cérebro da formação de aterosclerose (placas que se formam no cérebro, impedindo a transmissão elétrica entre as células nervosas) e aumenta o fluxo sangüíneo cerebral, mantendo uma boa cognição da mulher.
Segundo a médica, quando a doença é diagnosticada precocemente em mulheres e é administrado o tratamento com estrogênio, ocorre a reversão completa do quadro. Para o homem com Alzheimer ainda não há uma solução, pois o hormônio feminino resultaria em inúmeros efeitos colaterais. Mas pesquisadores estão tentando administrar um anti-hormônio masculino, supondo que a redução deste hormônio poderira ajudar. Mas isso ainda não está comprovado.