09 de julho de 2026
Geral

Cerca de 350 mil brasileiros são surdos

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 6 min

Os números são assustadores: segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), 10% da população mundial sofre de problemas auditivos

A surdez pode surgir em qualquer fase da vida e, muitas vezes, é irreversível. Quando ocorre desde o nascimento, a mais grave, pode afetar definitivamente o desenvolvimento psicossocial do ser humano.

Crianças deficientes auditivas possuem ou gozam de completa capacidade mental. São pessoas absolutamente normais sob o ponto de vista psicológico, mas, devido a falta de informação, é comum que sejam tratadas ou confundidas com deficientes mentais ou autistas.

A surdez na fase adulta é um desastre para o desenvolvimento profissional, social e psíquico do homem. Na terceira idade, a situação piora porque já existem tendências a introversão e a segregação do indivíduo em idade avançada. Várias formas de perda auditiva podem ser tratadas com bons resultados, às vezes com custos elevados.

É preciso conscientizar o povo brasileiro sobre isso, e mostrar as formas de prevenir a doença.

O número de pessoas afetadas pela deficiência auditiva está proporcionalmente relacionado com o grau de desenvolvimento do País. Os enormes contrastes regionais, seja por condições sócio-econômicas, diferenças culturais, fatores ambientais, hábitos de higiene, estados nutricional e imunológico da população, falta de saneamento e, o principal, falta de informações e da medicina preventiva, distanciam ainda mais o País dos povos desenvolvidos.

Baseando-se em dados da OMS, porque não dispomos de números confiáveis para estabelecer o total de surdos do Brasil com precisão, estima-se que deve existir mais ou menos 15 milhões de pessoas com algum tipo de perda auditiva, sendo 350 mil indivíduos brasileiros que nada ouvem.

Rubéola materna

A rubéola, que atinge mulheres durante a gestação, é uma das principais causas da surdez congênita. Essa doença poderia ser evitada com a obrigatoriedade da vacinação de todas as crianças do sexo feminino.

A falta de controle de doenças que se tornaram epidêmicas, como a meningite, e as lesões causadas pelo comércio livre e o uso indiscriminado de drogas ototóxicas (tóxicas para o ouvido), são agravantes da surdez no Brasil, o que já não acontece em países de primeiro mundo. Nestes e em outros casos, educar e prevenir são os meios mais econômicos para se reduzir substancialmente a surdez no País.

Surdez: inimiga desconhecida

Pesquisas mostram que apenas quem sofre deficiência auditiva ou convive com quem a tem, conhece o tamanho do problema. A surdez não é visível a olho nu, não é esteticamente negativa. Mas é raro encontrarmos uma pessoa com surdez profunda totalmente adaptada à sociedade.

Em geral, esses indivíduos são tratados como deficientes mentais, acabam socialmente marginalizados, tornando-se deprimidos e inseguros pela incapacidade da sociedade em lhes dar atenção. São esses os motivos que levam a surdez a ser psicologicamente repulsiva. A perda auditiva interfere fatalmente na condição mais importante da vida humana moderna: a comunicação.

Quem não escuta não se comunica, portanto não pode compreender seu ambiente exterior e nem se exprimir através da fala. A audição é tão importante que, dentre os órgãos do sentido, o ouvido é o único que permanece em alerta as 24 horas do dia.

Cegos e outros deficientes já gozam de meios de comunicação e locomoção adaptados e adequados, conseguem ocupação profissional e integração social. Não é raro que pessoas cegas se tornem conhecidas e famosas. Isso não se repete com os surdos.

Segunda maior deficiência

Dados do último censo realizado pelo IBGE revelam que a surdez é a segunda maior deficiência citada pelos entrevistados. De acordo com dados obtidos junto à Divisão de Clínica Otorrinolaringológica do Hospital das Clínicas da FMUSP em São Paulo, considerado o maior hospital da América Latina, problemas relacionados ao ouvido, nariz e garganta estão classificados em 2º lugar quando comparados a outros atendimentos no complexo HC. Em contrapartida, a surdez, quando comparada a outras deficiências físicas, recebe pouca ou nenhuma atenção da sociedade, autoridades e até de profissionais da saúde.

Prevenir é ouvir

O surdo pode representar um grande peso para a família e para a sociedade. Pode ser um indivíduo dependente por toda a vida. Os métodos adotados até hoje no tratamento da surdez são desnecessariamente dispendiosos e ineficazes na reintegração destes doentes em suas atividades normais. Por exemplo, a saúde pública no Brasil entende que o tratamento fonoaudiológico para a reabilitação do deficiente auditivo é um serviço supérfluo.

Em alguns casos, uma cirurgia feita sem acompanhamento de fonoaudiólogo, pode ser inútil. Isso não acontece em países que executam programas e serviços públicos médicos e assistenciais exemplares em qualidade e abrangência. Um exemplo disso é a Suécia e outros países do primeiro mundo.

Quem ouve bem, aprende melhor

A Campanha Quem ouve bem, aprende melhor!, inserida no Programa Nacional de Saúde do Escolar e com início no mês de outubro de 1999, nasceu da parceria representada pelo Ministério da Educação/FNDE, Ministério da Saúde, Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia, Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, Sociedade Brasileira de Otologia e Fundação Otorrinolaringologia, com o objetivo de detectar alunos com problemas no ouvido e iniciar o tratamento médico adequado.

Para tal objetivo, a Campanha foi dividida em duas fases. Na primeira fase, realizada no final do ano de 1999, foram distribuídos kits para as escolas públicas dos municípios com mais de 50.000 habitantes (Censo IBGE 1996), onde os alunos matriculados na 1ª série do ensino fundamental foram testados por meio de vídeo-teste. Um total de 481 municípios, 3 milhões de alunos e 37.666 escolas participaram dessa fase. Em Baur, apenas uma escola participou do programa.

Os kits incluíam duas fitas em VHS. A fita um, continha o Teste de Audição, e na fita dois, constavam orientações para conscientização dos problemas auditivos e suas conseqüências quando não tratados de forma apropriada. Além disso, acompanhavam este kit, material ilustrativo e fichas de encaminhamento médico.

O vídeo-teste, desenvolvido pela fonoaudióloga e professora Iêda Pacheco Russo e pelo professor e médico, Pedro Luiz Mangabeira Albernaz, compreende sons, equivalentes as freqüências de 500, 1000, 2000 e 4000 Hz, emitidos por animais: coruja, cachorro, gato e passarinho, respectivamente, e cada freqüência é emitida em intensidades diferentes (do maior para o menor volume).

As professoras, devidamente informadas pelas instruções contidas no início da fita, referentes à calibração dos aparelhos de televisão e vídeo-cassete, aplicaram o teste e anotaram quantas vezes o aluno levantou a mão acusando ter escutado o som. Alunos que escutaram menos de cinco vezes alguns desses sons, foram identificados com possível problema auditivo e encaminhados para a 2ª fase (atendimento médico-fonoaudiológico especializado).

No total, 429 municípios e 10.532 escolas participaram da 1ª fase, e 780.450 alunos foram testados. Os resultados obtidos compreendem 264.189 alunos triados e encaminhados para a 2ª fase.

Na segunda fase, os alunos inicialmente foram submetidos a uma avaliação auditiva: audiometria (via aérea 500, 1000 e 2000 Hz), e, em seguida, avaliação médica com um otorrinolaringologista. Caso não sejam constatadas alterações no exame, o aluno fica liberado (alta); caso contrário, uma avaliação mais aprofundada é realizada (via óssea, timpanometria). No caso de afecção auditiva, o aluno deve ser encaminhado para o tratamento adequado, que pode ser desde procedimentos simples, como colocação de um tubo de ventilação, até cirurgias e distribuição de próteses auditivas.

Início

A Primeira Campanha Nacional de Prevenção da Surdez, que ocorreu em 1997, foi uma iniciativa de várias entidades, entre elas, Fundação Otorrinolaringologia (FO), Sociedade Brasileira de Otologia (SBO), Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia (SBORL), Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (SBFA) e Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa). O objetivo principal, consistiu em educar e conscientizar a população brasileira para os problemas da surdez com vistas a sua prevenção. Atingindo 146 cidades brasileiras, a Campanha mobilizou cerca de 3.000 voluntários, essencialmente médicos otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos, e examinou 94.678 pessoas por meio de testes de audição gratuitos.